Quarta-feira, 25 de Junho de 2008

Pobres, honrados e literariamente apetecíveis

Da última crónica de Lobo Antunes ficou-me sobretudo o excelente título: "Crónica descosida porque me comovi". Uma crónica chamada "Crónica descosida porque me comovi" dá vontade de ler. O ponto do texto é que já não comprei. Aliás, começa verdadeiramente a cansar a ideia, demasiado difunda nas artes literárias, de que um padeiro vale mais humana e literariamente do que um economista. Frases como "O que sonhará um economista, a que brincava um gestor em criança?"  e  "Não conheço nenhum economista (...). Se conhecesse abria-lhe logo a tampa a fim de espiar o que traz na barriga: cartões de crédito, canetas caras, camisas por medida?" são demasiado primárias para alguém que se tem como "grande escritor" - e que, na minha opinião, ficará sobretudo pela rara qualidade de alguns dos seus textos mais curtos do que pela força da generalidade dos seus romances. Por mim, confesso, gosto tanto de Nelson Rodrigues quando fala de uma "grã-fina" como quando fala do desgraçadinho do bairro.  Um "grande escritor" (seja lá o que isso for) percebe que um banqueiro pode ser tão denso quanto um sapateiro. Que uma tia de Cascais pode ter labirintos mentais mais intensos e interessantes do que um calceiteiro de Alfama. Que essa coisa de julgar "artisticamente" as pessoas por condições sociais - e por praticarem ou não golfe - é um equívoco de principiante. E é sobretudo uma atitude superficial face à vida e às suas personagens, mais complexas do que a fatiota que lhes cobre os ombros.  

 

publicado por Nuno Costa Santos às 15:05
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2 comentários:
De cmonteiro a 26 de Junho de 2008 às 04:53
Não é bem assim. No "Esplendor de Portugal" por exemplo, há uma série de personagens nada superficiais, todas oriundas de classes sociais mais elevadas. Aliás, o livro roda todo à volta desta gente.

O que eu acho é que o gajo em tanto de génio como de louco e desta vez deu-lhe para aí.

Sei lá...
De JC a 26 de Junho de 2008 às 07:14
Concordo contigo, Nuno. Se há coisa que irrita é esse discurso pseudo-politico disfarçado de literatura a discorrer preconceitos atrás de preconceitos camuflados de ideologia barroca. Um tipo que escreve isso não é um escritor, é um idiota. Um idiota armado em romântico de meia tigela. Já não tenho paciência para as suas invocações à guerra e aos seus "irmãos de armas".

"O que sonhará um economista posso imaginar mais ou menos, agora o que sonha a mulher de um economista é que me preocupa. Se eu fosse mulher de um economista sonhava com canalizadores ou mecânicos de automóvel, homens que usam as mãos e não lêem revistas de golfe nos domingos de chuva."

Saiste-me cá um sedutor,ò António . Pára lá de mandar charme para cima das mulheres.

"Sempre me senti bem nas padarias: o cheiro, o lume, os padeiros enfarinhados que eu achava, acho ainda, serem anjos que se transviaram, de braços cobertos por uma poeira celeste."

Esta parte da "poeira celeste" ou é tão inocente ou tão forçada que me faz rir. Os padeiros são anjos [e os economistas e gestores e os tipos que jogam golfe o demónio] no undo encantado do António. Ò António, isto na minha terra tem um nome...

Enfim, o homem tem tanto de genial como de patético. Mas, ultimamente, o segundo adjectivo fica-lhe a matar.

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