Quarta-feira, 30 de Maio de 2012

Manifesto pró-grama e anti-relvas

 

O relvas é bicho antigo, escorpião de Alcácer Quibir, e não há herbicida que nos valha.

 

O relvas é neto do dantas, carrega o gene falhado das gerações bandidas.

 

O relvas não marca passo, anda para trás.

 

Não se mate o relvas, não sujemos as mãos, que para meliantes já nos basta o séquito do relvas e ainda apanhamos uma doença ruim.

 

Mas dispare-se uma pistola de fulminantes, pólvora sem furo de bala, porque o relvas apodrecerá por dentro, sozinho, num lar de idosos de um banqueiro amigo do relvas.

 

Bang Bang, assuste-se o relvas.

 

Uma geração que grama com o relvas é uma geração ajaezada para o velório da decência, cavalgada pela mesquinhez, vergastada pela mediocridade.

 

O relvas é o Mister Burns depois da explosão da central nuclear de Springfield.

 

O relvas é a centopeia dentro das galochas da criança que vai para a escola.

 

O relvas é o carro alemão de grande cilindrada, as parcerias público/privadas e as derrapagens orçamentais.

 

Bang bang, pregue-se um cagaço ao relvas.

 

O relvas não tem obra feita e mesmo que tivesse não deixaria de ser um relvas.

 

Por onde o relvas passa, agonizam ervas daninhas e colapsam eucaliptos.

 

O relvas contradiz o aforismo que garante que o poder é afrodisíaco.

 

O relvas faz-nos emigrar, faz-nos desesperar, faz-nos desistir.

 

O relvas é mau para a tosse, dá mau nome à vizinhança, estraga qualquer festa.

 

Bang Bang, alguém grite, quando o relvas for almoçar ao Eleven.

 

O relvas deixa comichões no corpo.

 

O relvas distrai-nos do pôr-do-sol, dos filhos, dos amigos, é tóxico porque acumula nas raízes tudo o que está mal, é uma metáfora parola para décadas de descaso, manipulação e síndrome de porteiro de discoteca.

 

O relvas é igual a tantos outros relvas. Nem nisso é original.

 

O relvas dá mau nome à relva, estraga-nos as fantasias campestres como se fosse um empreendimento construído em zona protegida.

 

O relvas nem se pode fumar porque não dá onda, só dores de cabeça.

 

Se não joga golf, o relvas devia jogar, porque lhe assentará tão bem como uma condecoração daqui a dez anos, atribuída por um presidente amigo e compincha do partido do relvas.

 

O relvas é um Sócrates. Um José Sócrates.

 

O relvas é pernicioso porque nos obriga a escrever manifestos quando podíamos estar a pisar a grama.

 

O relvas faz-nos preferir a grama.

 

O relvas prefere a grana.

 

Portugal, que com todas estas urtigas conseguiu a classificação de país devedor com sintomas de depressão, mas sem guita para a terapia ou comprimidos; Portugal: país exportador de almas esgaçadas, com o rabo preso na europa e o nariz a farejar o atlântico. Portugal de relva seca, cimento armado, centros comerciais recordistas e vira o disco e toca ao mesmo, oh Portugal, ficas mais pequeno, visto de longe, com esse relvas a puxar-te as rédeas, cagando tudo no caminho. Mas um dia, um dia relvas, a grama será mais importante que a grana, e descerão a tua estátua lá na praça da aldeia onde nasceste, e Portugal voltará a ser qualquer coisa mais verde, qualquer coisa com mais esperança e gente limpa.

publicado por Hugo Gonçalves às 15:07
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Segunda-feira, 28 de Maio de 2012

a guΣrra

Não se pode falar de admiração; é mais uma perplexidade permanente e sem remédio. Quem são estas pessoas que percebem de Excel e que está por trás delas?

