Sexta-feira, 21 de Março de 2008

Crónica de Sexta

(com dedicatória ao FJV e ao DO.)

 

[Segundo me disseram, este será, primordialmente, um blog de crónicas, o que não impede que haja os posts ao calhas que bem nos aprouver. A mim coube-me a sexta-feira. Já que vou de férias, deixo adiantadas duas crónicas. São enormes. Não muito boas (talvez mesmo só razoáveis, ou, provavelmente, péssimas), mas enormes mesmo: longuíssimas e aborrecidas.

Tenham portanto paciência. Santa paciência.]

 

Crónica Primeira: Da Informação Insignificante


Tenho andado a usar os meus dedos. Tenho mesmo. Para calcular o número de caracteres dos posts do Pedro Marques Lopes, do Pedro Vieira e do Nuno Costa Santos. Depois executei exactamente a mesma operação para o meu primeiro. Posso anunciar que tive dedos para os posts deles e, mesmo recorrendo aos pés que me pertencem, não houve forma de mensurar os meus do meu.

De onde se conclui, por falângico ábaco, que eles = sucintos e eu, enquanto cito e re-cito, demoro a chegar a um ponto. (Não obrigatoriamente o ponto final. Posso, por exemplo, acabar uma crónica com um travessão atravessado.)

A razão de tanta duração não é singular – é plural: abuso do anacoluto (“construção elíptica em que uma ou mais palavras do princípio de uma oração não têm ligação sintáctica com as do fim”), da analepse (“narração de eventos ocorridos anteriormente em relação a eventos já narrados” ou “recuo no tempo”) e da prolepse (“à analepse opõe-se a prolepse”, a prolepse é o oposto da analepse). O que significa que

 

a) as minhas frases não têm sentido

 

b) os posts andam às arrecuas e aos solavancos

 

c) sou chato.

 

Sei que é assim, com chatos, “anacolutos”, “analepses” e “prolepses” porque tenho o hábito de abrir livros ao calhas e memorizar informação insignificante. O que me leva a saber que:

 

pode, em certos ratinhos, ser provocada uma retoma do crescimento do esqueleto craniofacial induzido por meio de hormonas de crescimento no rato anão hipopituitário com tensão de Snell;

 

as papoilas pertencem à família Papaveraceae;

 

o índice da Bolsa da Venezuela chama-se Índice Bursátil Caracas e consiste na capitalização de cada uma das 15 empresas de maior liquidez negociadas no mercado accionário da Bolsa de Valores de Caracas, isto em 1988.

Também sei o significado da palavra “siririca” e o rácio do crescimento anual das ratazanas no Botswana, mas poupo-vos a detalhes.

 

“Anacoluto”, “analepse” e “prolepse” descobri folheando a 8ª edição revista e actualizada do Dicionário de Língua-Portuguesa Porto-Editora que, por acasos que não são dos meus considerandos, não inclui a definição de “maxibombo”.

É certo que entre a inteligentsia (palavra cuja ortografia correcta desconheço porque nunca calhou abrir a página começada por “int”) os dicionários Porto Editora não são tomados como os mais fiáveis.

Não é que eu não possua dicionários mais refinados – apenas que:

 

1) perdi um quando fugi de uma casa de hippies em que vivia, e onde constantemente me davam um chá - vim posteriomente a saber - trazido da Colômbia pelo Pablo (não perguntem), que me relaxava em demasia, assim impedindo que eu visse a obra completa de Humphrey Bogart em vídeo (pelo que não sei assobiar);

 

2) inutilizei outro usando-o para estancar uma erupção aquática num acidente de canalização;

 

3) o Estado hipotecou-me o terceiro à conta de uma coima que nunca paguei e que me fora aplicada por não ter limpo uma mata (de 18 cms quadrados) herdada de uma tia solteira que, sentada na balaustrada da sua casa de aldeia, fazia ao pôr-do-sol rendas de bilros de padrões inconstantes (à conta do excesso de Valium para uma crise de nervos derivadas de coimas por não limpar matas).

 

O que se passou nesta crónica foi uma sequência interminável de mentiras e uma analepse.


Crónica Segunda:  Da Coima Significante


A palavra "coima" permite-me agora usar uma prolepse para chegar a este post do Francisco José Viegas, em que descobri que um qualquer tribunal aplicou uma “coima” ao Daniel Oliveira à conta de este último ter chamado “palhaço” a Alberto João Jardim, que, salvo erro, é o Imperador do Território em Constante Ameaça de Independência Chamado Madeira. Mais informa o Francisco que o acontecido com o Daniel ocorreu ao mesmo Viegas anteriormente.

 

Esta repetição da ocorrência permite-nos concluir que chamar “palhaço” a Alberto João Jardim tem como inevitável consequência ser-se coimado.

