Sábado, 28 de Junho de 2008

His Own Private Shyamalan

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 Se os cavalos e a Jane Fonda também se abatem,  custaria assim tanto silenciar dois rafeiros com o misericordioso e certeiro balázio entre os olhos? Às seis da manhã, a cacofonia que lhe entra pela casa deixa-o nostálgico dos passarinhos do jardim da Embaixada de Itália, do ronronar dos pombos - essa banda sonora de águas-furtadas - e até daquela prostituta que por vezes fura o silêncio das madrugadas com as suas altercações. Há chineses por estas bandas e não seria difícil pedir-lhes que fizessem o trabalhinho. Não foi tanto pelo timbre e volume desagradáveis, foi pela falta de cadência do som. Não há nada pior do que um som desagradável sem cadência, e pior do que os latidos de cão, só mesmo o high-pitch das adolescentes americanas - "How do you plead? Guilty... she didn't scream, though" Isto é curioso, sendo ele capaz de adormecer sob qualquer estímulo, visto que vai pelos dias em permanente défice de sono. Um diálogo de Vivian Leigh e Clark Gable? Zzzzzzz... Monica Bellucci desabotoando-lhe a camisa com os dentes enquanto desce pelo seu corpo? Zzzzzz... Mas perante a imprevisibilidade dos latidos de rafeiro confessa-se desarmado. Literalmente desarmado, sem a tal caçadeira de beirão em casa, nem poder de arremesso capaz de dar um uso ao berbequim ligado - funciona a bateria - além da bricolage caseira. Não contou os cães, não os viu sequer quando espreitou pela janela. Na sua cabeça eram já piores que os dos Baskervilles e tomando nas mãos o peso da caçadeira virtual, nem perante um inesperado São Bernardo hesitaria no disparo. Talvez só mesmo se em vez dos cães tivesse dado com golfinhos, porque os ilhéus são criaturas terríveis e ele, que tem uma metade de ilhéu, desconfia que algum antepassado terá provado o lombo daqueles sublimes cetáceos, o que é prática quase canibal, capaz de amaldiçoar até à terceira geração. Perdido nestes pensamentos, os cães acabariam por ir ladrar para o Intendente e quem sabe se não picaram a língua numa seringa perdida, caindo num torpor heroinómano que poderia ter sido providencial caso a cadência regular da cauda de um golfinho em agonia não o tivesse despertado ainda mais. Afinal as cadências regulares também tomam conta de nós. Havia um círculo de vizinhos sorumbáticos que ia apertando cada vez mais em torno do golfinho. E ainda a cauda contra o empedrado da calçada, perdendo humidade acusticamente, tum, tum, tum... Uma cena péssima, como se Night Shyamalan vivesse nos Anjos, coisa que, de resto, a gente não estranharia.

 

 

publicado por Homem do pullover amarelo às 08:26
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6 comentários:
De Deniz Costa a 28 de Junho de 2008 às 11:57
torpor
De Homem do pullover amarelo a 28 de Junho de 2008 às 12:22
Obrigado, está corrigido.
De Rita a 1 de Julho de 2008 às 00:08
Essa imagem é MERDOSA, assim mesmo. Toda a gente sabe que os chineses AINDA fazem estas coisas abomináveis aos cães (e a muitos outros animais) mas olha lá, não dá pra escolheres uma imagem, como dizer, menos chocante para ilustrar a tua verborreia matinal? É que já nem me lembro do teu post, só dos pobres bichos ali pendurados. Mau gosto.
De Homem do pullover amarelo a 1 de Julho de 2008 às 00:18
Agora já é tarde.
De Tatiana a 30 de Junho de 2011 às 17:36
Tem razão Rita.
Por amor de Deus o que fizeram a estes pobres bichinhos.
Sr. Homem polluver amarelo era escuzado por uma foto dessas.
De hffvd a 29 de Outubro de 2011 às 17:59
j jh gf

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