Sexta-feira, 24 de Agosto de 2012

Se não há amor como o primeiro, o que dizer da prática conduzir à perfeição?

Frases feitas quem as não usa? São uma tentação feroz que, facilmente, nos alicia e a que, irreflectidamente, nos rendemos. 

 

Uma frase feita não inova. Inferioriza, repisa e não serve para reforma. Com ela o mundo não pula nem avança. Estagna. É um desperdício de tempo. Embora, também, sirva para o ganhar. Não dá em nada. Ou adianta muito pouco. Dar-lhe atenção é favorecê-la. Um desmazelo.

 

Em relação  a frases feitas há as que são verdade, mas, também, há as outras, as mais perigosas, as que são só meia. Exigem um cuidado redobrado, para o qual não existe sinalética.

 

Por regra, a frase feita fixa-se e transmite-se por processos parasitários de acomodação. São uma retórica repetitiva. Para gente pouco corajosa e ávida de comodismo. 

 

A frase feita tem fôlegos de felino e expediente de profissional da propaganda médica. Permanece. Já deu provas e depois ficou a viver de rendimentos. É uma velha glória. Uma estrela jarreta a polir os óscares ganhos e a viver por conta do antigamente.

 

Podíamos falar indefinidamente sobre elas. Frases feitas há muitas! De todas as épocas e proveniências. Para todas as necessidades e de todos os géneros. 

São inocentes, ou não? Bem, isso depende da perspectiva.

São um engodo. Acha-se. Isso é certo. Suspeita-se. É fácil cair nelas. Aliás,    os gostos não se discutem e  há gente para tudo. Perdão! Que exagero. Dúvidas houvessem… Já risquei! Não voltarei a usar mais nenhuma frase feita, embora esteja consciente de que quando menos esperamos... Digamos que a excepção confirma a regra. Pronto, pronto, adiante... evitemos as picardias.

 

A seu favor? As frases feitas sustentam expectativas. Alimentam a falta de imaginação e não exigem investimento.

 

Contra si? O que têm para dizer é insuficiente. Não acrescentam. É chover no molhado. Na melhor das hipóteses confirmam. E servem, habitualmente, propósitos básicos de quem, ainda, tem menos para dizer. Ficam-se por insinuações. Dispõem e disponibilizam informação limitada. Comunicam pouco sobre as coisas. Mas, muito sobre nós. Pelo menos mais. Ilustram um perfil. Nesse pouco que dizem quando não dizem, exclusivamente, de nós afiançam:

 

Não há amor como o primeiro

 

Será? Não escondo a minha desconfiança.

Abrisse eu uma excepção para uma frase feita e diria que:

 

O primeiro milho é dos pardais

 

Então, não há amor como o primeiro? Fosse isso rigoroso e estávamos todos casados com o anjinho de asa anafada que se sentava, confidente, na berma da secretária da professora que parecia ter o exclusivo da eau de toilette bien être de 500ml. Aquela a quem se surripiava os totais das divisões na escola primária e se lançava ais enamorados. A que nos conquistou, inocente, as fronteiras sentimentais em estruturação e passou a salto pela veia cava e aurículos acima, esburacando ventrículos e depois todo o nosso coração, até este não passar de um queijo suíço impróprio para consumo. Lívidos. Logo desde o primeiro dia de aulas, amarfanhando-nos, zombeteira, a sintaxe amorosa irremediavelmente.

 

Quem quer correr o risco de ficar com a joia resplandecente que aos seis anos dava todas as garantias potenciais de se transformar numa Audrey Hepburn e que acabou uma matrafona da pior espécie de marroquinaria? Uma crisálida arrepiando caminho de borboleta, directamente, para traça.

 

O primeiro amor é um risco. Uma página para virar rapidamente. Anos mais tarde em encontro fortuito respira-se de alívio por se ter passado ao próximo. Confirma-se que se acredita numa coisa e depois sai outra. Vá lá acertar! Pior do que não saber ao que se vai é não adivinhar como é que fica. 

 

Felizmente não levámos a sério a frase feita e fomos tacteando inseguros as cercanias, incitando-nos com um "Next!" mental.

 

Não há amor como o primeiro?

