Segunda-feira, 24 de Março de 2008

Confissão

 Éramos pequenos, mandavam-nos ajoelhar, unir as mãos junto aos lábios e dizer:


“Confesso a Deus Todo-Poderoso e a vós, irmãos, que pequei muitas vezes por pensamentos e palavras, actos e omissões, por minha culpa, minha tão grande culpa. E peço à Virgem Maria, aos Anjos e Santos, e a vós irmãos, que rogueis por mim a Deus nosso Senhor”.


Passaram quase trinta anos e hoje percebo que o “Confesso que”, que se usa nas crónicas, não é da mesma ordem desse pedido de redenção fantasmagórica que nos assolou a infância.

É um desvio, um truque literário em que a confissão serve para fazer esquecer a frase anterior enquanto se prepara o remate final (por norma irónico) da frase seguinte.

O “confesso que” é usado para criar intimidade com o leitor, levá-lo a esquecer que uma crónica é feita de palavras e que as palavras mentem.

Não sei se já repararam, mas quase todos os membros deste blog (eu incluído) já "confessaram".

Releiam as crónicas e lá encontrarão um “Confesso que” espertalhão, preparado para vos fazer tropeçar nas palavras do cronista.


Apetece-me restituir a ordem ideal das coisas: confessar-me, dizer a verdade. O que vão ler a seguir é isso: a pura verdade.


Confesso ter, em 1988, puxado o fio que ligava o aspirador à tomada eléctrica do átrio do liceu, quando o dito fio se encontrava por cima do pé de uma “auxiliar de educação” relativamente muito detestada pelos alunos. A senhora tropeçou e caiu. O vândalo responsável escapou sem punição.

 

Confesso ter, em 1989, participado num furto: roubámos o apagador a uma professora, passámo-lo de aluno em aluno. Quando o apagador chegou às minhas mãos, pensei – à conta do pavor de ser apanhado – atirá-lo pela janela. Olhei para baixo e vi a dita “auxiliar de educação” que, no mesmo dia em que a fizera tropeçar, se vingara aproximando com moderada muita força o cabo da vassoura do meu cocuruto. Uma força superior deixou escapar da minha mão o apagador – que aterrou no correspondente cocuruto da pobre senhora que tanto amávamos e que tão bem nos tratava.

 

Em 1990 resolvi abrir uma porta de sala de aula a golpe de karaté - o que fiz com inigualável êxito, levando a dita porta a embater contra o nariz de uma professora avantajada de fossas.

Quando me levaram ao director do Conselho Directivo, este – entretido a ver as notícias da Guerra no Golfo – disse-me: “Desaparece-me da frente que estou a verter uma lágrima de comoção pela libertação do Kuwait”.

 O auxiliar educativo que se encarregara de me entregar ao Conselho Directivo anuiu, dizendo: “Hoje somos todos americanos”.

Por sorte nenhuma fotografia do meu golpe de karaté surgiu na primeira página do PÚBLICO.

 

Também confesso que vi professores atirarem giz a alunos, darem-lhes estaladas, puxarem-lhes as orelhas, darem-lhes reguadas (lembram-se?), atirarem os livros de ponto às ocas cabecinhas dos instruendos – que, por amor à geometria, se entretinham a calcular o ângulo correcto de torção do fecho do soutien das suas concupiscentes colegas, por forma a assim abri-lo em plena sala de aula.


Confesso igualmente ter bebido cerveja nas aulas, bem como comido barras de Mars, tangerinas e clementinas . E confesso ter enchido de terra, num intervalo, a carteira de uma professora e ter decorado o capot do automóvel de outra com pedras da calçada, ramos de amendoeiras e serpentinas (um pouco sujas, admito), provocando uma falta colectiva perante a não assumpção do erro por parte do criminoso.

 

E confesso ter visto alunos tirarem a cadeira debaixo dos colegas quando estes se iam a sentar, assim fazendo o incauto cair de rabo no chão. E etc.


E a tudo isto – por minha culpa, minha tão grande culpa – assisti calado, nunca me pronunciei nem opinião tive sobre o que me foi dado ver.


Confesso estas omissões porque as estatísticas dizem que agora é que há agressões nas escolas e antigamente é que era bom. Confesso: temo que o Demo tenha melhor memória que a estática leitura das estatísticas e me puna a dobrar se não confessar.

 

E peço aos estatísticos que me incluam nos agressores do passado e me perdoem assim como eu perdoo a tanto comentador a sua demagogia.

publicado por João Bonifácio às 02:48
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3 comentários:
De prof.meg@sapo.pt a 25 de Março de 2008 às 01:16
Confesso que gostei de ler a sua confissão...e como representante directa de uma parte lesada ( sou professora) penso que posso perdoá-lo. Confesso que me ri...recordei...e lembrei alguns episódios que também fazem parte do meu "inventário" estudantil. Mas, essas brincadeiras surgiam como casos pontuais e geralmente inofensivas...agora a situação é muito pior...e com tendência a complicar ainda mais ( talvez graças à dita "escola" para todos ( como se fala em Ciências de Educação) massificação do ensino...ou seja, a escola não é realmente para todos...às vezes parece que a "escola é de todos"!!
De João Bonifácio a 25 de Março de 2008 às 12:16
Eu não duvido que as coisas se tenham alterado - era impossível não se terem alterado. Basta pensar no acesso à educação que havia entre 38 e 74; naa alterações na demografia do país nos últimos 34 anos; no número de horas que um professor passa fora de casa; no simples facto de se considerar normal que os media passem o vídeo daquela agressão para chegarmmos à conclusão que muito se alterou.

O que me faz confusão é que a partir de um vídeo em que duas pessoas tentam arrancar um telemóvel uma à outra e de um dado (uma agressão por dia a um professor) se crie um estado histérico da nação.

Não sabemos os antecedentes daquele caso, não interpretámos as estatísticas.
É só isso.
De marialuziafronteira a 25 de Março de 2008 às 21:29
Felizmente o medo de antigamente já não existe nos dias actuais. As crianças vão para a escola mais felizes e não têm o pavor de outrora, nomeadamente levar uma uma cana de bambu na cabeça ou mesmo levar com a régua nos canhotos por pura e simplesmente ser-se canhoto, aquelas carcadas no alto da cabeça, levar bolos nas mãos tantos quantos erros ortográficos se fazia, enfim, longe está o fim de terminar episódios da vida real de tantas vidas, vividas numa sala de aula .
Até me lembro do pequeno Rui que só pelo desleixo da mãe não lhe cortar a franja do seu cabelo a professora mandou-o a um terreno mesmo junto à escola onde havia uma grande plantação de bananeiras buscar uma folha seca para lhe amarrar a tal franja na frente de toda a turma. Meu deus como aquela pobre criança chorava de humilhação. E o pior foi que aquele anjo pensava que estava a fazer um favor à professora em ir buscar a tal palha seca da bananeira para fazer uma trabalho qualquer... Pobre Rui que nunca mais foi à escola. Já em idade adulta via-o nas ruas da cidade amargurado, alcoolizado... E quantos Ruis não existem neste país por tamanhas humilhações, quantos...

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