Quinta-feira, 24 de Abril de 2008

a conspiração das palavras (uma crónica sobre cansaço)

Penso que os seres humanos poderiam aninhar-se no chão e ficar ali, junto uns dos outros, sem dizer absolutamente nada, como fazem os cães. Ou rebolar em cestos a breves resfolegares do mais completo silêncio como os gatos; balbuciar bolhas de ar, apenas aqui e ali, como os peixes de aquário; dizer tudo de uma só vez, numa sílaba prolongada, como fazem, suponho, os lobos quando uivam ao cair da noite. Já para não falar das pedras, das árvores, das batatas, das maçãs, de uma hera, de águas paradas. De manhã, o mundo é um coro de pequenos sons agigantados pelo silêncio. Mas, depois, chegamos nós. E começamos a tagarelar.

Por que sentem as pessoas tamanha necessidade de falar? Nas salas de espera, nas paragens de autocarro, nas filas dos correios, nas mesas dos casamentos onde sentaram, lado a lado, desconhecidos.

Há muito quem aprecie a nostalgia dum pretenso passado no campo em que todos se falam. Imagine o horror.

Quantas vezes não lhe apetece estar apenas quieto, sossegado, acordado, mas a existir o menos possível, somente a olhar, a ouvir ou nem isso, a ocupar-se em não estar ali?

Pessoalmente, estou disposto a pagar a uma daquelas empresas organizadoras de experiências por uns dias disto. Dispenso o rafting, a escalada e a viagem ao Espaço. Garantam-me quarenta e oito horas de silêncio e eu passo o cheque.

Toda a gente quer conversa. O senhor do quiosque, o motorista do táxi, a dona do café, os colegas de trabalho. A pessoa começa a sonhar almoçar sozinha e convidam-na para um repasto que ponha em dia – digam todos – a conversa. Volta-se ao posto e a saga prossegue, acrescida aos telefonemas, e-mails e, no caso do blogger, aos comentários, em torrentes caóticas de ruído de gente a querer – como é que é, Lisboa? Quero ouvir – conversa. A pessoa que é pessoa sai, decide ir a pé para que ninguém a acompanhe e, ao fim de dois passos, pára alguém que oferece boleia. E, depois, vem o jantar, o cônjuge (a palavra menos excitante desde… hã… bedum) que quer contar o seu dia e saber como foi o nosso, a televisão a matraquear, o desafio telefónico para um copo, a progenitura que quer notícias, a criançada que não vai dormir. Num dia de menos sorte, virão ainda os tipos da tv cabo a impingir o funtastic live, o rapaz do destak e o do global notícias, o vendedor de enciclopédias, o das flores e tiaras luminosas, as testemunhas de Jeová, a assistência técnica da Lisboagás a avaliar os níveis de satisfação do cliente, a promoção das Pousadas de Portugal, o cobrador de quotas do Benfica, a namorada que deixámos em 1993 que quer dar a notícia de que está grávida e ainda não se sente completamente certa de estarmos isentos de responsabilidades, até a chamada por engano. Toda esta gente quer uma única coisa – agora só vocês: conversa.

Milhões de pessoas em todo o mundo instalam softwares gratuitos de conversação; eu ofereço-me para pagar uma fortuna por um que silencie quem se atreva a aparecer na rede.

Temos ao nosso dispor, entre as opções de fabrico, olhares, gestos, toques, rugas, ombros, mãos, abraços, et cetera e tal. O Criador ofereceu-nos a comunicação verbal e a não-verbal. Não temos que optar exclusivamente por uma. Isso é com o sexo. E mesmo assim.
publicado por Alexandre Borges às 01:56
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18 comentários:
De isa a 24 de Abril de 2008 às 02:52
Maravilhoso!
Eu, ermita, pergunto: onde é que assino?
De A. Goncalves a 24 de Abril de 2008 às 05:36
Tropecei no vosso blog, por acaso, e gostei tanto do que li. Inteligente, mordaz, observador, muito bem escrito. O que é raro na conjugação das qualidades. Imaginando e normalmente demonizando o "gap" geracional redescubro gente interessante no "meu" país à beira-mar plantado. Mais dado a minudências do que a clarividências. Mea culpa. Mas também do que nos chega - a quem vive fora - pelos contentores de lixo e barbaridades que são os canais de televisão e alguns semanários empedernidos. Bem hajam e não desistem.
De ana luisa a 24 de Abril de 2008 às 10:03
ahhhhhhh
Como entendo. Principalmente depois de ter passado o dia de ontem na DGV...

De N. a 24 de Abril de 2008 às 10:04
ler. O prazer desta leitura e outras (em silêncio) apazigua-nos, de novo, com a palavra.
De Hugo Jorge a 24 de Abril de 2008 às 12:59
gostei da crónica. aproveito para convidar a fazer uma visita ao meu blog
De mario r a 24 de Abril de 2008 às 14:24
já somos dois.
É o ruído das falas inúteis e os pontos que acumulam nos cartões.
Que praga.
De JN a 24 de Abril de 2008 às 14:29
...
De MARIA a 24 de Abril de 2008 às 15:12
Estou inteiramente de acordo...eu k tanto adoro o silençio.
Não sei pk é k cada vez mais as pessoas deixam de querer esse estado, acho k tem medo de um dia quererem falar e não poderem , tem medo da solidão...então dizem qualquer coisa pra esse medo se tornar oculto.
Sou uma grande apreciadora do silênçio , e posso dizer k não a nada melhor pra reflectir e pra observar o mundo k nos rodeia...adoro esse som mudo k nós chmamos silençio.
GRANDE CRONICA!!
De isa a 25 de Abril de 2008 às 02:37
é pq as pessoas em geral enfiaram na cabeça que os silêncios são confrangedres, que incomodam, que parece que tá tudo mal qd há silêncio.
E sim, tb é solidão, não é medo dela, é-a já instaladíssima...
De António Capucha a 24 de Abril de 2008 às 15:18
Vá lá pá!!! - Que é diferente de: Çá vá pá - és tão talentoso, não nos prives da conversa!
Bebe umas bjecas "....
De Alexandre Borges a 24 de Abril de 2008 às 16:05
Obrigado a todos. Confesso que, no caso concreto desta crónica, não esperava comments. Mas souberam bem.

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