Não me parece. Sobre o primeiro amor alardeamos uma apoteose falsa.

Para o primeiro amor ninguém está preparado. Ao segundo, em plena convalescença, já se sabia ao que se ía. O terceiro já conta com a experiência do par anterior. Mas, o primeiro... serve de preparação ou ensaio. É a volta de aquecimento.

Com o primeiro amor engasgamo-nos em pasmo. É um gole traiçoeiro.

Com ele o impacto é imprevisível e de tal ordem que não se tira tudo a limpo. Esse é, aliás, o maior problema. Como afirmar que não há amor como o primeiro quando houve pormenores que nos escaparam, situações de que nem nos apercebemos, embaraços que podiam ter sido evitados, compromissos que eram escusados. Cilindrados pelo encantamento e ultrapassados pelas circunstâncias.

 

Só concebo alguém dizer que não há amor como o primeiro se especular que a partir desse momento foi a desgraça, a miséria, uma desigual e infrutífera continuidade, incomparável com o arrebatamento inicial. Quanto aos restantes mortais, penso que só podia progredir.

 

Não há amor como o primeiro?

Não me fio numa frase feita. Não serve para nada. Não é um bom avaliador e, muito menos, assegura largada tranquila. É um passo atrás.

Em relação às questões do amor, em especial. Uma frase feita carece de prática. 

No que me diz respeito, acho que me fico pelo último. É a opção mais acertada.

Lamento a frase feita mas, reconsiderando momentaneamente, quem ri por último ri melhor.

Além do mais, XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX. Desculpem! Acho que já perceberam a ideia geral. Poupo-vos a mais uma frase feita.    

publicado por Máquina-da-Preguiça às 08:11
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Quinta-feira, 23 de Agosto de 2012

Um caminho para chegar a casa

Cheguei a Istanbul sem saber muito bem porquê. Fui. Enquanto seguia para o centro da cidade, o movimento nas ruas pareceu-me assustador e selvagem. Perto de Taksim, um homem atravessa a rua na diagonal, seguido de mais três ou quatro pessoas que ignoram em absoluto a circulação dos carros. Criam a sua própria dinâmica e seja o que Alá quiser. Estamos em pleno ramadão, o que poderá correr mal?

 

O calor e a humidade estufavam o meu corpo quando o táxi me deixou em Beşiktaş. Nessa noite, acabaria por jantar em Eminonu e foi então, no meio desse centro conservador, entre mesquitas e bazares, entre vendedores de rua e turistas, que comecei a ganhar consciência da cidade onde estava.

 

Istanbul nasceu para servir de colónia a Byzas, devido ao sobrepovoamento. Ao longo da sua história, viveu uma terrível dificuldade em tornar-se independente. Foi palco de disputas que, mais do que desenvolver, destruíram a cidade. Pelo menos até Constantino, que nela encontrou o entreposto comercial estratégico ideal para fazer crescer o império. O imperador foi, talvez, o primeiro a perceber a sua relevância geográfica. Também Justiniano se apaixonou por Istanbul, concedendo-lhe autonomia, sofisticação, estrutura e regras.

 

Porém, talvez tenha sido o sultanato a marcar aquilo que hoje são os turcos. Apesar de alguns reformistas terem dado um passo significativo na moldagem das idiossincrasias, tais como Abdul Hamit ou Mahmut II, o conservadorismo dos Sultões, a sua imponência e totalitarismo, deram à Turquia e a Istanbul uma cultura de mitomania e - sejamos honestos, mas simpáticos - de alguma aldrabice. 

 

Não haverá muita diferença entre os embaixadores de então e os empresários que chegam hoje a Istanbul para beneficiar de excelentes factores comerciais. Tanto uns como outros tinham de condescender com a magnitude do poder, mostrar alguma subserviência e depender, depender muito. Nas ruas, a lógica é a mesma, desde os serviços mais simples, como a inspecção rodoviária. Foi precisamente aqui, neste serviço, que me apercebi da importância do pequeno poder, da posição dominante serôdia e saloia e, também, da pequena corrupção patente. O que é que eu fui lá fazer? Ora, nem eu sei, muito bem. Fui. 

