Sexta-feira, 2 de Maio de 2008

Bill Callahan: é um filme, não é uma fotografia

Bill Callahan escreveu coisas terríveis na sua antiga banda, os Smog. Coisas cruéis, como:

 

"Cada rapariga que amei/ quis ser agredida/ E cada rapariga que amei/ deixou-me porque não o fiz./ Tenho um conselho para ti, amigo:/ magoa-as e elas nunca te deixarão".

 

Por esses dias chamavam-lhe misantropo e misógino. As pessoas chamam coisas às outras pessoas. Como se aquilo que denominam com uma palavra ("misógino") fosse o todo do ser dessa pessoa. Como se essa pessoa não tivesse um passado e não viesse a ter um futuro. Mais exactamente: como se o seu rosto fosse uma fotografia única e imóvel e não um rosto num plano de um filme, com scope e profundidade de campo. Como se a acne que houve um dia num rosto de um homem fosse a vida inteira desse homem e ele se reduzisse a uma borbulha.

 

É um erro de olhar: pega-se num pormenor do passado de uma pessoa, uma frase que disse, algo que escreveu ou fez e que por alguma razão nos assusta e enche-se o corpo todo da pessoa visada com esse pormenor. Até que essa pessoa se torna, para quem vê, apenas essa frase, esse erro, esse algo que nos perturba. Trata-se, no fundo, de medo ou mesquinhez.

 

Há uma frase que até a mim, que lido com o que estes tipos escrevem todos os dias, me estremece. É numa canção chamada "Ex-Con" (em português, ex-preso). Ele diz:

"Na fila da mercearia/ atrás de uma mãe e do filho/ eu vou raptar aquela criança".

 

No fim da canção lê-se:

"Sozinho no meu quarto/ sinto calor pela sociedade/ mas lá fora, nas ruas/ sinto-me como um robot junto a um rio/ à procura de uma bebida".

 

É um símbolo, claro: o mundo está cheio de coisas e quem não é capaz de aguentar a complexidade das coisas que existem prefere fugir para a sua eterna prisão, mesmo a custo de se vingar num inocente. Aquela personagem, igualmente, não sabe olhar: incapaz de andar pelas ruas e lidar com todo o scope, toda a profundidade de campo de uma rua, olha para um só pormenor e torna-o maligno. Aqui é uma criança, podia ser outra coisa qualquer. Aquela criança é apenas o símbolo da vida de uma pessoa, um símbolo da diferença, um símbolo da exlusão daquele homem.

 

Que medo faz uma pessoa, numa determinada altura da sua vida, não ser capaz de olhar para o todo da outra e resumi-la a um nome, um adjectivo, um acto, só porque um pormenor nos assusta? Não sei. Talvez Callahan, por esses dias, se colocasse propositadamente no lugar de quem é maligno. Talvez ele próprio cometesse esse erro de visão de que era alvo, talvez ele próprio não conseguisse ver o scope e a profundidade de campo e as canções fossem uma forma de ver melhor.

 

A verdade é que desde que conheceu a sua actual mulher, a escrita de Callahan adocicou e já não há misantropia. Talvez já não cometa erros de olhar. Talvez ela o tenha levado ao oftalmologista. Se assim for, abençoada mulher. 

 

 

publicado por João Bonifácio às 18:28
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1 comentário:
De m. a 2 de Maio de 2008 às 23:32
... magnífico-tremendo texto...

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