Terça-feira, 8 de Julho de 2008

texto despropositado e completamente inútil contra os sérgios

Concluí, recentemente, nunca ter conhecido um só Sérgio que importasse para alguma coisa.

 

Os nomes não deviam ter nada a ver com a personalidade anexa, mas têm. Um João, um Pedro, um Paulo ou um Nuno, por exemplo, podem ser o que quiserem (todas as nossas namoradas ou mulheres tiveram, pelo menos, um ‘ex’ com um destes nomes), mas um Sebastião é, necessariamente, um pachola. Um Francisco garante boas conversas. Um Armando tem um passado complicado. Um Zé faz sempre falta. Sobretudo, um senhor Zé que trabalhe na restauração ou passe recibos verdes na categoria de engenhocas. Toda a gente tem um tio Manel. Há muitos Filipes bons tipos. Rodrigos e Tiagos são bons nomes de amigos. Os Ruis, quando antecedendo sobrenomes fortes, vão longe. Tal como os Luíses. Os Diogos, Martins e Salvadores podem ser o que lhes apetecer que hão-de sempre guiar carros melhores que os nossos. Um Artur não se encontra assim, sem mais nem ontem. E um Jorge é gajo para perceber imenso de mecânica.

 

Os Sérgios não. Os Sérgios são uma coisa assim tipo enguia. Os Sérgios não falam alto, não fazem ondas, não enchem o peito. Os Sérgios são aqueles tipos que se sentavam a meio da sala, na escola. Os que não jogavam à bola nem muito bem nem muito mal, não eram bonitos nem feios, nem porreiros nem antipáticos. Eram assim-assim. Os Sérgios são aqueles tipos que fazem aquelas piadas mais ou menos, a que sorrimos com um “ham”. São os funcionários intermédios da empresa. Não estão nem na recepção nem nos gabinetes, mas nos corredores entre uns e outros. O Sérgio tem o nome numa placa na farda da Worten, chega integrado no pelotão na Volta a Portugal, acaba em sétimo no Festival da Canção; e, se publica um livro, é de certeza um manual sobre um instrumento musical do género do adufe.

 

Nunca houve um Marquês Sérgio, um Capitão Sérgio, um Sérgio, o terrível. O Sérgio compra carros em segunda mão. Utilitários, de preferência. Vai ver o filme óbvio e compra o disco de que toda a gente fala. Se sei de rapariga que namore com um Sérgio, percebo logo que não encontrou um Álvaro ou está na ressaca dum Ricardo. Se vou ser atendido por um Doutor Sérgio, deduzo de pronto que terei de ouvir segunda opinião.

 

O Sérgio é um Dário. O equivalente a uma Fábia para as mulheres.

 

O Sérgio nunca me fez mal nem bem nenhum. E isso enerva.

 

 

 

PS1: Cai fora do âmbito desta crónica a ocorrência de “Sérgio” enquanto sobrenome. Vide: António Sérgio e Manuel Sérgio.

 

PS2: O Serge Gainsbourg não conta porque não e o Sérgio Godinho também. Aliás, o Sérgio Godinho deveria, claramente, chamar-se Vasco. Ou Joaquim.

 

PS3: Responderei a todos os comentários que assinalem a perfeita injustiça desta crónica. Excepto aos de pessoas que assinem “Serginho” ou “Serjão”, por razões diferentes, mas que me parecem, em qualquer dos casos, por demais evidentes.

publicado por Alexandre Borges às 02:14
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32 comentários:
De isa a 8 de Julho de 2008 às 03:46
Que maravilha! gostei particularmente do pormenor do adufe! a alusão ao Godinho quase estragava tudo mas o post está maravilhoso, não ia ser um sérgio qualquer a descompor a coisa!
(não fiques tanto tempo sem escrever por favor!)
Bjs
PS: apresento-te aqui um Serjones, diferente de todos esses Sérgios, deve ser pq é brasileiro... http://www.catarro.blogspot.com/
De bloom a 8 de Julho de 2008 às 12:00
Sérgio Eiseinstein.

ass: serginho bloom
De Alexandre Borges a 8 de Julho de 2008 às 12:26
Hum… Não sei, Bloom. Se conto o Sergei Eisenstein, também tenho de pôr o Sergei Iuran.
Querida Isa, prometo ser mais assíduo, mas, às vezes, é tão difícil encontrar assuntos realmente fracturantes e polémicos como este… ;) Bjs. Obrigado.
De bloom a 8 de Julho de 2008 às 14:34
ai... não me obrigues a falar do Alexandre Mostovoi...
De Sérgio a 8 de Julho de 2008 às 12:35
O Iuran foi muito bem metido, não cheguei lá. Mas tenho aqui mais uns para um PS4. Somos gente despeitada e planeio prová-lo:

Gainsbourg, Bubka, Eisenstein, Prokofiev, Rachmaninoff, Bonelli, Leone, Mendes, Buarque de Hollanda, Vieira de Mello.

