Quarta-feira, 23 de Julho de 2008

quem tem a culpa de Portugal?

Algo me escapa na completa compreensão de Portugal.

 

Em teoria, Portugal seria responsabilidade dos portugueses, mas já tenho falado com alguns portugueses – aqui e ali, comigo próprio – e não parece ser assim.

 

O português, se já viajou pelo menos uma vez ou duas, dirá que se vive muito melhor em Madrid. Que Barcelona é que é uma cidade. Que foi a Paris e ficou parvo. Que Londres é que é cosmopolita e isto é o campo. Que os alemães é que trabalham. Que a América é que é livre. Que, no Luxemburgo, é que lhe dão o valor. Que a Irlanda é que topou a Europa. Que em Cuba é que há bons médicos. Em Itália é que há turismo. A Grécia, aquilo é que são ilhas. O Brasil, aquilo é que é viver. Na Bélgica, aquilo é que é limpeza. A Suíça é que é civismo. A Suécia, a Noruega e a Dinamarca – Deus meu! – é o Olimpo: trabalha-se pouco, mas bem, há instrução a rodos e, do neto ao avô, toda a gente presta serviço à comunidade. A Islândia é que faz música. Em África é que era. Na China é que eles sabem como é que é. A Holanda é que é liberal. A Argentina é que é bonita. A Venezuela não se deixa enganar. O Canadá não se mete em chatices. A Austrália é que deu certo. No Japão é que se pensa.

 

E concluem fatalmente: não é como aqui.

 

Se o português nunca viajou, pior. Porque tem um primo na Áustria, um cunhado na África do Sul e uma irmã na República Checa que se fartam de viajar porque, na Áustria, na África do Sul e na República Checa é que é.

 

Ora, de tudo isto infere-se o seguinte: Portugal é uma coisa e os portugueses outra. Portugal é algo que se cria e deglute a si mesmo. Só pode ser. É habitado por uma gente luminosa e esclarecida, mas, mesmo assim, não dá luz. Não aproveita. Que ingratidão.

 

Os portugueses – eu, você, o Vale e Azevedo e os outros dez milhões – estamos conscientes de tudo o que funciona, como funciona e sentimo-nos sofregamente identificados e compreendidos de cada vez que voamos alguns quilómetros para lá de Vilar Formoso. Mas que fazemos exactamente com essa informação? Nada, claro. Tentamos desesperadamente, mas Portugal não nos dá ouvidos. O que é esquisito, dado que, ao que parece, todos os portugueses pensam precisamente o mesmo que nós.

 

É como a alegoria da caverna de Platão. Nós saímos da caverna, vimos todos a verdade lá fora, mas não somos capazes de iluminar o nosso mundo de sombras quando regressamos.

 

Que estranho. Gente tão especial e esperta como nós.

publicado por Alexandre Borges às 00:54
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5 comentários:
De isa a 23 de Julho de 2008 às 02:30
e pior que tudo, somos todos como o Nuno Rogeiro, sabemos de tudo, a nós ng nos toma por estúpidos, conhecemos os problemas do mundo, temos solução para eles e sabemos quem são os malandros que "se andam a encher", que isto é uma vergonha, se fosse comigo fazia e acontecia. ainda assim não só "não somos capazes de iluminar o nosso mundo de sombras quando regressamos." como nem sequer damos uma ajudinha a que a coisa melhore por aqui, nem plo mundo, sequer... e aqui vivemos, no meio desta corja. "eles", "eles" é que são os maus da fita! ai se os apanho... a "eles"!!!
;-)
Bjs
De vertigo a 1 de Agosto de 2008 às 15:53
Realmente...O post está muito ilustrativo...Estranha semiótica rege este país. Importante ler "Portugal hoje o medo de existir" de José Gil...que muita gente terá lido...mesmo que todos tenhamos responsabilidades no que diz respeito a mudar e a usar "a verdade" que até temos, é como algo que nos há-de sempre escorregar como areia fina das mãos...desconcertante..eu posso querer fazer a diferença, mas preciso que os outros também a façam, que as infra-estrutauras e sistema estejam preparados para a dieferença, é todo um gigante labirinto a ter de se ordenar...Tarefa quase impossível...
De Blogadinha a 3 de Setembro de 2008 às 17:53
Não é «estranho», é puro comodismo.
Experenciamos o dom da palavra, não mas não dominamos a acção.

Quem vem de fora constrói; nós aplaudimos.
A degradação sequente da obra... é sempre garantida!

Ó país com uma geração de atraso!...
Cumprimentos.
De Alexandre Bettencourt a 16 de Dezembro de 2008 às 14:06
Por falar em "estranha gente" que perdeu a sua auto-estima, tomo a liberdade de vos incitar à aquisição do revelador surspreendente "O Grande Livro dos Portugueses Esquecidos ( ed. Temas & Debates/Círculo de Leitores ) do historiador Joaquim Fernandes.

Trata-se de um inventário do “Portugal lá fora”, singular e surpreendente, que revela um rosário de vidas excitantes e exemplares de Portugueses que não tiveram lugar no seu próprio país por intolerâncias de vária ordem.

É em simultâneo um diagnóstico das causas dos nossos atrasos seculares e uma homenagem
a tantos ilustres compatriotas que a nossa memória colectiva não reconhece.



Cumprimentos,

Alexandre Bttencourt
Angra do Heróismo
De catavento a 11 de Outubro de 2010 às 12:57
os portugueses iluminados e viajados tipo familiar de rui moreira esses sim são muito viajados pela banca das antas e só investigae e ver como esta alma depenada lava isso, mas quem anda nos tribunais e o nuno e mais a sua legião de fas ...

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