 

Mas, nem o fosso entre os mais pobres e os mais ricos, que em Istanbul é tão grande como as margens que o Bósforo separa, impede que estes fenómenos e trejeitos sociais se prolonguem para os mais abastados. Há construções absurdas, cedências de passagem, prestação de vassalagem, prioridades invertidas. Que a beleza aparente da cidade turística não te cegue. Que a limpeza das ruas não te engane. Que a segurança que sentes na rua não te deslumbre.

 

Conheci um homem chamado Ozan. Este homem contou-me, com naturalidade, que os turcos não querem ser europeus mas, antes, americanos; que não querem a organização norte-europeia da União dos 27, os seus métodos, a sua burocracia. Os turcos, segundo Ozan, querem continuar a desenrascar-se neste sistema selvagem de esquemas e manobras de diversão. Querem, no fundo, a conservação total da sua identidade. Falou-me disto com a mesma paixão com que os turcos espalham as bandeiras herdadas de Ataturk por toda a parte.

 

Foi então que encarei Taksim e Gayreteppe e vi uma cidade a crescer ao seu ritmo, esquizofrénico, é certo. Vi rapazes e raparigas, confiantes e sofisticados. Libertei-me, enfim, do etnocentrismo que tantas vezes esmagou os povos e os condicionou. Passeei pela cidade como passeio em Lisboa que, no fundo, não é assim tão diferente. 

 

Quando dei o primeiro mergulho, em Porto Côvo, lembrei-me de Ozan e do seu sonho em banhar-se no Oceano Atlântico. Senti-me, como diz Vila-Matas, no centro do mundo. Estava, agora, de regresso a casa.

publicado por jorge c. às 00:49
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Sábado, 11 de Agosto de 2012

Não há férias das palavras

À Sofia, cúmplice até na urgência das palavras.

 

É o crepúsculo dos dias de férias e do intervalo que me impus às palavras que quero e gosto de escrever. Mas foi uma ausência falsa, é sempre para quem tem esta inquietação das frases, dos fonemas, dos signos que, como bichos benignos, tomam contam de nós. Às vezes de forma mansa e paciente; outras, como uma tempestade sem aviso, que nos dói e queremos mitigar com o que está mais à mão, porque estamos terrivelmente tristes ou à beira do abismo de uma felicidade. Assim estas férias: mesmo sabendo a imensa sabedoria e superioridade do silêncio, mesmo aproveitando a lua e as estrelas limpas que se me oferecem, mesmo adormecendo sob o chilrear dos meus filhos ao longe – mesmo assim, a urgência pelo consolo ou pelo permanente desafio de superar esta magnífica impossibilidade que é dizer, escrever o que se sente. E tanto, e tudo por dizer, durante todo o dia, dos primeiros raios de sol até à hora em que converso a sós com Deus no meu quarto, utilizando essas «palavras arranhadas pelo uso», para seguir o conselho e a frase lindíssima do padre Tolentino Mendonça.

 

Rilke, nas famosas e muito citadas Cartas A Um Jovem Poeta, assegura que sentir esta necessidade diária é o que garante a natureza daquele que quer realmente escrever. Não sei: dias há que na alma se me tem posto uma muito pouco literária preguiça. Mas o regresso é de facto inevitável, mesmo que no final do dia nada tenha sido escrito. Como agora, em que a banda sonora que o vento me traz é uma versão manhosa de “Can’t Take My Eyes Off Of You”, cortesia de uma banda que abrilhanta as festas da aldeia vizinha (serão os Nautilus? Os Lords?). Gostaria de dizer que escrevo ao som do Conversations With Myself, do Bill Evans, como tantas vezes o fiz. Dá patina de escritor, fomenta a minha persona que escreve. Mas não. Hoje é o que há, o que sou. E por isso mesmo abandono-me às palavras alheias, não por desleixo ou artifício. Apenas porque há tanto escrito que está cheio de mim, de nós, tantos auto-retratos feitos por outras mãos. E com vossa licença, o que vos quero dizer e não consigo foi escrito por Nuno Júdice e está incluído no essencial Fórmulas Para Uma Luz Inexplicável. Abandono-me, pois.