 

É a actualização do velho choque civilizacional entre os miúdos que iam para letras e os que iam para as ciências. Não havia meio-termo, então. O liceu tinha essa doutrina maniqueísta sobre a espécie: ou se sabia duma coisa ou se sabia doutra. Não havia uma terceira via nem hipótese de acumulação. Era preciso escolher de que lado se estava.

 

Essa guerra separou famílias e amigos. No pátio, à mesa do café, no bairro, pareciam todos iguais – jogavam os mesmos jogos, riam das mesmas piadas, disputavam as atenções dos mesmos rapazes e raparigas – mas, depois, esvaía-se a ilusão. Chegado o momento da escolha, ela era tomada sem clemência. Não se conheciam vizinhos nem primos; uns alistavam-se num exército e outros noutro e, a partir daí, agiam em conformidade. Da memória da pessoa de letras desaparecia subitamente toda e qualquer noção matemática elementar ou princípio das “Ciências da Natureza” aprendido aos dez anos: vertebrados e invertebrados, mundos animal, vegetal e mineral, fórmulas químicas mais complexas do que H2O e – oh! Requintes do demo! – contas de dividir. A de ciências, em compensação, conservava apenas uma vaga recordação de como se lia e escrevia. Lembrava-se de uma distinção misteriosa entre vogais e consoantes. Sabia da existência dum escritor chamado Eça de Queirós, mas ninguém lhe tirava da cabeça que “Os Maias” tinham sido criados como um instrumento de tortura para obrigar conspiradores políticos a confessar.

 

A invenção do Microsoft Office foi a certificação do cisma: os meninos de letras podiam brincar com o Word; os de ciências com o Excel. Com muita sorte e algum amor, talvez confessassem partilhar uma secreta atracção pelo Minesweeper.

 

Isso não passou. Já me têm pedido listas de qualquer coisa. Se as faço chegar num ficheiro Word, precipito o apocalipse. Um exceliano louco grita do outro lado que não sabe o que fazer com aquilo e que agora como é que vai ser, alguém ligue para a Gulbenkian a ver se eles lá têm especialistas que consigam converter aquela monstruosidade numa folha de cálculo.

 

Aparentemente, estas pessoas não conseguem ler uma palavra a menos que ela esteja dentro do quadrado duma tabela. “Os Lusíadas”, por exemplo, todos encaixadinhos num grande quadro de dupla entrada, revelar-se-iam, de repente, diante deles, em todo o esplendor. Sem isso, são um manifesto irracional debitado por um extraterrestre anarquista certamente movido por intenções pérfidas.

 

O contrário também é válido. Pessoalmente, suspeito de qualquer indivíduo que me envie um ficheiro Excel. Penso que está a pôr-me à prova. A ver se me denuncio como membro de uma sociedade secreta dirigida pelo Grande Excelómano do Universo. Desconfio que, introduzindo palavras secretas, cada quadradinho daqueles se abre e revela quem matou JFK, se Camarate foi atentado ou acidente, provas incontestáveis sobre que querem, afinal, as mulheres.

 

Mas não me dobram. Fecho a coisa e mando um email de resposta com um ficheiro de Word onde se lê, repetidamente, qualquer coisa adulta como “Figas-figas”.

 

Imagino-os a desesperar do outro lado do computador, tentando introduzir aqueles caracteres na calculadora científica, na ânsia de que lhes tirando a raiz quadrada, obtenham qualquer coisa inteligível.

 

É uma guerra fria cruel que se passa em segredo em andares e andares de escritórios. Mas cuidado com os agentes duplos: aqueles génios do mal que conseguem encaixar gráficos em ficheiros de texto. Têm a mania que são muito bons, os sobredotazinhos. Estou agora mesmo a aplicar-lhes o velho manguito. A ver se fazem melhor.

publicado por Alexandre Borges às 07:07
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Sexta-feira, 25 de Maio de 2012

