Sábado, 7 de Junho de 2008

What went wrong? (dia 1)

 

É uma pergunta a que o HpA procurará responder nos próximos dias, de Londres. Os amigos começam a perceber o seu desígnio: se um desistiu de lhe pedir o Imperial Nature: Joseph Hooker and the Practices of Victorian Science, o outro não abdica de peanutbutter cups da Hershey's.  Everything is finally falling into places.

 

Dia 1: ainda antes de passar pela alfândega, o HpA teve o primeiro sinal de tensão social – “our taxes pay your bills” - disse com um ar enfadado o nativo inglês ao empregado de tez escura que lhe pedia o passaporte. João Paulo II beijava o asfalto da pista, mas o episódio só lhe deu mesmo uma vontade irreprimível de defecar no chão, obscenidade de que foi salvo por um “We all pay taxes, sir”, num impecável tom sereno. A fleuma britânica existe, mas é praticada pelos indianos. Na cara do inglês fundiu-se então o rosto conjuntural da estupidez com o rosto da estupidez estrutural e o HpA fez uma nota mental: “ Ler Lombroso”.

 

De Heathrow a Woodside Park, a viagem correu sem incidentes. O metro londrino tem um cosmopolitismo que o fez sentir-se em casa. “Este podia morar nos Anjos, este podia morar nos Anjos, esta devia ser minha vizinha”, foi pensando nos intervalos em que levantava a vista de O Labirinto da Saudade, do Lourenço. É um risco ler Eduardo Lourenço quando se está cansado e a viagem implica um transbordo, mas não deixou passar King’s Cross, onde teve o primeiro momento de grande turismo. Constatou que em Londres há a melhor publicidade de outdoors que viu até hoje, percebeu que ainda existem punks, embora aquele talvez fosse do tipo que tem savings account, viu uma daquelas miúdas com cabelo negro – hum – “asa de corvo”, olho verde e pele pálida, o tal precioso fenótipo irlandês que misturado com sangue ameríndio dá uma liga feminina insuperável. E lá chegou a Woodside Park. Caminhou por uma rua de belas moradias, eram 11 da noite, através dos estores percebia-se que um marido lavava os pratos numa cozinha com mesa de pedra escura ao centro e concluiu que a sua mulher adormecia os filhos contando-lhes uma história ou então talvez enrolasse um charro na sala. O amigo não estava.

 

Esperou uns 15 minutos, voltou a tocar, não havia um telefone por perto, a zona era residencial, devia ter telefonado na estação, claro. Mais 10 minutos e nada, isto é, apenas uma irreprimível vontade de defecar. Uma vontade real, como se a figura de estilo anterior se somatizasse. Que fazer? Impossível bater à porta do casal feliz, às 11 da noite o HpA tem ar de magrebino. Contornou-lhes a casa, deu com um extenso jardim, descuidado como um terreno baldio, e com a protecção de uma sebe e de um frondoso carvalho – seria? – fez o que se impunha. Já recomposto, olhou para trás e deu primeiro com um gato que o observava do cimo de um muro e depois com um baloiço de criança, muito perto dele e estáticos. Como se ambos lhe insuflassem um pudor difícil de gerir, apressou-se a camuflar os traços da sua passagem e a abandonar o local. "Such a looovely day for a garden party, darling"- que vergonha...

 

Esperou mais uns minutos, convenceu-se que nada daquilo se havia passado, pois não era um modo digno de viajar, sobretudo para quem vem a um congresso internacional de críticos gastronómicos. “Mas como te limpaste?” – iria inquiri-lo ao pequeno-almoço de segunda-feira o colega japonês T.K. Não, não acontecera. A culpa era do inglês infame do “our taxes pay your bills”. Mesmo aquela lesma que se escapou depois das calças e ainda cobriu 2 ou 3 dos ladrilhos da casa de banho do amigo só podia ser um produto da sua imaginação.

publicado por Homem do pullover amarelo às 07:39
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1 comentário:
De susana a 9 de Junho de 2008 às 02:54
aqui pode-se dizer LOL? ou é uma expressão demasiado básica e instintiva?

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