Voltarei com mais uns quantos. Se não conseguir voltarei com palavrões. Até já.

Sérgio Alexandre
De guigas a 8 de Julho de 2008 às 12:35
O post está fabuloso mas isto é mesmo mau... na verdade tive um Sérgio que se apaixonou por mim, na adolescência. Do tipo que não se consegue atirar à descarada e que me comunicou, com as bochechas em brasa, o seguinte: gosto muito de ti. A questão é esta: tinha 16 anos , não 6. Nessas idades já não se dizem essas coisas...e eu namorava com um Francisco... Coitado do Sérgio! Nunca lhe disse nada porque, efectivamente, ele nada me perguntou apenas comunicou. Limitei-me a encolher os ombros. Foi esta a minha cena com Sérgios . Seguiu a vida militar mas nem por isso se tornou grande herói. Realmente os nomes (quase sempre) definem muito bem as pessoas...
De alzira guedes a 8 de Julho de 2008 às 12:46
Estava a fazer um link pra esta sinusite crónica a propósito deste texto, quando descobri dois factos: Alexandre Borges assina (e o boato às moscas sem lei nem rock) , segundo tinhas salvado o Sérgio Godinho, não salvaste foi o Sérgio Castro que não é assim-assim. Tirando isso, está perfeito.
De Joanina a 8 de Julho de 2008 às 14:37
Eu, por acaso, conheço um Sérgio que e o oposto de tudo isto... Mas vá lá , admito que ele possa ser a excepção que confirma a regra!
Adorei o post!
Jo
De Alexandre Borges a 8 de Julho de 2008 às 15:02
Muito obrigado por todos os comentários e compreensão para com a minha tese absurda pela qual lutarei, contudo, até ao fim (ao contrário do que faria, sei lá, um Sérgio).
O depoimento da Guigas prova, à saciedade, tudo o que eu disse. Os restantes comentadores ponham os olhos nela e não se deixem enganar.
Joanina, esse Sérgio está-te a mentir. Tu vê lá, rapariga.
Alzira, obrigado pela visita. O Boato continua à espera dum fim digno, é verdade. Só lá voltarei para escrever esse fim, mas voltarei.
O Sérgio Alexandre é que me lixou.
De Marina a 8 de Julho de 2008 às 18:08
Gostei do post!
(Talvez mais ainda por andar ultimamente às voltas com um nome para o meu futuro filho - que ainda nem foi concebido! - e que vai ter de ser rapaz)
A minha predilecção foge-me para o Samuel ou para o Santiago... (algum conselho a dar, enquanto especialista na matéria...?)

Bem haja!
De Alexandre Borges a 8 de Julho de 2008 às 18:44
Cara Marina,
Devo dizer-lhe, com inteira franqueza, que Santiago sempre foi o meu nome preferido para dar a uma criança. No entanto, muitos anos depois de o ter decidido mentalmente, estreou uma novela na SIC, de seu nome "Vingança", em que o protagonista se chamava assim. É claro que devem ter proliferado os Santiagos. Daqui por uns anitos, sabê-lo-emos. E o pior é que o dito era interpretado pelo Diogo Morgado.
Outra inquietação que sempre tive foi a possibilidade de, um dia, a vida correr mal a mim e à hipotética família e termos de rumar ao Cacém. Quando, na escola, se referissem ao meu filhote, alguém perguntaria: "O Santiago? Quem é o Santiago?" E a resposta viria pronta: "O Santiago do Cacém".
Não sei. Há muitos perigos. Samuel parece-me bom nome. E no dia em que tenha um irmão e esse irmão tenha filhos, poderá sempre ficar como o bom e velho "tio Sam".
De isa a 8 de Julho de 2008 às 23:44
:-DDDDDDDDDDDDDDD
Caneco pá... Não me tinha lembrado desse pormenor... Gosto tanto de Santiago...

Qt ao comentário do Sérgio Alexandre, os Sérgios em estrangeiro não contam!
De Sara Maia a 8 de Julho de 2008 às 21:37
Muito bom este post. só uma dúvida: e os Alexandres?
De Alexandre Fonseca a 8 de Julho de 2008 às 21:43
sim! e os alexandres? ;)
optima postada.
De Pedro Bom a 8 de Julho de 2008 às 23:56
Na minha área, há um Sérgio que é dos melhores, É português, economista, e Rebelo de apelido.
De Alexandre Borges a 9 de Julho de 2008 às 02:40
Caro Pedro Bom, um homem com o seu sobrenome pode dizer o que dizer. Até pode dizer bem dos Sérgios.
Alexandre e Sara, os Alexandres têm muito que se lhe diga, como o primeiro de vós sabe. De Alexandre, o Grande, à Alexandra, fadista e estrela dos espectáculos do La Féria, vai um mundo de possibilidades (apenas unido, neste caso, pela coloração do cabelo). É matéria para outros posts, de outros autores.
abraços

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