Quarta-feira, 23 de Abril de 2008

Os desculpadeiros - uma interpretação

Imaginem que vão pela rua, distraídos a olhar as montras e dão um encontrão num pacato e parado cidadão. Cabe-vos pedir desculpas e a ele aceitá-las com má cara. Mas há gente que não reage assim - e mesmo antes de nós, os atropeladores, lamentarmos o acidente, atira um desconcertante 'Peço desculpa'. Podia dar outros exemplos: se eu, impaciente com a lentidão de uma fila, começar a bater com o pezinho no chão e com isto der um pontapé no senhor da frente, este deve fulminar-me com olhar. Mas a espécie mencionada retorquirá com um submisso 'Desculpe'. 

 

A isto chama-se desculpadeiro: aquele tipo de pessoa que nos convida para jantar em sua casa e, ainda não pusemos o garfo na boca, começa por perguntar 'Então, está bom?', para depois acrescentar nervosamente 'Acho que não pus sal suficiente', acabando em 'Se calhar não está grande coisa'. À porta, durante a despedida, sussurra 'Desculpa o jantar não estar grande coisa'.

 

Se telefonarmos às 3 da manhã a um desculpadeiro ele dirá 'Desculpa não ter atendido logo o telefone' . Se lhe pedirmos que nos venha buscar a um bordel na Bobadela porque está a chover, ele não só virá como dará por si a desculpa-se por ter demorado, o filho rachou a cabeça, a mulher partiu o pé, desculpa, devia ter previsto que o cão ia engolir o piaçaba e teria de o levar ao veterinário.

 

Esta compulsiva procura de paz devia comover-nos, mas o resultado é o oposto. É que quando um desculpadeiro se penitencia por algo que não fez, está a colocar-se no lugar do masoquista - o que nos obriga a ser o sádico. O aumento do número de desculpadeiros não criará mais harmonia - antes levará ao ruir dos códigos civilizacionais que nos ensinaram desde cedo, nomeadamente este: 'Eu sou melhor que tu'. E com isto escalará a violência, porque iremos dar por nós a libertar os instintos primários que qualquer cidadão consciente faz por reprimir.

 

Se algum desculpadeiro estiver a ler-me, fique a saber: eu não peço desculpa. E, por favor: tire lá esse ar submisso. Insulte-me, chame-me parvo. Eu sou. A sério. Basta ver, por exemplo, esta crónica.

publicado por João Bonifácio às 02:25
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9 comentários:
De linkspontoPT a 23 de Abril de 2008 às 12:27
É verdade, há muita gente a confundir educação com submissão!
De herewithme a 23 de Abril de 2008 às 15:11
Realmente ás vezes o ar submisso de algumas pessoas irrita-me, sei que a vontade delas é insultarme do piorio e lá estão elas com aquele padrão de santeiros para evitar um escandalo...
Adorei o post...
Entretanto seria um elogio receber-te no meu blog...
Bjxxx
De N. a 23 de Abril de 2008 às 17:29
os 1ºs «desculpadeiros» se pedem desculpa é porque gostariam muito de ir para a cama com o palhaço que lhe deu um encontrão ou pontapé.
os 2ºs «desculpadeiros» podem até ser pessoas interessantes mas nessa atitude só revelam insegurança, muita insegurança.
os 3ºs «desculpadeiros» são os amigos que gostam (muito) do amigo e sabem muito bem como é a urgência de chegar a casa e tomar um duche. As desculpas só servem para abafar insultos e fazer o amigo sentir-se culpado (é preciso insistir muito com alguém que acaba de sair da Bobadela)

o resto é só desculpa para «desculpadeiros»
Desculpa-me, sim?!
De Joanina a 23 de Abril de 2008 às 20:08
Parvo!!!
Desculpe... foi sem intenção ...
E desculpe não ter vindo há mais tempo ao seu blog... mas tenho tido muito que fazer... desculpe...
... E era para ter vindo ontem, mas não pude... desculpe...
.... Agora se calhar já cheguei atrasada... Desculpe...
E desculpe-me por me desculpar tanto... Desculpe...
Jo
De Umbelina a 24 de Abril de 2008 às 00:24
Eu gosto de desculpadeiros, são muito compreensivos.
De isa a 24 de Abril de 2008 às 01:04
não há paciência, de facto...
MAs maus, maus são os que fazem asneiras umas atrás das outras e pedem desculpa uma e outra vez, e mais uma e mais outra...

)Tou que nem posso pra saber que tal são os bordéis na Bobadela :-D )
De Patti a 24 de Abril de 2008 às 11:27
Muitas vezes faz parte de uma estratégia camuflada sob a forma de submissão, para nos sentirmos em dívida ou em falta com qualquer coisa.

Hummm, desculpas a mais têm quase sempre alguma coisa por trás.
De JN a 24 de Abril de 2008 às 15:22
mas que crónica tão parva
peça desculpa já
De Paula Crespo a 27 de Abril de 2008 às 20:47
São os cidadãos do país "Desculpe qualquer coisinha...", cuja língua contém vocábulos que terminam em "inha" e "inho" e quando lhes perguntam como estão, respondem: "cá vamos andando". Conhecem??...

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