 

ÀS VEZES

 

Às vezes sentimos que o tempo chegou ao fim, que

as portas se estão a fechar por trás de nós, que já nenhum ruído

de passos nos segue; e temos medo de nos voltar, de dar

de frente com essa sombra que não sabíamos que nos

perseguia, como se ela não andasse sempre atrás de nós,

e não fosse a nossa mais fiel companheira. Às vezes,

em tudo o que nos rodeia,encontramos essa impressão de

que não sabemos onde estamos, como se o caminho para

aqui não tivesse sido o mesmo, desde sempre, e tudo

devesse ser-nos , pelo menos, familiar. A solução é pegar

no fim e metê-lo à boca, como se fosse uma pastilha

elástica, derreter o sabor que o envolve, por amargo

que seja, e no fim pegar nesse resto que ficou e, tal

como se faz à pastilha elástica, deitá-lo fora. Para

que queremos nós o nosso próprio fim? Já bastou

tê-lo saboreado, derretido na boca, sentido o seu

amargo sabor. Então, libertos do nosso fim, veremos

que as portas se voltarão a abrir, que a gente continua

a andar à nossa volta, que a sombra já não nos mete medo,

e que se nos voltarmos teremos pela frente o rosto

desejado, o amor, a vida de que o fim nos queria ter privado.

 

É isto. Adormecerei, sorriso palerma em riste.

publicado por Nuno Miguel Guedes às 23:58
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Terça-feira, 7 de Agosto de 2012

Receita para reinventar a roda

Uma ideia nova é um knockout incontestável ou se não florescer é, irrepreensivelmente, pelo menos, um valente soco no estômago. É um avanço. Mas, exige labuta, não é generalizável a todos os palatos. Esconde-se. Atormenta. Não resulta à primeira. Faz pouco da gente. Esquiva-se e consome-nos até acertarmos. Problema recente? Não. É assim desde o começo do mundo, onde se manifestar política e artisticamente o engenho humano.

 

Mas há o caminho fácil. Qual? Bem, tem onde escrever? Aponte! Fazemos melhor do que limitarmo-nos a responder, deixamos a receita.

 

Embora tudo possa ser personalizado, de início pega-se em toda a falta de imaginação que se conseguir reunir. Exagere. Utilize porções generosas. Nada de pruridos e falsas modéstias. Persiga uma tradição de gente sem ideias. Pense, sem escrúpulos, no já pensado, tentando colmatar o colmatado e/ou completar uma tarefa já preenchida. Angarie referências!

 

Apanhou? Tenha consciência de que o ponto anterior remete para consistências várias, mas apresenta preferencialmente viscosidade ministerial e opacidade de secretaria ou fundação. Em certos círculos toma, também, a designação de pelouro [Maioritariamente, onde atinge dimensões mínimas]. Seja audaz! Saiba identificar o que mais o favorece e agarre-se a isso.

 

Continuamos? Note que se exigem mãos hábeis e esforçadas para metamorfosear um Déjà vu num projecto ambicioso. Esteja atento! A história está repleta de redundâncias, siga os bons exemplos. Confira [Para sua consideração alvitra-se o tópico serviço público.].

 

Não se deslumbre, primeiro marine. As precipitações pagam-se caro e às vezes são irreversíveis. Pode parecer irrelevante, mas casos há em que antes do arranque tudo fica a marinar durante longos períodos. Em caso de indecisão, confira sempre.

 

Certo? Não se precipite. É sabido que o homem sonha e a obra nasce, mas antes é necessário pôr as mãos na massa. Não comece sem a ter onde deve permanecer até à conclusão do empreendimento: do seu lado.

 

Ora, é certo que os recursos variam, mas não fique pelo q.b.. [Consulte, para inspiração, a documentação sobre os estádios de futebol para o Euro 2004] Ouse. Vá onde ninguém ainda foi. Experimente. Pise território virgem. Esbanje se assim o entender. Não se preocupe com orçamentos. Afinal, trata-se do trabalho de uma vida. Consumir desnecessariamente meios pode no futuro demonstrar-se ter sido a opção preferível (para si). E, acima de tudo, vá provando.

 

Mais uma coisa… Fique pelo evidente. Pelo que deu provas. Essa é uma regra de ouro. Evite polémicas! A motivação adequada é a de construir sobre o já construído embora no final, segundo os especialistas, se sobreponha ao vazio inerente uma sensação gostosa de missão cumprida.

