Quarta-feira, 7 de Maio de 2008

Alheiras e Farinheiras

Parte II

A puta da dicotomia. O Homem do pullover amarelo nem sequer é de brejeirar, mas  será que uma discussão se pode ganhar usando colorau nos enchidos como critério demarcador? Não haverá regionalismos na alheira? Graus de liberdade na farinheira? Esta coisa de ser taxativo é para os muitos que  sabem pouco e para os poucos que sabem muito, mas pela assertividade não se distinguem os primeiros dos segundos. Será que um empate técnico é possível quando a uma mesa, sentadas, estão 3 feministas e do outro lado, de pé, um cozinheiro? Não lhes bastava já a elas o empate para terem assegurada a bem merecida subida de divisão? O Homem do pullover amarelo sentiu a deriva misógina, a empatia de género. Trocou um sorriso cúmplice com o cozinheiro. Provou depois a alheira e a farinheira e confirmou a fraude que é como crítico gastronómico: não deu pela diferença. Enfim, o paladar do Homem do pullover amarelo é capaz de fazer a grande síntese, algo que 10 minutos de dialéctica entre gente sofisticada não gerou.

Salsa e Coentros. Também nas ervas aromáticas a gritante ignorância culinária do Homem do pullover amarelo se faz notar. Salsa e Coentros. Parsley e coriander. Ele costumava estacar diante da banca das verduras e hesitar, com se o  cheiro,  que antes chegava mais pela via do nome que pela do olfacto, se dissipasse no inglês. Não que desconhecesse a língua, nada se perdia na tradução, era ele que se sentia perdido. Faltava-lhe a segurança de uma ardósia onde se escreveu "coentros", essa palavra ignorada pelos grandes letristas. "Parsley sage rosemary and thyme", diz o Simon, "tília trevo e açafrão", diz o Tê, que depois insiste: "erva pura, pimentão, louro, salsa e cidreira, urze brava e dormideira". E os coentros, raios? Não se espera nada de Lou Reed, certo, mas será mesmo preciso mergulhar no universo de Paco Bandeira e, até lá, fazer refrão de "pézinhos de coentrada"?

(cont)

R. Coronel Marques Leitão 12, 218 410 990, fecha aos Domingos, cartões de débito e crédito, 20-25€ / pessoa.

Bibliografia recomendada

Francisco José Viegas
Lourenço Viegas


Ver parte I


publicado por Homem do pullover amarelo às 10:06
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2 comentários:
De bloom a 7 de Maio de 2008 às 12:46
"Coentros e rabanetes" dizia aquele fadista/cançonetista barbudo de Cascais cujo nome agora não me ocorre.
De Shyznogud a 7 de Maio de 2008 às 15:51
Rodrigo, é o autor de tal pérola que desde esta manhã me não larga. Esta alminha, do homem do pullover amarelo, não a conhece. Rapidamente providenciarei para que tão grande lacuna na tua cultura musical seja ultrapassada.

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