Sábado, 24 de Maio de 2008

Flor de sal e barbiturato

Dos institutos de ciência onde tem trabalhado, o Homem do Pullover amarelo guarda invariavelmente duas impressões fortes: as histórias de suicídio e as boas cantinas. À primeira vista, estas impressões não estão relacionadas.

 

Um cientista chega à cantina do instituto como o pequeno Marco à morada de sua mãe. Fora da cantina, nos corredores, nos laboratórios, há um excesso de excentricidade e de tensão. Repare-se: não se fala de cozinheiras de cantina suicidas como se fala de cientistas suicidas. Um cozinheiro só se mata se perde uma estrelinha Michelin. Pelo contrário, entre os cientistas não é preciso chegar ao Nobel para se tentar o suicídio, é inegável que o gesto se democratizou, embora haja dúvidas se isso se tratou de uma conquista social. Segunda diferença: nos raros casos em que o cozinheiro de cantina se suicida, não o faz entre as panelas, escolhe um penhasco. Pelo contrário, o cientista tem o péssimo hábito de acabar com a vida no laboratório, insiste em querer passar o suicídio por acidente de trabalho. O seu e, sobretudo, o dos seus colegas. O caso Pillemer é esclarecedor.

 

Pillemer foi um cientista de alguma notoriedade para quem em meados do século passado trabalhava na via do complemento - uma cascata de reacções moleculares de defesa do nosso organismo contra microrganismos. Em 1957, numa altura em que uma teoria sua era posta em causa, encontraram-no morto no seu laboratório. Tinha ingerido barbiturato. Veio a saber-se a posteriori que as ideias de Pillemer estavam correctas, o que faria dele um Romeu sem Julieta à altura - as teorias não se suicidam, alguém sempre as mata. Mas sobra um pequeno problema. Quem o conheceu defende que o seu suicídio se deveu a motivos pessoais e não à ciência. Então por que motivo Pillemer se matou no laboratório? Talvez por ser ali que podia obter barbiturato de borla. Eis como se despromove um mártir a sovina.

 

Há outros exemplos. O cianeto de potássio, a escolha dos mais tradicionalistas, também se arranja com relativa facilidade num laboratório. A tese utilitarista do suicídio no laboratório começa, assim, a fazer sombra à tese mais convencional: a de que o cientista se suicida por ser uma alma (leia-se, “um ego”) sensível e ter uma relação intensa com o trabalho. Esta tese admite uma variação cínica, o suicídio copycat: o cientista não quer ser admirado apenas pela inteligência, quer que lhe louvem a imaginação, mas como, pela complexidade, a sua criação sai encriptada para o cidadão comum, ele tenta a associação ao artista mais eficaz, isto é, por simples mimetismo torna-se excêntrico como as pintoras e suicida-se como os poetas. Que tese vingará? Estamos numa área de difícil experimentação, não se atrai aqui cobaias com biscoitos. Aceite-se a incerteza.

 

Num instituto em Paris, em tempos trabalhou o homem mais feliz do mundo, a rapariga mais infeliz e o Homem do Pullover Amarelo. Ela era cientista, ele ainda deve ser cozinheiro. Chama-se Gabriel, à época tratava das pizzas na cantina, um local que pela extravagância gastronómica e conforto das cadeiras fez tanto para perpetuar os mitos sobre a cultura francesa como os incisivos pornográficos de Vanessa Paradis. Em cinco anos, Gabriel só teve um dia útil de tristeza e a rapariga nunca sorriu. Era angustiante partilhar aquele elevador. Ela devia pensar o mesmo e fez uma derradeira ascensão para se lançar do terraço do edifício onde trabalhava, um sexto andar. Nessa manhã, o homem do Pullover estava a trabalhar (quinto andar) e viu um vulto em aceleração a passar diante da janela. Ele terá talvez sido a última pessoa a ver a rapariga mais triste do mundo ainda com vida, embora a décimas de segundo de um embate letal no chão inevitável talvez seja mais rigoroso falar-se não de um vivo mas de um cadáver consciente. Era mesmo muito cedo, as manhãs podem ser terríveis. Se a rapariga tivesse aguentado até à hora do almoço, passado pelo Gabriel das pizzas, enfim... O Gabriel é judeu, talvez se sinta livre de tragédias pessoais por carregar a tragédia colectiva, blá blá... Ou então aquele desconcertante bom humor dele é apenas reflexo de uma ciclotimia afinada que o fazia feliz ao dias úteis e deprimido ao fim-de-semana. Mas o Homem do pullover amarelo nunca viu o Gabriel de kipah nem de cachecol do Paris Saint-Germain, o que pode saber ele? Nem sequer se a rapariga mais triste do mundo despiu a bata antes. Ele espreitou pela janela, logo depois do som abafado – que barulho é aquele? Pulmões a fazer de caixa de ressonância? Carne que abafa a marimba de ossos? - , mas não consegue hoje recordar-se da roupa dela, nem pode excluir que o branco naquela imagem de uma figura em posição fetal relaxada não seja coisa plantada, a silhueta desenhada a giz no asfalto antes de um genérico final de Hill Street Blues, aquela balada já a soar, anunciando o fim de um raro episódio que daquela vez não acabou ao cair da noite. Ainda bem que ninguém se lançou do edifício onde trabalhou em Nova Iorque, são 20 andares, uma carnificina à chegada.

 

Na passagem pela América não houve suicídios, certo, mas corria pela universidade uma história macabra de uma tentativa de envenenamento com flúor (tóxico quando em doses elevadas). Envenenar a comida, haverá coisa mais aviltante? E um cientista a envenenar outro? Já não há corporativismo. É também por isto que Homem do pullover amarelo nunca deixa comida nos frigoríficos comunitários. E gosta de passar ao largo da cantina por volta das 3 da tarde, já almoçado, para espreitar as empregadas. São um misto de operária com camponesa, inspiram uma confiança absoluta. Vêm fumar depois do seu almoço, sentam-se na escadaria ao ar livre e apetece logo ressuscitar Álvaro Cunhal ou outro que as desenhe. Não há aqui paternalismo, nem ilusões. Às 7 da tarde, quando por vezes se cruza com elas à saída, vendo-as já sem a farda, de casaquinho de cabedal e cigarro banal, ele percebe que seriam capazes de envenenar o marido e não lhes nega faculdade do suicídio. Só não lhe parece que o venham a fazer no local de trabalho, nem que Gabriel um dia use o forno de pizzas da cantina para tal fim. Eles guardam a decência própria que o cientista perdeu para a sua própria profissão.

 

 

 

publicado por Homem do pullover amarelo às 08:51
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2 comentários:
De helena a 20 de Maio de 2008 às 10:29
Uma adenda um pouquinho macabra:
Já ouviu falar do investigador que se suicidou e que agora é fantasma no IGC ?
A história dava um bom post !
De Luis Oliveira a 24 de Maio de 2008 às 21:49
"Às 7 da tarde, quando por vezes se cruza com elas à saída, vendo-as já sem a farda, de casaquinho de cabedal e cigarro banal, ele percebe que seriam capazes de envenenar o marido e não lhes nega faculdade do suicídoo. Só não lhe parece que o venham a fazer no local de trabalho, nem que Gabriel um dia use o forno de pizzas da cantina para tal fim. Eles guardam a decência própria que o cientista perdeu para a sua própria profissão."

Ainda há gente com juízo ....

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