Domingo, 22 de Junho de 2008

O que fazer com esta mayonnaise?

 

O HpA teve a honra de receber em sua casa um reputado crítico literário, entre outros convivas. Era-lhes pedido que trouxessem bebidas - a propósito, faz-se aqui um pedido público de desculpas e garante-se que na próxima festa a cerveja não acabará às 2 da manhã, pois ou stock da casa será reforçado ou será barrada a entrada a um certo e determinado conviva, "inclusivamente". Não sobravam muitas opções: trazer cerveja, vinho, bebidas brancas ou gasosas. Sucede que um crítico literário não pensa como uma pessoa normal e este, depois de insultar o HpA pelos metros lineares da sua biblioteca  - " só isto?" -,  ofereceu-lhe um boião de mayonnaise. Meus amigos, a praga do humor nonsense precisa de acabar. O  HpA ainda gosta de anedotas que comecem com: "um  americano, um inglês, um francês e um português..." O humor nonsense irrita, sobretudo quando por causa de uma piada a cerveja acaba às 2 da manhã, quando podia ter durado até às 2:15. E há neste humor o gérmen da obsessão. O que queria ele dizer com a mayonnaise? Ou melhor, mesmo não havendo nada de inteligível no gesto, como se chegou ali? Com honrosas excepções, a mente humana precisa de ordem e vai numa cadeia de porquês até o nonsense ficar enredado numa teia de lógica. A piada feita animal selvagem à solta que se tenta reencaminhar de volta ao jardim zoológico. Só que um boião de mayonnaise a fazer de bebida numa festa sem comida é como um gibão em Monsanto, impossível de apanhar. E o resultado é que o HpA anda  agora com o boião por toda a casa, procurando percebê-lo, nisso parecendo uma rapariga tonta posta perante o facto consumado de que foi encornada  - "I need to understand!" Enfim, ele vai aprendendo que, do quarto à sala, passando pela casa de banho, há um potencial decorativo constante no boião. Entalado nos lençóis cor de laranja, o boião de tampa verde da mayonnaise Calvé ganha até alguma alma. E não é difícil concretizar a tentação animista pois, como se sabe, há muita solidão nos grandes centros urbanos. Quando o retira do frigorífico, onde o deixa sempre que se ausenta, o boião vem fresquinho, apetece mesmo o cheek to cheek. Quando vê o prazo de validade - "22.3.09" - sente-se um privilegiado, pois nestes tempos de relações efémeras não se pode pedir muito mais. 9 meses. No Nine 1/2 weeks, na cena da cozinha, a boca de Basinger é receptáculo para uvas, morangos - "Hum, I want a big one"- , tomatinhos, um fusilli, gelatina, pimentos picantes, champagne, leite, um esguicho de gasosa, preliminares para o clímax que se espalha depois a todo o corpo. E o que se espalha? Maple syrup. A mayonnaise, que já havia perdido para a margarina em o Ultimo Tango a Parigi, volta a falhar um grande casting do erotismo soft. São sinais para arrepiar caminho, tomar este boião entre os braços e ficar assim quietinho a fazer-lhe festinhas, em vez de prosseguir na calha da aventura sexual. Recicle-se então isto numa relação de amizade, que esta até vem com omega 3 (fonte natural).

publicado por Homem do pullover amarelo às 07:56
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7 comentários:
De N. a 23 de Junho de 2008 às 09:39
até de boião de mayonnaise na mão… esse homem é um sedutor, caneco!
De MM a 23 de Junho de 2008 às 17:02
Recomendo-lhe que verifique, antes de tomar qualquer decisão drástica, se a maionese é feita com azeite ou se com óleo vegetal. É que pode fazer diferença na vossa relação!
De Homem do pullover amarelo a 23 de Junho de 2008 às 18:02
Vamos investigar. Obrigado, MM.
De Cláudia a 23 de Junho de 2008 às 20:13
Então a mayonnaise não era da autoria do próprio? Senhores, Calvé não rima com Gourmet.
De clara a 23 de Junho de 2008 às 21:00
(tás feito, na próxima festa todos vão levar a coisa mais estranha que conseguírem. A Cláudia até já deu umas ideias).
De maradona a 23 de Junho de 2008 às 22:32
peço desculpa por tudo, a todos. (carreguei no botão "verificar ortografia")
De Lourenço a 27 de Junho de 2008 às 12:33
Há aqui uma situação que me assalta: a crónica é uma boa crónica, a festa foi uma boa festa, mas será isto tudo inocente? Até que ponto é que não é premeditado o gesto de convidar para nossa casa alguém que carrega todo um potencial para nos trazer maionese em vez de cerveja, sabendo que há um débito de crónicas a cumprir? Tudo isto é perverso, e eu sabia que havia uma razão para ter abandonado o evento antes das 2:00. E acho que o HpA está a cometer uma injustiça ao insinuar que o responsável pela ruptura do stock de cerveja foi um indivíduo que por acaso se apresentou com uma quantidade não negligenciável da mesma. Ainda que eu não tenha ficado para fazer esse balanço.

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