Domingo, 11 de Maio de 2008

Coágulos e amputações, venenos e secreções

Interlúdio II

 

O homem teme o terrorismo. Cela va sans dire. O Homem do pullover amarelo estima a gastronomia acima de quase tudo. Logo, o único texto da blogosfera que lhe dá pesadelos é este opúsculo sobre  terrorismo gastronómico. Não há restaurante em que se sinta absolutamente seguro. Pior, não há comida caseira comercializável. Isto não é a apologia da ASAE, o Homem do pullover amarelo tem um desprezo olímpico pela actualidade. O que se passa é muito simples: comida caseira que se vende para fora deixa de o ser, porque o que a define não é o modo como se confecciona, antes a confiança incondicional com que é consumida. Desde que a Emília e a avó Maria se ausentaram, só sobra a comida de sua mãe. Uma confiança superlativa, que transcende até a que tem pelos seus próprios e parcos cozinhados, não por sentir nele uma pulsão de cozinheiro suicida, mas porque, em consciência, não pode excluir um acto de terrorismo por inépcia - a polpa do indicador no picadinho do estrugido -  que faça de um dos seus convidados um canibal involuntário.

 

Há uns dias, no escuro do teatro, sua mãe ofereceu-lhe um rebuçado já aberto, que ele recebeu com os lábios. Num reflexo típico da sua discreta retenção anal, ocorreu-lhe que talvez fosse o último, que ela se apressara a resgatar da boca quando reparou não ter mais na bolsa, para o oferecer ao seu filho, que nem sequer lho pedira. Ele estivera tão distraído e o escuro era tanto que só uma confiança cega o podia guiar na decisão sobre o que fazer: aceitar o rebuçado, acariciá-lo com a língua, prolongar o prazer e estimar a oferenda como se lhe tivessem cedido um cantil no deserto ou, pelo contrário, usar o escuro para simular que chupava o rebuçado, quando na verdade o soltara dos lábios para a palma da mão e o deixara cair, aproveitando o amortecimento acústico da alcatifa e um momento em que, do palco, um Duarte Mendes a fazer de comunista empedernido soltava uma interjeição sonante. Enquanto chupava o rebuçado, com a convexidade de encontro à  curvatura do céu-da-boca a desfazer-se num açúcar que se difundia logo no sangue, apercebeu-se  que a dúvida não o incomodava, até o divertia, e foi num travelling do último almoço na cozinha de sua mãe, nessa tarde, até à vida intra-uterina e ao cordão umbilical. Excluindo aquele útero e aquelas cozinhas, não se voltou a sentir seguro em lado nenhum e muito menos num restaurante. 

 

O que se passa atrás daquelas portas? O que fizeram as mãos de um ajudante de cozinha imberbe a rebentar de tesão, momentos antes de ele cortar a hortaliça? Isto nem seria terrorismo, é uma inevitabilidade que decorre da exploração das classes desfavorecidas, da sobrecarga horária e do enviesamento para contratar empregadas de mesa com características sexuais secundárias apelativas. Quantas vezes não se comerá salada temperada com mijo por um empregado de mesa irritado? Se o Homem do pullover amarelo nunca mandou um prato para trás, para ser reaquecido, para se assar melhor a carne, para que a comida corresponda à descrição, etc., não foi por falta de vontade, foi por medo. Medo das represálias. Enganam-se aqueles que se sentem numa relação de superioridade hierárquica com o empregado de mesa. Quem domina o fluxo da cadeia trófica domina tudo. E quanto melhor o restaurante, maior a probabilidade de estes episódios acontecerem, porque maior é a arrogância, a inveja e a tentação de tramar as celebridades, poder chegar a casa e soltar a gabalorice: "o Paulo Pires gostou do cotão do meu umbigo." Então os que são malcriados para os maus criados, pobres coitados... Dá-me dó pensar em todos os arrogantes que vejo à mesa. Não quero pensar na sopa de ninho de andorinha com um farrapinho de  esperma a boiar, no bife de pimenta que alguém arrasta pelos ladrilhos da cozinha antes de o camuflar num molho espesso, no salmonete que se refresca na água da sanita antes de ser grelhado... e de se puxar o autoclismo. Nos EUA, uma parte substancial do ordenado do empregado de mesa vem da gorjeta, mas a gorjeta não estimula a qualidade do serviço, antes condiciona o cliente, vítima da sua frágil psicologia - ouve-se uma voz "se não pagas bem, vais ficar com a certeza de que te cuspi na sopa; se pagas bem, ficas apenas na dúvida". Não faz sentido, mas nós não fazemos muito sentido.

 

O povo diz que o que não mata engorda, mas quando o povo começar a ser mais assíduo nos restaurantes vai ter vontade de ser envenenado. Existe uma franqueza estimável no envenenamento. Do terrorismo gastronómico subtil é que nenhum provador nos pode salvar. Nem sequer o sorriso, que é o que nos resta. 

 

publicado por Homem do pullover amarelo às 07:30
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1 comentário:
De N. a 12 de Maio de 2008 às 15:08
pois, sim, mas... qual é a droga?

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