Terça-feira, 29 de Julho de 2008

Amor letão

Excepto quando o filho adoece, vem a dias fixos: segundas e quintas ao início da tarde a chave roda por fora da porta e empanca porque a minha está, por dentro, a tomar o lugar de quem quer entrar. A minha chave não é apenas uma chave que está por dentro da porta: é uma chave que diz que há um dono para aquela porta. Eu levanto-me, abro a porta, ela entra e fica sempre as mesmas horas. Ao fim do mês sei de antemão a quantia que tenho de lhe pagar.

Ela é a empregada. Os amigos sabem tudo sobre a minha vida mas não sabem o nome da minha empregada. E eu não sei o nome da empregada deles. Ninguém sabe o nome das empregadas que os outros empregam. Reparem: empregam. A palavra tem duplo sentido: dar emprego; usar. Como toda a gente, eu emprego-a. Seria um escândalo dizer que a uso para executar uma tarefa que acho menor. Dou-lhe um emprego – e isto traz-me a vaga noção de não ter descido a fasquia em que os meus pais me colocaram, de não ter traído as expectativas da família.

Mas quando em conversa com amigos me refiro à empregada, faço questão de lhe atribuir a graça que os pais lhe deram. Não por um qualquer humanismo paternalista, não por reconhecer uma identidade a esse vago ser que uso. Trato-a pelo nome à conta de uma difusa culpa a que alguém chamou burguesa, palavra que não percebo mas que parece ditar uma boa parte dos meus comportamentos e da minha culpa.

A burguesia não existe, dizem-me. A pós-modernidade acabou com isso, dizem-me. Isso são rótulos, dizem-me. Eu aceito. E enquanto aceito, anualmente aumento o “salário” à tipa que uso para afagar o meu ego social (e, de rabo para o ar, encerar o meu chão). Meio cêntimo à hora, um euro à hora. Ela agradece-me muito. Diz que o senor Juáu ser muito bom com Laryssa. E eu penso que sim, que lhe ofereço condições admiráveis, nem sujo muito para ela não ter canseiras excessivas, por vezes até me dou ao trabalho de ser eu a comprar o “detrejent” que ela diz ter acabado.

E sinto que não sou só eu, não estou só nisto de ser boa pessoa, não sou um tonto ingénuo, os meus amigos também aumentam as suas empregadas cujo nome nunca decorei. Não por culpa burguesa, mas por humanidade para com esses pobres seres vindos de países culturalmente subnutridos, que mal sabem lavar a loiça e deixam tudo fora do sítio – são todas iguais estas empregadas, dizemos por vezes, com a consciência tranquila de sabermos que a burguesia não existe, a pós-modernidade acabou com ela, o mundo mudou e nós somos melhores, mais sofisticados e mais humanos que os nossos pais. Dizem.

publicado por João Bonifácio às 14:51
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8 comentários:
De isa a 29 de Julho de 2008 às 20:09
Regresso em grande!
De clara a 29 de Julho de 2008 às 22:42
Credo, ser de esquerda é cansativo, tanta culpa e nenhum sítio onde a expiar.
De Sara Maia a 30 de Julho de 2008 às 14:58
As generalizações são perigosíssimas.
A minha empregada é portuguesa, lisboeta. E não imagine uma matrona de Alfama; vive numa zona nobre de Campo de Ourique. Com uma ortografia exemplar, sem um único erro, deixa-me bilhetinhos de vez em quando: «Menina, levei os cd's da Ella Fitzgerald para gravar em casa. Trago-lhos para a semana. Beijinhos».
De Leonor a 1 de Agosto de 2008 às 14:28
Li este texto há uns dias aqui, voltei depois e continuo a voltar. Muito bonito.
De RFF a 4 de Agosto de 2008 às 20:57
A burguesia cada vez está mais burguesa.......
Um país de romenos , ucranianos, e outros de leste é a minha utopia........Um Portugal sem portugueses.....

Gostei. Saúde.
De Joanina a 6 de Agosto de 2008 às 15:17
Foram (todos) de férias ... ??!!...
De Mata Ratos a 11 de Agosto de 2008 às 01:21
Eu Tenho Um Pobre

Composição: Mata-Ratos

Eu tenho um pobre
De quem só eu cuido
Sou um cidadão honrado
Mereço ser respeitado

Eu tenho um pobre
Esfarrapado e sujo
Sou um cidadão honrado
Mereço ser venerado

Eu tenho um pobre
Eu tenho um pobre
Eu tenho um pobre
Eu tenho um pobre

...
De RV a 11 de Agosto de 2008 às 12:27
Por vezes o GReader pára num blogue qualquer que nem sempre leio.
Mas desta vez fiquei a ler. E a ler até ao fim.
Antes chamava-se a criada/criado... mas que interessa?
Parece que nos sentimos culpados do que não há culpas para ter. Elas precisam de trabalhar e nós de ajuda...
É por aí... mal estavam os antigos que se aproveitavam delas. Mal... estavam eles com as histórias sórdidas que se ouviam e passavam de geração em geração.
Hoje só se pede que arrumem e recebam um salário.
Por mim... sem sentimentos de culpa.

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