Sábado, 10 de Maio de 2008

Armadilhas de abrigo (interlúdio)

Deve um crítico gastronómico ter aspirações na cozinha? Claro que não. O eventual ganho de conhecimentos não compensaria nunca a tendência para se comparar aos cozinheiros que critica e a análise ficaria a perder. Um crítico deve, antes de tudo, resignar-se com a sua condição. Mas coexistem no Homem do pullover amarelo duas pulsões, uma racional e outra passional. É por isso que ele tem agora um louceiro no patamar, atravancando a saída de sua casa e de casa do vizinho. Um louceiro onde guardar frascos de vidro cheios de frutos secos, as massas, o arroz, o açúcar castanho, o grão-de-bico, os dentes de alho e as especiarias, malagueta,  louro, oregãos, tudo à vista como uma mercearia de brincar e um derradeiro estímulo para enfim cozinhar.  "O senhor procura um louceiro rústico que combine com a mobília da sua casa de campo?", perguntou a antiquária. "Sim, mas a casa é citadina, o louceiro é para combinar comigo". Teria sido uma boa resposta, que lhe ocorreu uma semana depois de ela fazer a pergunta. É sempre assim, a inteligência das pessoas poder-se-ia medir no número de dias que precisariam de ter de avanço sobre a realidade para igualar a inteligência de Vasco Pulido Valente, descontando as previsões políticas do colunista, que geralmente saem furadas. O Homem do Pullover amarelo, por exemplo, está a 3 dias da inteligência de Pulido Valente. Carlos Magno está a 2 dias. Scolari está a 4. Ele não conhece o mobiliário de Pulido Valente, mas duvida que alguma vez um louceiro de nogueira tivesse pernoitado no patamar dele por não entrar pela porta. Em sua defesa, confessa-se vítima da tirania das coisas imaginadas que se materializam. É muito raro. Imagina-se uma mulher e em regra arranja-se a mulher possível, ou então retoca-se o sonho para que o sonho se ajuste à realidade e também sejamos actores de uma bela história de amor. É um truque fácil. Imagina-se um louceiro e não se espera encontrá-lo nos antiquários de São Bento, especula-se que talvez numa qualquer casa de Marvão, talvez... E se o louceiro aparece mesmo no antiquário, no canto mais distante de uma cave imensa atulhada de mobília de maus herdeiros, o Homem do pullover amarelo sente-se marcado pelo destino. Depois logo vê se o móvel cabe na porta, se pode rodar no exíguo hall de entrada e ganhar ângulo para galgar o primeiro lance de escadas, já dentro de casa. As coisas práticas, o planeamento, a compatibilidade, bah...  Basta haver vontade. Toda a sua mobília volumosa tem as marcas de tal combate e ele lenhos nos dedos. Fez-se cúmplice de dois homens de mudanças com quem carregou um móvel chinês e no final o entusiasmo foi tal que só pela camaradagem  lhe apeteceu ir com eles carregar a mobília de outros clientes. Parece-lhe até que a sua casa é como aquelas armadilhas de abrigo para polvos, em que o animal entra e depois já não pode sair. O móvel chinês só à machadada é que poderá ser posto fora e o louceiro um dia estará na cozinha - é um desejo - para não mais sair. Mas nem tudo se pode armadilhar. O hall de entrada não funciona para os amigos. Os amigos entram para o serão e partem ao fim da noite. Nem funciona com as mulheres. Ele ainda se lembra que, antes de ajustar o sonho à realidade, andava com um entusiasmo de quem tem vontade de perguntar se ela estaria com dias de atraso e depois ouviu, como uma revelação e sentença, "Não, querido. És tão tolinho. Eu até tenho um dia de avanço sobre o Vasco Pulido Valente."

publicado por Homem do pullover amarelo às 08:16
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3 comentários:
De clara a 10 de Maio de 2008 às 11:06
Porcaria dos louceiros é que depois efectivamente não servem para nada. Eu vou herdar uns 2, lindos, que eram da minha bisavó. No entanto nunca caberão na minha casa mínima, pelo que certamente nunca os possuirei. E sempre foi o meu sonho ter um na cozinha (que é o sítio deles, aliás).
Bjs.
De Albertino (crítico de cozinha) Dias a 10 de Maio de 2008 às 12:22
"Deve um crítico gastronómico ter aspirações na cozinha?"

Ainda, um dia, me vais contar onde é que tu engendras estas ideias.

De Belota a 11 de Maio de 2008 às 17:20
Hum, será que quando o homem do pullover amarelo der pela evolução de estar apenas a 2 dias da inteligência de VPV, ter passado do amarelo para uma cor menos tacky, quando passar da vontade ao acto e der por si efectivamente a carregar mobília em espírito de camaradagem para com os senhores das mudanças (arrependendo-se após o primeiro lance de escadas, naturalmente), será que aí, vai perceber que o louceiro não é mais do que a prova que o racional e o passional nunca existirão num só? A piada é mesmo essa. Nem que o louceiro tivesse que dormir na rua e o seu feliz proprietário o acompanhasse ao relento. O que importa é que o desejou e que o tem. Não precisa de estar na cozinha. Deixe lá que se fosse o caso de ter que ficar na rua, eu oferecia-me nas noites mais desconsoladas para lhe levar uma camisolinha quente. Desde que não fosse amarela.

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