Sexta-feira, 9 de Maio de 2008

Shiny happy people

Li isto no Público de ontem. Eric G. Wilson, catedrático de Literatura Inglesa nos EUA, publicou um livro polémico, "Against Happiness: In Praise of Melancholy", em que diz que a América procura, a qualquer preço, fugir da tristeza. EGW defende que a melancolia potencia a criatividade - duvido que a maior parte dos melancólicos raie o génio, mas adiante.

 

Dentro das "vítimas da felicidade" que Wilson menciona parece-me haver, grosso modo e usando exemplos do autor, diferentes graus: a classe média-baixa que corre para "centros comerciais", usa "livros de auto-ajuda" e frequenta "igrejas e seitas"; a classe média-alta que frequenta "ginásios" e aderiu à moda da "comida saudável"; e as classes altas que encerram "a vida dentro de condomínios fechados".

 

Não sei dos EUA, mas cá uma espécie de sub-grupo merece observação. São bandeiras, não da felicidade, mas do eterno bem estar consigo mesmos. Nunca têm dúvidas, sabem que camisas usar, conhecem os vinhos certos, os restaurantes que é "obrigatório" frequentar. E falam muito das festas em que "estava toda a gente".

 

Estão de acordo com a sua época, fazem da zona cinzenta de qualquer questão moral um imenso arco-íris. Não têm propriamente ideologia, antes um modo de vida que para eles é superior e o único aceitável - o que não deixa de ser curioso em profissionais da extrema relativização. É gente que não hesita: faz. Interessa-lhes o agora e o amanhã será o dia da vitória - para eles não há passado: o que fizeram, fizeram sem culpa, porque são auto-proclamados transgressores. E a transgressão não é bem transgressão, é um código de comunicação entre a espécie. Unir o hedonismo à indiferença aos restantes humanos é para eles um imperativo estético. 

 

Pouco me importa se transgrediram ou alcançaram o que quer que seja. Sei que têm uma admirável incapacidade em mostrar dúvida, medo, auto-reflexão. E sei que não é o pudor que os mantém calados sobre o que lhes é íntimo. É que, na realidade, são incapazes de não obedecer à risca (e ao risco) as regras da sua pequena comunidade. Na realidade, são eles as verdadeiras vítimas. E inspiram-me pena.

publicado por João Bonifácio às 00:24
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5 comentários:
De Alexandre Fonseca a 9 de Maio de 2008 às 14:22
Antes de tudo, parabéns pelo blog. Tenho seguido algumas crónicas e vídeos.
Fala da melancolia, não sei se de maneira irónica, e mesmo que podendo ou não "induzir" a criatividade, parece-me essencial a qualquer ser humano, porque convida a reflexão como referido.
Aliás, e em continuação do que foi dito, desconfio dessas pessoas que estão sempre a sorrir para a vida...
De João Bonifácio a 9 de Maio de 2008 às 14:39
Concordo que a melancolia convida à reflexão, apenas não me parece que possamos dizer com certeza que um melancólico é mais criativo que um não melancólico - isso parece-me uma ideia romântica.
De Alexandre Fonseca a 9 de Maio de 2008 às 15:27
claro...é uma generalização, logo está errada. de resto, bom post. :)
De Joanina a 9 de Maio de 2008 às 15:32
Bom dia! Já que diz que não sabe dos EUA, eu digo-lhe que aqui a "classe" que descreveu, também a ha aqui, e tambem e mais ou menos assim... Também a mim me inspiram. Quanto ao livro, que ainda não li, mas pelo que descreveu no seu post, tem o seu que de verdade... As pessoas realmente refugiam-se nessas coisas. Agora questão da relação melancolia/criatividade, quanto a mim e duvidosa. Desde quando correr para os centros comerciais ou ir para o ginásio e considerado criatividade? Só mesmo nos EUA! ;))) Jo
De Ana Rita a 9 de Maio de 2008 às 22:20
A blogosfera está cheia de aspirantes a escritores sem metade do teu talento para a escrita. Já pensaste nisso a sério? Em escreveres um romance?

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