Segunda-feira, 24 de Março de 2008

comprimidos azuis para ainda acreditar nas revoluções

Era uma lei da vida até 1998 que os homens deixassem o sexo na velhice. Ou melhor, não eram bem nem o sexo nem a velhice tout cours, mas percebe o que estou a dizer. A regra caiu em desuso a partir da invenção do viagra e várias coisas nunca mais foram as mesmas: a literatura norte-americana contemporânea, os lares de Bragança, a publicidade nas caixas de correio electrónico.
O tesão, stricto senso, foi resolvido. Multiplicou a sua esperança de vida e tornou-se uma espécie de Roger Milla, um Peter Shilton das apetências físicas, com uma longa e admirável carreira por muitos palcos do mundo.
Ainda que tenhamos perdido alguma da ternura com que antes olhávamos os avós babados, cerca de noventa por cento dos nossos problemas com a idade pareciam resolvidos. Restavam a calvície e a barriga, mas isso tratava-se emigrando para Lhasa, onde trocaríamos a terceira idade decrépita passada a assistir à “Praça da Alegria” na sala de estar do asilo, por multidões veneradoras ajoelhadas em nossa volta.
Começámos a ser felizes? Estariam resolvidos os dramas heideggerianos do homem que se dirige para a morte? A Anabela Maluca, matulona repetente que se sentava na última fila da aula de Filosofia no décimo ano, ainda quereria ir para a cama connosco?
Quase. Quase éramos felizes, quase resolvêramos a inevitabilidade da morte, a Anabela, hoje, quase que se conseguia mexer sem a ajuda de terceiros.
Que faltava? Que deixara o viagra passar em claro no seu projecto de contrariar a Criação?
O espírito, a cabeça, o ânimo. O tesão da alma, soi-disant. (também pensei em “erecção do coração”, mas tive um ameaço de trombose só de pronunciar as palavras)
Confundimos os tesões. A grande protuberância que decai com o tempo não era física, mas o entusiasmo, o empolgamento, a – trocando por miúdos – pica.
A vida (que, como Chaplin notou, começa num grande orgasmo) é uma bateria de entusiasmo a consumir-se. No princípio, tudo nos anima. Que apareça um pai, uma mãe, uma visita, um cão, um brinquedo, que consigamos andar, falar, tossir, espirrar, ter flatulências. Depois, isso já não é suficiente. Vamos para a escola e vibramos com as raparigas, os jogos de futebol, as cenas de pancadaria. Depois, isso também já não é o bastante por si só: têm de ser grandes raparigas, grandes jogos de futebol e  grandes cenas de pancadaria, senão, não dá – lá está – pica.
Depois e pelos anos fora, sentimos cada vez menos. O primeiro trabalho deu-nos tesão; agora, tira-o. A primeira pessoa que se sentou connosco à mesa e disse ter um projecto que era mesmo a nossa cara deu-nos muito tesão; agora, dificilmente chegamos a marcar, sequer, o almoço. Os primeiros lugares que conhecemos, as pessoas a quem sempre quisemos apertar a mão, os discos, os livros, os móveis, tudo o que queríamos mesmo possuir. De bom grado, faríamos amor com tudo isto ainda hoje, mas já não conseguimos.
Há toneladas de literatura, pautas e celulóide sobre o amor. Mas o amor compraz-se demasiado consigo mesmo; fora dele, nada faz acontecer. O mundo precisa é de tesão. E sobre isso ninguém escreve um poema épico.
publicado por Alexandre Borges às 14:30
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1 comentário:
De isa a 2 de Abril de 2008 às 12:48
:-D
Muito bom! E o Chaplin é que sabe!

PS: esta, em particular," “erecção do coração”, mas tive um ameaço de trombose só de pronunciar as palavras)" provocou-me grandes gargalhadas :-D

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