Terça-feira, 29 de Abril de 2008

Planeta pullover

O homem do pullover amarelo foi buscar a Nené o hábito de se referir a si próprio na terceira pessoa do singular, algo inadmissível num ponta de lança mas que talvez se tolere num anti-herói burguês. A iconografia,  sacou-a do álbum A Marca Amarela. O pullover em si, à Pull and Bear,  após uma humilhante visita à Rosa & Teixeira, e depois de se confrontar com o angustiante dilema do decote em  “v” ou arredondado  e com o reduzido leque de amarelos disponíveis nas lojas de Lisboa, que excluem o amarelo nevado, o amarelo mosaico, o amarelo limão intenso, o amarelo limbo nevado e o amarelo limão mosaico - só para ficar entre os canários lipocromos e não entrar no universo da botânica ou das tintas Dyrup. A T-shirt amarela, antecipando já a canícula, foi reciclada de um brinde e é amarela a dar para o torrado, quase alaranjada ao sol rasante, numa perigosa aproximação cromática a outro anti-herói burguês (Santana) com quem tarde ou cedo se cruzará na Bica do Sapato, mas em compensação as letras da publicidade estão entre o imperceptível  e o subliminar. A sua complexidade psicológica é nula, isto é, apenas suficiente para a aferir, não há cá personagem mitológica transmutada em criatura hipertrofiada e de licra justa, nem genealogias complicadas ou incestuosas. O homem do pullover amarelo acusa até todas as tentações das criaturas banais, embora seja um John Difool  que sublimou a luxúria em gula e trocou os prostíbulos das galáxias longínquas pela restauração lisboeta. Enfim, chulos há-os em todos os negócios, mas o que o preocupa mesmo são os soufflés, que o debilitam como a kryptonite trama o Super-homem. Detesta apaixonar-se às refeições, promete imparcialidade e uma cobertura transversal, translúcida, transbordante, transtejo, da tasca do Tó ao Tavares, sempre trajado de amarelo. O anonimato relativo  é para preservar, mas pretende-se cada vez mais ostensivo e, sendo bem sucedido, ele conta que a pressão sobre os cozinheiros conduzirá ao aumento da frequência de clientes com pullovers amarelos por salutar mimetismo oportunista - em “V” a concretização da utopia social passava pela clonagem da máscara do enigmático herói e no projecto da “boa mesa ou morte” a estratégia é a mesma.  Enfim, se ele sonha com entradas em grande estilo, de pullover esticado para os lados e a franquear a janela como um esquilo voador ou então em passo lento pela porta principal e de braço dado com uma Maria de Lurdes Modesto de lantejoulas, o mais provável é chegar a pé e a sós ou então na companhia de amigos que não desconfiam da sua dupla vida e passarão a noite a gozá-lo por causa da indumentária.  Mas ele está aqui para servir a população de Lisboa e iria até de sapatinho de vela e calcinha aveludada verde, não lhe passando pela cabeça que com estas tristes figuras jamais sacará a loira caprichosa daquela  história do Fantasma. É frustração que dura há 30 anos,  a mulher continua impecável, sobretudo quando a vinheta calha perto da lombada e fica mais resguardada do pó e do sol, e ele já não vai para novo, em particular quando a luz incide de topo. De resto, foi sorte não lhe ter dado para se armar em Sansão, pois um pullover amarelo ficará ainda melhor com a careca anunciada, que só pode ser a somatização do seu anti-heroísmo pequeno-burguês e prova de empenho nesta causa - bordar apenas o monograma no pullover teria sido pouco sério.

PS. O homem do pullover amarelo agradece ao Nuno e ao Pedro Marques Lopes a simpatia - ele convidou-se para escrever aqui - e cumprimenta os outros membros desta casa, que ainda não conhece mas com quem espera poder jantar um dia à paisana ou em trabalho.
publicado por Homem do pullover amarelo às 08:28
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6 comentários:
De clara a 29 de Abril de 2008 às 11:43
Beijo, HPA. Gosto de o (re)ler.
De Nuno Costa Santos a 29 de Abril de 2008 às 12:19
Bem-vindo à respiração sinusítica! Não tens de nada de agradecer, homem do pullover amarelo. Craques - camisolas amarelas - como tu não têm de agradecer.
Abraço, Nuno
De Lourenço a 29 de Abril de 2008 às 18:29
Então foi aqui que vieste dar à costa. De facto, foi exagerada: ao contrário de Pedro, o teu lobo nunca chegou a aparecer. Agora é esperar 15 dias para aqui anunciares que vais de férias de Natal.

(Este é um comentário sem erros ortográficos. Deviam instalar um sistema destes lá no site do Patinha Antão.)
De Nuno Miguel Guedes a 30 de Abril de 2008 às 03:07
Só temos a ganhar consigo, meu caro homem do pullover amarelo. E essa coisa do jantar é bem vista, eu próprio não conheço toda a gente.
Welcome aboard.
De Anónimo a 30 de Abril de 2008 às 10:37
Tá bem, então. Se os amigos do HPA já sabem o nome verdadeiro dele, quam sou eu para me atrever a perguntar tal coisa. Desconfio que é alguma celebridade da internet.
De bloom a 30 de Abril de 2008 às 11:50
First we take Manhattan...
e depois o Mundo, i.é, Lisboa.

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