Quarta-feira, 4 de Junho de 2008

Na assimptota da memória

Emília morreu, foi muita gente ao funeral e quase a mesma gente à missa de sétimo dia. Depois alguns lembraram-se do primeiro aniversário dela a que ela faltou, do primeiro ano que passou sobre a sua morte. Depois ainda menos se lembraram da primeira década. E já quase ninguém chegará ao quarto de século. A memória dos outros tem um decaimento exponencial, na forma como as efemérides se vão espraiando e no número de pessoas que cada uma congrega. O HpA sofre de um reflexo pouco social sempre que alguém morre: "quanto tempo até se decair na assimptota da sua memória?" Cair em esquecimento remete para a ideia um acontecimento abrupto e imprevisível; por isso ele prefere "decaimento da memória", que transmite a ideia de trajectória inexorável e matematicamente descritível. A memória de Emília - há quantos anos foi?  3? 4?  - deve estar hoje próxima da sua assimptota, isto é, apenas uns poucos se lembram dela mas estes só a esquecerão depois de mortos. É o seu núcleo duro. Emília, que foi a única influência literária do HpA, não deve ter escrito mais de 5 páginas em toda a sua vida, era da tradição oral. Parece invenção, mas foi mesmo assim, histórias e lengalengas contadas perto do fogão de lenha para uma plateia de primos. Uma cozinheira, caseira e contadora de histórias, que deu banho a três gerações da família. O HpA tenta aqui prolongar-se no núcleo duro dela; se algo lhe acontecer, pelo menos isto fica. São escusadas as ilusões, que o texto não chegará a centenário, mas também não vale a pena dramatizar. De certa forma, pela rapidez do decaimento, a memória abandona aqueles que menos a merecem . Sobram poucos, não forçosamente bons, mas enfim unidos para lá do sangue. 

 

 

(Cont)

publicado por Homem do pullover amarelo às 18:20
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