Não conheço os respectivos textos do Daniel e do Francisco, pelo que posso apenas especular que os tribunais são intransigentes quanto ao uso da palavra “palhaço”, não sei se apenas em relação ao salvo erro Imperador do Território em Constante Ameaça de Independência Chamado Madeira ou se a norma se aplica apenas aos “cubanos do continente” ou igualmente aos cidadãos do Território em Constante Ameaça de Independência Chamado Madeira.

 

O que sei é que, para os tribunais, chamar a um português “cubano do continente” não é “insulto”. O que sei é que os tribunais não procederam certamente a um aturado exercício semiótico da palavra “palhaço”, tomando-a por insulto.

 

Vejamos: um “palhaço” é alguém que através de uma linguagem específica, alegra as crianças. Julgo estarmos todos de acordo que Albert Jâi-Jâi possui uma linguagem específica. E julgo estarmos todos de acordo em como Albert Jê-Jê por vezes diverte a criança que existe em nós (cubanos do continente).

Pelo que nesse sentido a palavra “palhaço” deve ser tomada como elogio.

 

Se a isto acrescermos o facto de Daniel Oliveira chamar a Lo Anti-Cubanos "Palhaço Rico", eu, à partida, diria que D.O. pode muito bem estar a laudar a pro-actividade de  Jâi-Jâi na sua actividade palhaçal.

 

Admitamos que por tique de esquerda Oliveira estava a criticar um palhaço por ser rico quando os palhaços por norma são pobres. Isto, digo eu, não deve ser analisado enquanto matéria de opinião, muito menos um insulto.

É antes um argumento de classe - algo ingénuo, acrescentaria eu, pelo que perdoável.

 

Igualmente se nos lembrarmos que Al Jota-Jota é desde há muito um animador anual do Carnaval da Madeira. O que se faz no Carnaval? Palhaçada. De onde se pode inferir com mínima margem de erro que tanto Daniel como Francisco se referissem ao magnânimo altruísmo que El Jonas demonstra ao submeter-se às mesmas tropelias (elogio) do povo, numa muito saudável e exemplar demonstração de democracia.

 

Pode também dar-se o caso de (presumo que erradamente) Daniel e Francisco terem partido do princípio que El Jardineiro teria nascido numa pequena terra do Norte da Cuba Continental chamada Palhaça. De onde “palhaço”, náscio de "Palhaça".

("Náscio" é neologismo para "natural de".)

 

Olhando para o parêntesis anterior, nada nos impede (até porque são ambos pessoas de bem escrever) de imaginar Daniel e Francisco como uns Guimarães Rosa da Cuba Continental.

Nesse sentido “palhaço” poderia seria um neologismo para “monte de palha”. Qual é o principal uso que se dá à palha? Alimentar animais queridos pelos homens que, de outra forma, morreriam à fome.

 

Sendo O Homem um Animal (presumivelmente Racional), daqui decorreria que uma das principais qualidades de Primo Pérolo do Oceano seria a de alimentar os homens (animais racionais) da sua terra, que de outra forma morreriam à fome. O que faz sentido pois, como os próprios habitantes da Madeira reconhecem, Primo Pérolo tornou um inóspito e pobre território num lugar de unânime e diário acesso à necessária roda alimentar.

Daniel e Francisco estariam apenas a reconhecer a magnanimidade de El Jonas Del Jardim.

 

Os tribunais podem então (especulo) ter condenado o uso não estrito da língua Cubana Continental (ou o desconhecimento do sentido que a palavra tem na língua DesCubana Oceanal) ou ainda a falta de conhecimentos dos dois cronistas (ver exemplo do nativo da "Palhaça").

 

Desconhecia que a falta de cultura fosse coimável. O que posso dizer é que estes dois tribunais são uma “palhaçada”.

Digo isto no sentido de estes tribunais, com a decisão tomada, alimentarem a cultura (e os cubanos do continente precisam de cultura como os pérolos do Oceano de pão para a boca) daqueles que, como eu, desconheciam tanto as erróneas localidades de nascença de Lo Juanes como o significado estrito da palavra “palhaço” em madeirense.

 

Também posso estar a dizer tudo isto em sentido cómico, o que, pelo que sei, tornaria esta crónica inimputável por lei. Isto apenas para evitar a prolepse de uma multa, que ando raso de pilim –

publicado por João Bonifácio às 15:24
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3 comentários:
De joão marinheiro a 23 de Março de 2008 às 12:28
Concordo plenamente com o teu ponto de vista. Até parece que estamos no reino das Berlengas...
Abraço.
De João Bonifácio a 25 de Março de 2008 às 01:06
O Artur Semedo era certamente moço para chamar moço ao Imperador do Território em Constante Ameaça de Independência chamado Madeira.
De João Bonifácio a 25 de Março de 2008 às 01:07
Era "palhaço" e não "moço".

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