Segunda-feira, 24 de Março de 2008

Breve e ligeira tentativa de posicionamento político (inclui mais uma confissão)

 

Há quem seja bonito e há quem seja feio politicamente. Explico-me. Os bonitos são aqueles que acreditam na possibilidade de um mundo francamente melhor. A beleza aqui é, pois, a beleza do pensamento e do discurso - que torna as pessoas que os transportam atraentes, risonhas e sociáveis (pelo menos nalguns momentos das suas vidas). Quando essas pessoas falam atraem boas vibrações e uma conversa agradável. Barack Obama, por exemplo, é bonito nos dois sentidos da palavra. Os feios são os pessimistas - o pessimismo é quase sempre horrendo, como sabemos. Acentua as olheiras e estraga festas. É desagradável ao ouvido e à vista. Chateia. Bloqueia. Não faz as pessoas erguerem os copos para brindes épicos. Empurra os rostos para a parilisia e o silêncio. Faz as bocas tristes e grava rugas na testa. E há aqueles que na polítca não são nem bonitos nem feios. Que são "assim-assim". Que, quando falam no snooker e no salão, não causam nem atracção nem repulsa. Formam uma espécie de centrão estético-político.

 

Aqui vai mais uma confissão: eu - na vida como na política - sou mais feio do que bonito. Mas posso dizer, com alguma alegria, que já fui ainda mais feio. Ideologicamente, noto (a referência à ideologia é aqui um pouco abusiva, dado tratar-se de uma mera visão do mundo e não tanto de um corpo de ideias estruturado). Hoje em dia, possivelmente por ter dois filhos que me obrigam a isso (o pessimismo é, muitas vezes, uma profissão a tempo inteiro para solitários), estou mais crédulo, menos desistente, mais preparado para descer a avenida. Há uns aninhos, não muitos, tive um pico de pessimismo - que me tornou feíssimo, sobretudo para mim próprio. Acordava e tinha medo de começar a pensar no mundo e nas "questões da actualidade" - nunca vinha coisa bonita por aí.

 

Digamos que já consigo fazer correr o pensamento em câmara lenta nalguns dos verdes prados do optimismo (ao som de Richard Clayderman, claro). Mas, apesar de admitir algumas palpitações de esperança, ainda preciso de tomar os comprimidos de que o Alexandre tão bem fala: continuo sem grande "fé" no homem e nas suas possibilidades. No rumo da História, no futuro da humanidade e das nossas vidinhas, nessas coisas todas. Deve ser dos genes - irremediavelmente melancólicos. Irremediavelmente negros. Irremediavelmente tristes. Não tenham pena, pá. Ainda vou fazer disto um negócio.

publicado por Nuno Costa Santos às 16:09
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