Até ao final é imprescindível imprimir uma dinâmica masturbatória constante e enérgica a fim de as coisas não azedarem. Caminhos sinuosos não são recomendáveis nesta altura.

 

Até aqui tudo bem? Atente que a confecção deve ser feita, lentamente, para não chamuscar. Dar para o torto é o pior que pode acontecer. [Nesta fase sugere-se descrição. Ela nunca é demais. Os olhos devem estar postos noutro lugar e não sobre si. Um bode expiatório pode resultar muito bem.]

Um reparo do chef: em caso do caldo dar mostras de estar para entornar ou, simplesmente, engrossar aconselha-se o uso excessivo da palavra “estrangeiro” seguida da expressão “já foi feito no estrangeiro” e /ou alemães. [A título de gosto pessoal sugerem-se amiúde referências à diáspora económica, educativa e cultural nórdica. Os anglo-saxónicos também acompanham muito bem. E lembre-se nunca abuse dos chineses!].

 

O grand finale aproxima-se! Registe até os pormenores mais insignificantes, serão, extremamente, úteis.

 

Se durante o decurso da preparação se entrever que as coisas não vão resultar, deixe convalescer e aplique convictamente um soporífero banho-maria.

 

Reinventar a roda é a consequência final se respeitarmos tempos, indicações e não cairmos no engulho de desbaratar fases. Se o conseguiu dê-se por satisfeito. A partir daqui as coisas só podem melhorar para si.

    

Para a opinião pública tudo pode ser sinónimo de perda de tempo, mas não para si. Não se queime! Nada de passos em falso que colocam tudo a perder! Reitere a convicção de que deu o melhor e que a sua divisa é bem servir.

 

Seja forte! Será acusado de tudo. De uma espécie de plágio, com um estranho gosto a novidade requentada, com actualizações mínimas, desnecessárias ou contraproducentes. De um upgrade falhado, caríssimo. De voltar a obra já feita, que não acrescenta, não resolve. De um caminhar sobre pegada prévia. Dirão que é cortar a meta depois do vencedor e achar que podem existir dois primeiros lugares. Que foi jogar pelo seguro. Repisar. Repita, peremptório, para si: “bárbaros”. E avance corajoso, enquanto volta a provar para confirmar a excelência.

“A roda por si só basta!”, acusarão metafóricos.  

Não comente ou diga, modestamente, que tem consciência que difícil foi inventá-la.

E, no final do processo, saciado, deixe-os K.O..

Não há dúvida de que ficaram bem servidos!

 

Conseguiu?

Pelo menos, tomou nota de tudo?

Desfrute, afinal, foi você que pagou.

publicado por Máquina-da-Preguiça às 13:27
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Sexta-feira, 3 de Agosto de 2012

