Domingo, 4 de Maio de 2008

Alheiras e Farinheiras

Parte I

Não é com ligeireza que o Homem do Pullover Amarelo entra num restaurante alentejano. Já lá vão 30 anos, desde aquele dia de Dezembro, em Ourique, mas na sua cabeça ainda ecoa o canto do cisne do porco preto a instantes de ser degolado, um guincho terrível que estilhaçou o ar frio matinal e o viria a deixar melancólico com a vida em geral  e os enchidos, muito em particular. Não é possível meter abetardas, cisões, águias de asa redonda, abelharucos, a minha querida Emília, as sardinheiras da varanda,  as poupas, o corrimão que escaldava sob o sol e o branco da cal, a escama esverdeada do achigã, que parecia guardar o reflexo do fundo de limos mesmo quando a barragem do Monte da Rocha e o sol ficavam além do horizonte, no fim de um dia que correra mal para o peixe-rei dos riachos, nosso isco ... enfim, não se mete estas coisas todas e a minha querida Emília num rés-do-chão e cave, algures entre Alvalade e a Avenida do Brasil. Tudo isto para dizer o quê? Que há quem tenha a arrogância pública das opiniões fortes e que tenha a arrogância privada das memórias profundas, e que esta forma de separar as pessoas - em todo o caso, os arrogantes -  leva o Homem do Pullover Amarelo a  divagar sobre as chaves dicotómicas que usamos para nos entendermos.

Apressou-se a vir à mesa explicar a diferença entre uma farinheira e uma alheira, após comentários espontâneos da clientela que lançaram a suspeita de naquele lugar se trocar um enchido por outro, o que não seria caso de gato por lebre mas ainda assim poria em cheque o brio profissional dos profissionais da casa. Trouxe um outro enchido para termo de comparação, que colocou ao lado da fonte da discórdia e, enquanto se desfazia em explicações perante as mulheres da mesa, o Homem do pullover amarelo percebeu que a crónica se desenrolava à sua frente, sendo tudo tão óbvio que quase teve vontade de esmurrar a cara irrepreensivelmente honesta do cozinheiro, por este lhe retirar o gozo do esforço. Alheou-se então da discussão, fixou a alheira - ou seria a farinheira? - , depois a farinheira, uma e outra, uma e outra e... Chaplin, claro, estavam criadas condições para uma versão lusa da famosa dança dos pãezinhos, só que em vez de um número de dança com os pãezinhos a fazer sapatos, cada um espetado num garfo, que fazia de perna, teríamos a alheira e a farinheira num número de acrobacia, ambas pelo ar até um encaixe perfeito como elos abertos de uma corrente, a parte interna da curvatura de uma roçando na parte interna da curvatura da outra, e logo se soltando, animadas por um movimento de translação e de rotação em torno de um eixo que correspoderia a um invisível pau de fumeiro. Se Chaplin, apesar da falta de articulações nos garfos, conseguira alguma graciosidade, o desafio no número da acrobacia dos enchidos seria como os manipular sem que as mãos lhes roubassem protagonismo. Na impossibilidade de o conseguir, o Homem do Pullover Amarelo concebeu um cenário de contingência: a alheira e a farinheira num número de contorcionismo, uma deslizando pela outra ao jeito das sanguessugas satisfeitas, quase dando um nó, deixando - até na farinheira, que consta ser mais para o murcho - partes da tripa tão tensas que um  dentinho de alho lá dentro as faria  rebentar, ouvindo-se um som pífio, como se alguém quisesse traduzir acusticamente a ausência de porco preto no recheio daqueles enchidos, o guincho de 30 anos a revolver finalmente, não no plano harmónico, antes num  "pof" de pizzicato abafado de violoncelo. Na impossiblidade de esquecer certas  lembrancas, a solução é substituí-las por outras, inventando-as se necessário.

R. Coronel Marques Leitão 12, 218 410 990, fecha aos Domingos, cartões de débito e crédito, 20-25€ / pessoa.

Bibliografia recomendada

Francisco José Viegas
Lourenço Viegas

(cont.)
publicado por Homem do pullover amarelo às 08:25
link do post | comentar
1 comentário:
De Lourenço Cordeiro a 5 de Maio de 2008 às 22:07
Make my day e diz-me que descobriste o Lourenço Viegas por mim.

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