Sábado, 17 de Maio de 2008

Os comensais

Interlúdio III

 

O Homem do Pullover Amarelo não é dado a desperdícios de afecto por animais de estimação. Não quer isto dizer que não os tenha, procura apenas assegurar que o último antepassado comum com a criatura esteja a mais de 50 milhões de anos de distância. Tal regra implica excluir o cão.  Ele não duvida que o animal seja o melhor amigo do homem, mas também sabe que há chineses. As relações não correspondidas são sempre de evitar. Um periquito é um óptimo animal de estimação, inferior ao cágado, que é pior do que um peixe, que perde para um bicho-da-seda a comer folhas de amoreira numa caixa de sapatos. Esta regressão filogenética parece apontar para a medusa como o bicho ideal. Ora, é verdade que uma alforreca fluorescente dentro de um aquário com boa luminotecnia tem sobre a mulher a vantagem de nos deixar num mesmo estado contemplativo só que sem a inquietude da pulsão sexual - mais pela consistência gelatinosa do que pelo  veneno, a alforreca não desperta perversões. Sucede que a regressão filógenética não chega aos Cnidários e fica muitos milhões de anos atrás. Onde? Obviamente, nos Platelmintes. Já ia tardando o elogio à ténia.

 

Comecemos pelo nome. Nada de bizarrices para épater Pacheco Pereira, como Ornithorhyncus. Nada de vassalagens antropocêntricas, como em Pachycara saldanhai, peixe de águas profundas assim baptizado em homenagem ao Professor Luiz Saldanha (a hora de Jaime Gama ainda não chegou). Não. Apenas solium. "Hum...  my name is solium, Taenia solium", retorquiria uma esguia russa, fazendo corar Bond pela primeira vez. O bicho tem o melhor epíteto específico da Zoologia e nele se encerra uma filosofia de vida. Envergonhem-se os solitários intermitentes, os que cultivam a solidão por imitação, os que a encenam, porque esta Tanya é uma solitária da linha dura. Hermafrodita, não sofre com a busca do parceiro e aceita qualquer um para hospedeiro definitivo. Paradoxalmente, a teníase é a relação monogâmica mais estável a que um homem terá direito.

 

A suspeita de que o Homem do pullover amarelo transporta uma solitária desde sempre o acompanhou e o apetite desmedido valeu-lhe diversas alcunhas – “frieirazinha”, a última delas. Mas este cenário não é trágico. Mata-se uma solitária com niclosamida, diclorofeno ou mebendazol. Na verdade, trágico seria acabar por preconceito racial com uma solitária que nunca deu náuseas. O dirty little secret do hospedeiro de parasitas? Parasitismo ou mutualismo, é tudo uma questão de gosto. A micose conhecida por pé-de-atleta, por exemplo, produz a comichão mais agradável de saciar. Não se diz isto, por vergonha. Logo, o fungo não é um comensal (um parasita), é um simbionte. Também uma ténia pode ser um simbionte, a alternativa natural à banda gástrica. A própria polissemia de “comensal” consubstancia este relativismo. Uma lombriga é um comensal, os que papam jantares são comensais, os que comem em casa alheia são comensais e os que comem juntos são ainda comensais. O comensal vai da lombriga ao conviva, civilizou-se. O Homem do pullover amarelo acredita que "there is grandeur in this view of life", too.

publicado por Homem do pullover amarelo às 23:26
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