Um bom dia para uma casamento


A viagem

Eram pequenas coisas que se tornavam enormes: ele a conduzir e o pai ao lado, ele a ajudar o pai a entrar no carro por causa de uma dor nas costas, ele com o total controlo da rota, o silêncio entre os dois, não uma ausência de palavras, o silêncio. Pela primeira vez o silêncio. Crescer era isso – não apenas pagar contas, ser apanhado a conduzir com os reflexos inundados em gin ou nadar para fora de pé sem braçadeiras. Crescer, ser adulto, era aquilo: ir ao funeral da mãe do seu pai, a sua avó, tratar da papelada, ser mais pragmático diante do corpo que um médico em cenário de guerra. Havia muita coisa para fazer. Ser adulto era falar com o agente funerário e com a senhora das flores. Ser adulto era ouvir, na voz do pai, a sua voz de menino, frases rotas pelos soluços, as lágrimas escorrendo na garganta. Ele era adulto, o pai era velho. Ele já não era o menino do seu pai. 
O pai tinha-lhe dito, ao telefone, “A minha mãe morreu, a avó morreu”, e naquelas palavras revisitou o seu próprio choro quando entregava um teste com negativa ou se tinha perdido numa praça de Badajoz ou quando o irmão lhe batia – ou quando o irmão não lhe batia e ele fingia-se saco da pancada, íman das atenções da casa, o filho mais novo.
Pararam várias vezes no caminho. O pai tinha a próstata danificada, demorava-se em frente aos urinóis das estações de serviço enquanto ele lia os jornais, as revistas, as legendas das páginas duplas com mulheres lambidas pelo Photoshop. Comprava chocolates mas ambicionava cigarros. Não fumava diante do pai. Nunca fumaria diante do pai depois de ter sido apanhado, no sétimo ano, com um maço escondido na gaveta das meias, denunciado pela empregada que também lhe apanhara material pornográfico. Os cigarros eram pior. Nunca se falaria de masturbação naquela casa, mas o tabaco era meio caminho andado para as ganzas, a heroína, a desgraça de uma família com as pratas roubadas. Não fumava diante do pai, não falavam de política, não trocavam ideias sobre temas que acabassem em semanas sem um telefonema. 
Encostado ao carro, viu o pai, que saía da casa de banho, a braguilha aberta, os olhos procurando um lugar seguro, tal e qual a criança perdida em Badajoz. O pai, naquela estação de serviço, avançando medrosamente para um funeral, era o mesmo homem que, depois de confiscado o tabaco, lhe tinha atirado o maço à cabeça. O pai era forte e ambicioso e arrependia-se sempre que largava um estalo. O pai precisava agora de comprimidos para dormir e tinha os olhos tão vermelhos como uma tarde subaquática na piscina. 
Entraram no carro, ele não acendeu a rádio. Não era estranho o silêncio.

Serás terra

Era um dia lindo para um casamento. O céu não tinha um farrapo de nuvens e havia pássaros. Iam a pé até ao cemitério, o pai sem dizer nada, caminhando atrás da carrinha funerária, atrás da sua mãe, encolhida por tantos anos de vida, dentro de um caixão. No final, quando a demência tudo confundia na linha cronológica das sinapses da avó, ela só reconhecia o seu filho. Não o filho com filhos, dores na próstata e três casamentos. O filho dela, pequeno, o filho carente de coisas doces, o miúdo incapaz de perceber que a mãe seria enterrada num dia lindo para se fazer um casamento. 
O pai não falou no caminho para o cemitério, mas ele ouvia a sua voz como se equipado com auscultadores de museu. Na visita guiada, o pai repetia o que lhe contara há muitos anos, quando por ali passaram num verão: 
“Esta foi a casa onde nasci.” 
“O teu avô pôs um baloiço naquele sobreiro.”
Ele analisou as mulheres no cortejo. Só uma prima em segundo grau o cativou. Depois olhou para os pés dela e ficou manso. Sentiu-se aliviado. Não queria filmes nem filhos vítimas da consanguinidade. Olhou outra vez para os pés dela. Queria ter a certeza que não era aquilo que precisava. Ouviu a voz do pai nos auscultadores da infância:
“Devia vir cá mais vezes.”
“Tens a genica do teu avô.” 
Cruzaram os corredores de sepulturas. Como fazia sempre que estava num cemitério, pôs-se a contabilizar a longevidade das vidas dos mortos: Justino Gomes (1956-98), Bernardina Ramalho (1910-78), Domingos Lourenço (1976-77). Ele sabia que todos os humanos faziam esse jogo nos cemitérios, esse exercício de perspectiva, como quando estamos debaixo de um céu estrelado ou nas ruínas de uma civilização muito antiga. 
Há anos que o pai comprara, naquele cemitério, um pedaço de descanso eterno com jardim privado e cheiro a ciprestes. Estava lá o avô, estava lá o buraco que seria a campa de mármore da avó. Fez contas de cabeça para saber a idade do avô. Nos auscultadores ouviu:
“O teu avô fumava e bebia muito.”
“Eu nunca quis fazer mal a ninguém.”
“A minha mãe morreu.”
Porque tinha estado em vários funerais, ele sabia do apogeu dramático do caixão a descer ao fundo da cova. Segurou o pai pelos ombros, beijou-lhe a cara, não disse nada. Não fosse o choro do pai, que era também o seu choro de menino, tudo seria outra vez silêncio. Ele não chorou. Ele era o pai e o pai era o filho. 

