Segunda-feira, 5 de Maio de 2008

Deprimidos amadores

Conheço um tipo que costuma dizer qualquer coisa como “Não suporto aquela gente que anda para aí a dizer 'Estou um bocado deprimido'. Eu quanto estou deprimido acordo de manhã, sento-me na cama e penso que a minha mulher nunca mais volta. E fico assim o dia todo”. O homem tem uma qualificação para os que – basicamente – não são como ele: são os depressivos amadores. Imagino que para ele seja uma questão de ordem moral: um maior grau de paralisia pressupõe um maior grau de esforço para ultrapassar.

 

Um tipo vê os deprimidos amadores todos os dias: em lamentos no café, na lentidão com que trabalham, a comprar fruta de forma mecânica, sem ver se está em bom estado, com os seus saquinhos da farmácia. Quando ouvem um simples “Então, tudo bem?” respondem com um “Ando meio deprimido” que obriga o interlocutor a ouvi-los, mesmo que não queiram. Dizem coisas como “Lá se anda, né”. E, de facto, vão andando.

 

Tenho simpatia pelos deprimidos amadores. Levantam-se de manhã, apanham o autocarro a horas, compram as nabiças, fazem o jantar, põem a roupa a secar, têm vagas culpas que esquecem numa ida ao cinema. Se não pagam a conta da água, da da luz e da renda não se esquecem. E lá fazem coisas: têm filhos, compram carros a juros que os angustiam, mas pagam, lá isso pagam. E ocasionalmente têm mesmo opinião sobre a política, o futebol, a Maddie e os media. E ao carregarem os seus saquinhos da farmácia desmistificam os mitos à volta do peso dos saquinhos. Parece que pesavam muito e agora pesam menos.

 

Cada um tem direito à sua melancoliazinha, dá-lhe jeito não acreditar nisto ou naquilo para lhe saber melhor aqueloutro. Antes de pensarmos porque nos incomoda o deprimido profissional rejeitamos o aspecto da coisa. Podemos até conceder-lhe uma qualquer vaga vantagem moral, mas o que nos incomoda mesmo é a estética: é difícil gostar da cara de um deprimido profissional, não nos imaginamos a vestir aquelas roupas diariamente porque sempre pudemos ir vestindo de maneira diferente, consoante as ocasiões. A sua fealdade lembra-nos quão feios somos – e todo o homem, por mais asceta que seja, augura a sua côdea de beleza.

 

E, convenhamos, um deprimido amador pode não grande cozinheiro, mas ao menos levanta-se do sofá para fazer uma sopa.

publicado por João Bonifácio às 19:02
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5 comentários:
De António Raminhos a 6 de Maio de 2008 às 17:56
Não são deprimidos amadores... são só portugueses.

AR

www.antonioraminhos.blogspot.com
De mestre chou riçá a 6 de Maio de 2008 às 18:52
Muito, muito bom. :)
De Saci a 7 de Maio de 2008 às 00:07
Brilhante texto!
De PR a 7 de Maio de 2008 às 10:39
http://suckandsmile.blogspot.com/2008/05/andam-por-acreditem.html
Passem lá se puderem.
Abraço.
De Margarida a 7 de Maio de 2008 às 11:09
mais um post brilhante...como todos os que escreve...

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