Quinta-feira, 17 de Abril de 2008

Duas ou três breves notas sobre a humanidade

Durante anos e anos tentei todos os métodos possíveis e imaginários para perceber as pessoas: observei-as silenciosamente, apontei as expressões que mais usavam, notei cada gesto, interpretei o que via e ouvia  à luz da psicanálise, da sociologia, do instinto. Fiz tabelas, equações, powerpoints - e não percebi nada.
Na época do hi5, desconfio, as pessoas mostram tudo. Tanto que até se torna difícil descobrir qualquer coisa importante sobre elas. Apresentam-se com "Eu sou a soraya goxto de ler passear amar viajar com o meu queriduxo" e, que dizer?, continuo sem saber quem no fundo é esta Soraya. Mesmo que nos aproximemos das pessoas e olhemos para - por exemplo - a decoração da casa delas, isso nada nos diz, excepto que, como toda a gente, frequentam o Ikea duas vezes por ano.
Mas de há uns anos para cá desenvolvi um método para entrever minúsculas partículas do ser de cada indivíduo, partículas que, quando ampliadas, se tornam reveladoras. Basicamente: espiolho a casa de banho. Tudo que é preciso saber sobre uma pessoa está na casa de banho.
Por exemplo: há quem aperte a pasta dos dentes junto à tampa e quem o faça pela parte de baixo. Os últimos serão mais desordenados, mais relaxados, e os primeiros mais controladores. Se um homem põe velas de cheiro na casa de banho o mistério acerca da sua sexualidade dissolve-se. Numa casa de rapaz solteiro achamos normal que o rolo do papel higiénico esteja pousado no tampo da retrete ou aos caídos pelo chão (ou substituído por guardanapos de papel). Mas isto, numa mulher, faz-nos desconfiar da sua capacidade para - por exemplo - ser a exemplar líder de um lar.
Quase tudo pode ser descoberto através de uma simples mirada no WC: o grau de exactidão geométrica com que as toalhas são colocadas indica se aquela é ou não uma pessoa picuinhas. E se o chão está sempre limpo sabemos que aquela é uma pessoa com rotinas (ou com dinheiro para ter uma empregada ucraniana). Alguém que tenha champô, amaciador e gel de banho da mesma marca tem mais cuidado consigo mesmo que um caramelo que compra os fluidos íntimos no supermercado Dia sem reparar na marca.
Nunca acabam, as revelações de casa de banho. Se encontrarmos cabelos de cores diferentes numa escova ou num pente podemos bem estar na presença de uma pessoa promíscua. E há o espelho: um/a narciso/a tem sempre um espelho grande. O cesto da roupa suja - quem tem um cesto de vime é um clássico, quem põe a roupa no chão pensa que é hippie, é coisa de garoto com dificuldade em crescer.
E depois há o armário dos medicamentos. A tristeza que nos parecia ver na/o nossa/o anfitriã/o é confirmada pela presença de anti-depressivos. Uma caixa de ansiolíticos diz-nos que aquela pessoa ou dorme mal ou é ansiosa. E se encontramos, numa casa de fêmea, uma caixa de preservativos no armário dos medicamentos, então podem ter a certeza: ela está disponível e quer que o saibam, caso contrário guardá-los-ia na gaveta da mesa de cabeceira. Porque toda a gente sabe que toda a gente espia o armário dos medicamentos dos outros.
Mesmo a disposição de cada elemento no armário dos medicamentos indica o tipo de pessoa que temos pela frente: se os medicamentos para a cabecinha estão escondidos no fundo do armário, então temos alguém que gosta de manter o seu íntimo em segredo. Se os medicamentos para a cabecinha estão fora do armário - então temos alguém que gosta que saibam que é tolinho. E se não há álcool ou água oxigenada estamos perante um descuidado.
Andei anos a tentar perceber as pessoas: perguntei-lhes o que liam, o que gostavam de comer, qual era o sítio que mais gostavam de conhecer. Tudo em vão. Até que comecei a olhar com atenção as casas de banho.
Acreditem no que vos digo: tudo o que é preciso saber acerca de quem quer que seja está no wc. O wc tem sido pouco valorizado.
publicado por João Bonifácio às 22:42
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6 comentários:
De Mestre Chou Riçá a 17 de Abril de 2008 às 23:30
Genial! É isto mesmo. A casa de banho revela o que de mais íntimo a pessoa tem. É o "espelho da alma". Ou de outra coisa qualquer para os mais cépticos...o ideal seria formar uma espécie de hi5, mas de casas de banho. isso sim, era conhecer alguém!
De isa a 18 de Abril de 2008 às 00:05
Muito bom! :-D
mas e quem não tem mesa de cabeceira, ou quem tem uma demasiado exposta, sem gavetas, quero dizer...
De susu a 18 de Abril de 2008 às 12:09
Isso é mesmo uma boa teoria que vou já experimentar. (sempre achei muito atractivo vasculhar as casas de banhas) E Vou começar a por fotografias da minha na internet! Por pura curiosidade. :)
De AindaPiorBlog a 2 de Maio de 2008 às 20:13
Essa tua técnica para conheceres as pessoas mais profundamente, parece-me que é um pouco fraquinha...passo a explicar:

Em primeiro lugar se quizeres aproximar-te da casa e de seguida do wc de alguém primeiro tens que a conhecer melhor...a não ser que te infiltres tipo ninja no wc da pessoa em causa uns dias antes do primeiro jantar romântico! Em segundo lugar existem pessoas que não têm WC...como fazes nestes casos? Em terceiro lugar as pessoas falseiam as provas, como eu por exemplo, meto livros na casa de banho mas apenas leio os rótulos das embalagens; não limpo o chão muitas vezes porque conheço muitos pentêlhos e não os quero deixar sem abrigo; Os meus remêdios para a cabeça só ficam mais próximos da porta na farmácia porque se não chegar a tempo, fico um pouco abalado e depois não os tomo (como hoje, por exemplo, o resultado dessa falta de fármacos provocou este comentário)! Por último, para conheceres as pessoas através de provas existentes no WC terias que ser tipo Horatio de CSI Miami em que te colocas de lado com os óculos escuros postos a olhar sem dizer nada e quando dizes tens que sair de cena a toda a velocidade e não daria tempo para ver todos os podres no WC!
De JB a 3 de Maio de 2008 às 01:59
Infiltrar "tipo ninja no wc da pessoa em causa uns dias antes do primeiro jantar romântico" é uma grande ideia?
(Pessoas que não têm wc? Mas moram debaixo da ponte?)
De wc a 26 de Maio de 2008 às 10:33
[quote
(Pessoas que não têm wc? Mas moram debaixo da ponte?)
]

parece que não vives em Portugal! acredita que há MUITA gente que não tem wc no século XXI!

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