Regresso
Nessa noite dormiram num hotel na cidade mais próxima. A prima em segundo grau também. No bar, porque sabia dos poderes libertadores das bebidas espirituosas, ele pediu apenas um copo de vinho, enquanto ela sorvia Baileys com gelo em cálice largo e falava de uma série de televisão com médicos e do preço do aparelho para os dentes da filha. Ser adulto era ver ficção americana no pequeno ecrã e endireitar aquilo que nasceu torto por causa dos nossos genes. Ser adulto era ir para o quarto sozinho. 
Ela disse: “Devíamos ver-nos mais vezes, nem sequer tenho o teu número.” Por via das dúvidas, ele olhou para os pés dela. Disse: “Vou dormir, o meu pai não anda bem.”
Escovou os dentes, apagou a luz e atreveu-se na escuridão, as pupilas aumentando, procurando os objectos, o seu pai deitado numa das camas. Dobrou-se sobre aquele corpo. Tentou ouvir a respiração. Não lhe tocou. Lembrou-se como, juntamente com o irmão mais velho, fingia que a cama era uma nave espacial. Entre os lençóis, disse baixinho: “Vamos levantar voo.” Não demorou muito a adormecer.
Na manhã seguinte, dentro do carro, outra vez o silêncio. Entregou o pai na casa onde crescera. Ali seria sempre mais filho do que pai, mesmo quando tivesse crianças e elas saltassem para a piscina e houvesse festas de aniversário e Natais que seriam outros Natais. 
O pai disse: “Não queres entrar?”
E ele voltou a ser o filho.

publicado por Hugo Gonçalves às 14:39
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Descer escadas

Há duas boas razões para pensarmos que as escadas deste mundo são mais vezes descidas que subidas: o elevador e a preguiça. Porém,  como metáforas as escadas são invariavelmente descritas tendo em mente o sentido ascendente. Bem sei que também existem as ascensões meteóricas além da subida lenta dos degraus da vida, mas quando se falha é sempre do cimo de um precipício que se cai na direcção do abismo. Isto sucede porque privilegiamos as descrições emotivas da realidade. Em rigor, são inúmeros os casos de declínio gradual, que seriam bem descritos como um descer de escadas.

 

A insistência na queda livre não resulta apenas da tendência natural para a hipérbole em quem conta uma história. Importa ainda a economia narrativa, o to make a long story short, porque é penoso acompanhar a crónica detalhada de um declínio na ausência de uma promessa de reviravolta. É este zelo misericordioso com que atiramos tanta gente do cimo do precipício que nos impede de apreciar os ensinamentos do simples acto de descer escadas.

 

Certa vez, desequilibrei-me nos últimos degraus de uma escada que descia. Começara a descida sem problemas, mas depois veio uma aguda consciencialização do acto que realizava e, de repente, o que instantes antes podia fazer de forma tão intuitiva tornou-se uma tarefa impossível. Não cheguei a cair, só que o problema agravou-se. Por saber que não podia pensar na complexidade mecânica de descer as escadas enquanto o fazia, sob risco de a meio do lance de escadas me sentir obrigado a executar pela primeira vez um qualquer passo avançado de tango, o pensamento era ainda mais irreprimível e os últimos degraus surgiam animados, praticamente intransponíveis. Este estado mental só durou uns dias. Seria agora insultuoso enunciar o ensinamento que esta experiência encerra; se a recordei, foi para defender a importância do simbolismo de descer escadas, algo que os mais jovens estranharão, pelo menos até à epifania somática em que os seus joelhos começarão a ressentir-se mais nas descidas do que nas subidas.

publicado por Vasco M. Barreto às 08:26
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Quarta-feira, 1 de Agosto de 2012

Parece mal, mas sabe bem

"Parece mal um homem não saber lavar uma camisa, quase tanto como uma mulher não saber pregar um botão", ouve-se dizer.

"Parecer mal" é um comboio prestes a descarrilar, uma preocupação de quem não quer cair nas bocas do mundo. Quantas vezes o "parecer mal" arvorou uma qualquer donzela de saia galgando as rótulas à condição de rameira? Ou converteu um brinco desprevenido, em lóbulo indevido, em toxicodependente? Reconheceu alcoólico ante a azeitona avizinhando-se do Martini? E efeminizou uma cor mais garrida?