O menu da amizade

Tolero tudo nos meus amigos – até as suas virtudes. Não são os defeitos que, numa primeira fase, encanitam o espírito. Com as sombras de cada um podemos nós bem – e até, metaforicamente falando, protegem de exposições solares excessivas e outros deslumbramentos de ocasião. O problema, a existir, está no brilho da rapaziada, na forma como consegue transcender-se. Ou por outra: ser amigo de alguém é começar por aceitá-lo não com todos os seus defeitos, como se costuma dizer nas esquinas, mas com todos os seus dons e qualidades. Esses é que nos fragilizam e nos fazem equacionar as nossas imperfeiçõezinhas, as nossas lacunas humanas e existenciais, as nossas limitações. Tudo aquilo que gostaríamos de ser e, por inimizade dos deuses, não somos.

 

O Vítor é o maior nos discursos da junta. O Mário é o rei do SMS romântico-sentimental. A Júlia é, sem esforço, uma cozinheira de bacalhau à Braz de mão cheia. O Arlindo é um discretíssimo e digníssimo voluntário, capaz de inventar tempo livre para fazer companhia aos velhos e distribuir alimentos e brinquedos aos novos. O Zé Carlos tem requinte gastronómico. A Marta, mesmo que a tratem mal no café e na repartição, não conhece o ressentimento. O Rui é um tipo porreiro. Tudo isso chateia um pouco, eu sei. Gostávamos de ser nós a exibir os atributos. Por isso calamo-los. Normalmente elogiamos nos amigos as qualidades que não nos podem perturbar. Aquelas que perturbam, silenciamos. É preciso aceitá-las, digo eu, e difundi-las depois numa aparelhagem de alta fidelidade. Como quem aceita que o mundo parecer ter uma noção muito sua e própria do que é a justiça. O que não é verdade. Existe é apenas a ilusão, no instante em que vislumbramos o lado do bom dos outros, de o nosso se ter eclipsado. Mas ele está lá - está, sim senhor. Passada a inveja ternurenta que se tem pelos amigos, as virtudes alheias não são para engolir de uma vez - são para degustar.

 

É essa a coisa boa de ter amigos muito diferentes, com vocações bem diversas: poder fazer das suas virtudes um menu de degustação (não confundir com o menu de desgostação, que tem a ver com os sucessivos desgostos que inevitavelmente vamos experienciando nas relações ao longo da vidinha). Provamos um bocadinho daqui, um bocadinho dali, e, pouco a pouco, tornamo-nos seres menos vagos e centrados em nós próprios - mais completos e capazes. Um amigo culto, por exemplo, esse clássico. Pessoa lembrou algures, numa nota algo interesseira, que a cultura de um indivíduo está dependente da cultura daqueles com quem se dá. Começamos por invejar a cultura literária de um amigo mas depois aceitamos receber lições de literatura russa às quatro da manhã nos seus aposentos, enquanto nos afundamos no sofá e ele se entusiasma com o whiskie.

 

Aterrados que estamos nas bebidas, aproveite-se para dizer que às vezes as virtudes dos amigos são muito pouco óbvias, um pouco como os recônditos sabores de alguns néctares. Digamo-lo sem comparações: todos nós temos amigos insuportáveis. Insuportáveis para o comum dos mortais, claro. E, sabemo-lo, um amigo é o incomum dos mortais. O que obriga a um esforço quase santo de atenção, de procura e de, virtude das virtudes, paciência. Que vale sempre a pena, reconheça-se. Pode parecer uma metáfora barata, a puxar à ocasião, mas faz todo o sentido: saber usufruir as virtudes de um amigo é como saber provar um vinho superior, daqueles com sabores menos óbvios, só detectáveis pelas provas persistentes de um especialista. Mesmo um amigo muito defeituoso (à primeira vista um autêntico carrascão) poderá ter virtudes escondidas, possivelmente só detectáveis ao fim de algum tempo de convívio e regabofe. Sim, diz com razão o lugar-comum que a amizade é como um bom vinho. Mas não é só por causa do factor tempo que isso acontece - também é por causa da forma como se usa esse factor tempo. Desta possibilidade de fazer a pesquisa, nos guichets e arquivos das almas, daquilo que as relações superficiais nunca podem topar.

