Quarta-feira, 25 de Junho de 2008

Profissão: falta de fé

Não me recordo qual veio primeiro: se a Comunhão Solene se a Profissão de Fé. Tenho vagas imagens de colegas de escola aprumados em minúsculos fatos brancos, azuis, cinzentos, até prateados, meninas de vestidos - julgo que todos brancos -, meninas que anos mais tarde e vários números de copa acima tiveram a minha admiração, secreto carinho e povoaram os meus sonhos na exacta medida em que nunca me cumprimentaram. Deixo-lhes aqui o meu perdão.

Eram miniaturas dos pais, aqueles miúdos, com as roupas escolhidas pelos progenitores, a forma de sentar nos bancos da missa, quem cumprimentar - tudo segundo as regras dos pais. E havia a fotografia: a pose, o endireitar das costas que simbolizava a rectidão do lar. E as flores que as raparigas seguravam nas mãos: jarras, gladíolos, quando muito rosas brancas que as rosas rosa podiam lembrar carne.

Tenho a certeza que não comungámos solenemente: lembro-me de ficar entre duas raparigas, desatento ao desenrolar do evento, incapaz de seguir o guião trabalhado até à exaustão durante semanas. E lembro-me de como o ar de inocência que as meninas tinham ensaiado para as fotografias antes da cerimónia desapareceu mal nos sentámos nos bancos: cócegas uns aos outros, pequenas tropelias, orações ditas com palavrões sussurrados pelo meio. E a piscadela de olho de K: não se imagina que uma rapariga de nove anos saiba piscar o olho (assim) ou eu não sabia piscar o olho (assim). Mas sabia que não se devia piscar o olho (assim).

Algures nessas cerimónias comprometemo-nos com comportamentos aceitáveis, prometemos erradicar a mentira do mundo, ajudar os pobres, dizer a verdade aos pais, não pecar por actos, palavras e omissões. Não nos desviarmos de um caminho.

Essas promessas resultaram num certo ódio que até hoje mantenho à palavra "caminho" tal como à palavra "omissões". Suporto, tenho compaixão, quase carinho pela mentira, pela agressão, pela traição, pelos pecadilhos - que estão quase sempre ligados directamente aos instintos primários. Mas tenho dificuldade com a omissão, com essa omissa, impossível de determinar linha, entre verdade e mentira que os humanos traçam e retraçam e apagam diariamente - e que é quase sempre fruto da mesma aprendizagem social que nos dizia como sorrir para a câmara fotográfica.

E ainda hoje me assombra uma expressão que é o exacto oposto do rosto ao espelho: Profissão de Fé. Não lhes bastava Economia Paralela da Fé. Ou Biscates da Fé, Recibos Verdes de Fé. Nem sequer Emprego de Fé ou Trabalho de Fé. Tinha de ser Profissão: uma contrato com horários, eventual recompensa, hierarquias marcadas, função social. O que fizemos desse contrato? Qual foi o resultado da nossa entrada nos quadros vitalícios da função pública do Bem?

MA fez doutoramento na Escócia, O na Holanda, L é advogado, R desistiu do curso e herdou a carpintaria do pai, vi-o há umas semanas, tem dois filhos, é feliz, ou diz sê-lo. K abortou pela primeira vez aos 15, I engravidou aos 16 e o pai foi de caçadeira a casa do namorado oferecer a mão da filha em casamento. L escondeu a barriga até entrar no hospital para parir o puto e a mãe teve um enfarte quando soube. (Sobreviveu.) T morreu de sobredose, R de acidente de automóvel.

Podemos ter tido o sucesso dos primeiros, o azar dos segundos. Podemos acabar a arrumar carros como um tipo do bairro do Lamarão cujo nome não me recorda, ou ter o mesmo fim de um moço - acólito - que se suicidou de tiro de caçadeira. E podíamos ter aprendido a jogar futebol decentemente ou a estrelar um ovo. Essa pequena volatilidade dos destinos (um espermatozóide mais sacaninha, um copo a mais antes do volante) é tão óbvia e real que não assusta - e o mais certo é acabarmos quase todos numa omissa linha entre os primeiros e os segundos.

Mas há uma coisa que os que por azar e idiotice dos pais tiveram uma educação católica têm de temer: a Profissão de Fé.

É que um tipo pode deixar a carpintaria para tornar-se pintor - mas não consta que se livre das farpas que lhe atravessaram as mãos.

publicado por João Bonifácio às 01:59
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5 comentários:
De Ana Matos Pires a 25 de Junho de 2008 às 11:44
Beeeem, ainda bem que foste chamado ao quadro, João, quando não ficariamos privados deste presente. Next, palize.
De Cláudia a 25 de Junho de 2008 às 13:58
Vieram ambas ao mesmo tempo, João; são diferentes designações para uma e a mesma coisa - o acto de um cristão afirmar em comunidade aquilo que partilha com essa mesma comunidade. Mas a circunstância de cada um é tão diversa e transitória, que esse 'partilha' pode afinal ser 'partilhou', ou a 'nunca chegou realmente a partilhar'. Ainda assim, nenhum rito é desprovido de sentido; simplesmente umas vezes damos com ele, outras não.
De Nuno Costa Santos a 25 de Junho de 2008 às 16:16
És um escritor, pá. Abraço.
De m. a 1 de Julho de 2008 às 01:03
... se existem verdades que são verdades, essa é uma delas, a sério, mesmo.
De Ivani Medina a 29 de Outubro de 2015 às 12:34
Passando para divulgar. Por que certa curiosidade histórica é encarada pela expectativa religiosa como uma cruel agressão a fé? “[...]. Porque não há coisa alguma escondida, que não venha a ser manifesta: nem coisa alguma feita em oculto, que não venha a ser pública”. (Marcos 4: 38-21)

http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/paguei-pra-ver

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