Em seu nome, fustigado, preso num arrastão violento telepático e sem ética de "já viram isto?!" já se desistiu de usar... de frequentar... de ter prazer em... de ser visto a... proibiu-se, perseguiu-se, evitou-se como se de peste se tratasse e houve quem acabasse manietado ou olhado de esguelha.

 

O "parecer mal" é impositivo. Insinua-se. Impinge, constantemente, a sua presença. Uma sensação permanente de que não devíamos. De estarmos, constantemente, a ser espreitados. Um olho gordo colado ao que fazemos, publicitando a apologia do "Mais vale não..." e acabando num terrível e arrependido "Soubesse eu o que sei hoje e...".

Leva-nos a melhor sempre que abdicamos ou  a nossa vontade claudica. É um passo atrás.

Deixa-se de experimentar, de provar, de arriscar, de ousar. 

Cobra mundos e fundos. Por "parecer mal" muito beijo ficou por dar, muito amor por consumar e muitas decisões foram diferentes do apetecido.

 

Em contrapartida, faz-se pela certa e joga-se pelo seguro, com a convicção de que evitamos cair em apuros (irreais?!). Vive-se na suposição da existência de um Cogito desconstruído, rarefeito na boa-vontade e maldizente: Pensam, logo mal (de mim).

 

É sempre menos. O “parecer mal” imobiliza-nos. É uma bunda pesada que nos atrasa a chegada. Não fosse o parecer mal e a distância percorrida por nós seria a de várias voltas ao mundo.

 

"Parecer mal" é uma hipocondria dos bons costumes. Uma doença arrebatadora, mas que começa de mansinho e se torna uma obsessão.

É, pelo menos, uma preocupação.

Aponta o que não é próprio (?!).

Desgosta.

É andarmos de saltos agulha para ficarmos ainda mais em bicos de pés, disfarçando a voz como quem pede um resgate sempre que queremos dizer o que pensamos e o "parecer mal" nos veta a iniciativa.

 

O "parecer mal" é um ir a medo, sempre preparado para o pior. Enfrenta-nos. Enfastia-nos. Mas não conseguimos resistir-lhe ou dizer-lhe que não. É contra-producente. Faz-nos perder o lugar na fila. Abdicar.

Ganha-se pouco. Pelo menos um tiro certeiro no porta-aviões, ricocheteando em mais metade da nossa frota, estrategicamente estacionada na nossa batalha por aquilo que queremos.

 

Certamente que nalgumas situações já hesitou. Olhou à sua volta, ponderou, fez contas, pensou mais uma vez, achou que talvez fosse melhor reconsiderar e não fez, porque podia parecer mal.

 

Ter medo que pareça mal é ficar-se pela opinião dos outros. É ceder. Limita opções. Consome-nos. Atormenta-nos.

 

A verdade é que tomamos como garantido que "parece mal" repetir, ao jantar, quando somos convidados em casa de alguém. Ou comentar que a carne está demasiado seca e que não havia necessidade daquela dose extra de caril.

Certas cores e opções, também, são de excluir.

"Parece mal" não vestir de preto por morte de familiar próximo.

"Parece mal" olhar para o chão como se procurássemos alguma coisa.

"Parece mal" usar calças de bombazina e dizer que não se aprecia Mozart.

Etc., etc.

 

 Aqueles a quem parece mal nem sempre são conhecidos. Não dão a cara. Escondem-se. Ou então, dão-se ares. E também não se sabe quantos são, de que vivem e como o fazem.

 

Felizmente, com o tempo passou a haver menos coisas a “parecer mal”, mas algumas nunca mudam. Logo que “parecer mal” é mais do feminino do que masculino, por exemplo.

 

“Parecer mal” é uma carga de trabalhos. Óptima a fazer infernos. A atitude certa deveria ser a de: " Peraí, até pode parecer mal, mas e então?", compensada com um arrogante "E depois? Não devo nada a ninguém! Quantos são?".

 

Relativamente ao parecer mal todos somos inocentes até prova em contrário. E quem quiser que se dê ao trabalho de demonstrar o inverso.

Porque em relação ao "parecer mal", vale mais concentrarmo-nos no bem que sabe.

publicado por Máquina-da-Preguiça às 10:11
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