Quarta-feira, 23 de Julho de 2008

Mijadela em Barcelona

 

 

O ar de Barcelona abre o apetite. O vento também. Aliás, o  melhor da cidade são as raparigas de bicicleta. Elas surgem de repente e logo desaparecem, e esse é o tempo exacto da contemplação. Um segundo a menos faria delas perversas, um segundo a mais deixaria com cara de parvo quem as vê passar. No silêncio do velocípede, os cabelos e a roupa ao vento dão-lhes uma dimensão alada, como se "voassem baixinho".  O encontro só desilude quando aparece uma rapariga feia ou quando uma bonita perturba o silêncio tocando a campainha - alguém devia explicar às raparigas bonitas que só podem tocar às campainhas de certas portas. Mas falemos de comida. 

 

Taxidermista fica num edifício de 1850, abrigado pelas arcadas da Plaça Reial. Tem na fachada, em letras literalmente garrafais, a frase "Museo Pedagogico de Ciencias Naturales" , sinal de uma existência prévia. Também o chão axadrezado é de origem, e já em 1850 deve ter hipnotizado alguns e proporcionado linhas de fuga aos que necessitavam de se evadir do local sem de lá sair, para não falar nos comportamentos obsessivos que induz e potencia, sobretudo no quadro clínico da síndrome de Tourette. Mas falemos de comida.

 

Ler uma ementa em catalão não é tarefa fácil. Aliás, qualquer palavra catalã transporta o HpA para os grandes sucessos de Lluís Llach. O fenómeno é curioso e repetir-se-ia inúmeras vezes no dia seguinte, na fundação Joan Miró. Sempre que tentava ler um parágrafo explicativo em catalão, o Llach chegava, a dar coices na guitarra ou acompanhando-se ao piano, deixando-lhe a cabeça refém de Per un tros del teu cos, que tentava depois expurgar de assobio. É possível que ainda ecoe por lá, há umas salas abobadadas, com os veios do cimento que se intrometeu entre as tábuas de madeira na altura em que tomava forma e que depois algum arquitecto com pretensões optou por não polir,  Deus (Corbusier) lá saberá os motivos. Mas falemos de comida. 

 

Pediu-se sangria, queijo frito, carnes frias, pimentos de padrón, anchovas e pão. Só à mesa ao lado calhou o requinte, o lombo de um robalo com a flexibilidade mórbida dos peixes já sem espinha, enroladinho como um papel de embrulho caro que resguarda uma prenda preciosa. Uma ameixa cozida? Uma trufa afogada em natas? Na outra mesa do lado, dois homens em tristes figuras, falando um com o outro sem entusiasmo e guardando o brilho no cristalino para o telemóvel- ou então era o reflexo do écran nos olhos deles. Um tinha o sorriso nostálgico de uma história que estava já no desquite, o outro o sorriso esperançoso de quem ainda não a viu nua - não é fácil distinguir estes sorrisos, é preciso já ter passado pelas duas situações, de preferência com a mesma mulher, por imperativos de calibração. Mas voltemos à comida.


 

Estão por descrever os efeitos mictórios da sangria, mas em sociedade um homem decide urinar e a bexiga tende a ser apenas um pretexto. Porque poucas coisas são mais retemperadoras do que urinar a sós numa casa de banho pública. De resto, a exposição do pénis cria um halo de inibição social que faz de uma casa de banho à pinha uma multidão de homens sós. É importante contrariar uma ideia feita: a grande diferença de género quanto aos lavabos não é ir sozinho ou em grupo, mas sim aquilo com que homens e mulheres se decidem confrontar uma vez lá dentro. O homem escolhe o urinol e a mulher escolhe o espelho, isto é, o homem contempla a sua urina enquanto a mulher se contempla a si própria. Há um gozo infantil em fazer figuras com a urina e pontaria às bolas de desinfectante. Há também uma subtileza narcísica, que atenua a diferença de género mas não a esbate por completo: o cheiro da própria urina morna é agradável, apenas o cheiro da urina dos outros é nauseabundo. É por isso que um homem gosta de urinar de pé, não é pelo medo de que um vírus se entranhe pela coxa ou o penetre de respingo. Ou então tudo isto é idiossincrasia e não apenas esta: a contracorrente com as leis da dinâmica de fluidos e dos fluidos propriamente ditos, a única fobia do HpA é que um bicho entre nele subindo pela cascata de urina, com a mesma obstinação com que os salmões sobem os rápidos. Mas isso não o demove de urinar com gosto, nem é motivo para o fazer com travadinhas, a conta-gotas, para que os seus precious bodily fluids não entrem em contacto directo com a rede de esgotos de barcelona. Afinal, é só ao mijar que um homem se funde com a Terra, sobretudo desde que andamos bem calçados.

 

 

 

 

 

 

Nota: após consulta popular, o HpA decidiu suspender actividades. Entre outras coisas, foi-lhe dito: "o X escreve com alma mas o que escreve não tem interesse. Aquilo que escreves tem interesse, mas falta-lhe alma. Não funciona". Bate certo. Há uns anos, ele próprio lançou um repto na mailing list para os objectos perdidos. Escreveu então: 

 

Lost item: my soul

30% sinful but generally in good condition

Tends to fly or escape through tiny holes if left unattended

Thanks for delivering it without sneaking inside.

 

Como as regras de boa educação e a antevisão de atritos sobre direitos autorais desaconselham a fusão com o escritor X, é muito pouco provável que o HpA volte a aparecer. Aqui ou noutro lugar. A menos, claro, que a sua alma entretanto regresse.

 

Obrigado aos colegas do Sinusite, pelo convívio, e à Maria João Nogueira, pela hospitalidade.

 

Bom apetite.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por Homem do pullover amarelo às 19:32
link do post
3 comentários:
De jonasnuts a 20 de Julho de 2008 às 13:36
Acho que tenho fotos da casa de banho do Taxidermista (sim, porque é desse restaurante, a imagem do post).

Se quiseres vou à procura :)
De Luís Oliveira a 21 de Julho de 2008 às 15:55
Então mas o post é sobre WC's, beldades velocipédicas ou comida? Não percebo nada ...
De beta a 24 de Julho de 2008 às 15:51
"um halo de inibição social que faz de uma casa de banho à pinha uma multidão de homens sós" é muito bom
*

Comentar post

Autores

Pesquisar

Últimos posts

Contra nós temos os dias

Do desprezo pela história...

É urgente grandolar o cor...

Metafísica do Metro

A Revolução da Esperança

Autores do Condomínio

Hipocondria dos afectos

A família ama Duvall

Notícias do apocalipse

Meia idade comparado com ...

Arquivo

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

tags

todas as tags

Subscrever