 

Há, sim, há verdadeiros enólogos da amizade, João Paulos Martins do companheirismo – e é para esse estatuto que, permitam-me a normatividade, se deve caminhar. São aqueles que conseguem passar a zona da resistência e do medo em aceitar as virtudes dos amigos para depois irem, em cada investida, procurando o melhor dos outros e fazer questão de dizê-lo – cantando, dançando, sapateando - a toda a gente. Eu aproveito o meu tempo de antena para dizer que o Luís, quando é bom, é muito bom. Que o João, além de ser um dos maiores escritores vivos, é capaz de ir ter sempre com um amigo em apuros, às quatro da manhã se for preciso. E que o André é dos maus feitios mais generosos do universo. E pronto, já chega. Já fiz o trabalhinho de casa. Para a próxima tento elogiar mais.

 

(Publicado no "Almanaque da Amizade e do Vinho")

publicado por Nuno Costa Santos às 18:51
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Segunda-feira, 21 de Maio de 2012

o escritor está no ar

Acontece volta e meia. Pessoas que acabo de conhecer, ao descobrirem como ganho a vida, soltam – com a mesma expressão de tradução difícil, mas, apesar de tudo, calorosa – “Ah! Tem mesmo ar de escritor.”

 

Ar de escritor. Às vezes, é a minha própria mulher quem o diz, numa variante ligeira que distingue uma circunstância particular de uma hipotética essência duradoura: “estás mesmo com ar de escritor” ou (com determinada peça / conjugação de peças de roupa) “ficas mesmo com ar de escritor.”

 

A persistência no termo “mesmo” denuncia um solilóquio interior que a pessoa manteve, anteriormente, com ela mesma, mas que não chegou a verbalizar. O que torna tudo um pouco mais preocupante.

 

Notem: já percebi, pela dita expressão de tradução difícil, que ter “ar de escritor” não é uma coisa má. As pessoas não o dizem enojadas, não se afastam para uma distância de segurança, não chamam a polícia, não vão antes conversar com a pessoa que tem ar de operador de raio-x, não tapam os olhos aos filhos. Noto-lhes até, arriscaria, uma certa aspiração na voz que parece – parece – roçar uma pequena admiração. Porque as pessoas, por muito que detestem incontáveis escritores em particular, costumam simpatizar com escritores em geral.

 

O problema é tudo quanto ter “ar de escritor” parece excluir. Ter “ar de escritor” implica, decerto, não ter ar de Adónis, ar de atleta olímpico, ar de príncipe dinamarquês, ar de herói de guerra, ar de quem figure na lista dos 500 mais ricos da Fortune.

 

“Ar de escritor” é assim uma coisa que sugere, talvez, uma pessoa inteligente e interessante, mas potencialmente deprimida, uma lástima no desporto, alguém que, quando arrisca um passo de dança na pista da discoteca, coloca a Protecção Civil em alerta amarelo.

 

“Ar de escritor”, dá-me ideia, e a julgar por mim, implica uma certa palidez, uma considerável miopia, uma certa relutância em gastar 15 euros numa recarga de lâminas de barbear e uma preferência por camisolas de gola alta de que só se abdica perante intimação do tribunal. Não quer necessariamente dizer “feio” ou “tipo perfeitamente incapaz de sacar uma miúda com menos de cinco dioptrias”, mas, convenhamos, também não significa exactamente “deus sexual”.

 

Por vezes, penso em responder a estas pessoas que, do Lobo Antunes ao Paul Auster, vai uma considerável diferença de “ar”. Mas, depois, calo-me e prefiro escrever sobre a coisa.

 

Enquanto penso que ar terá o leitor. 

publicado por Alexandre Borges às 21:12
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Segunda-feira, 14 de Maio de 2012

a glória é um lugar de estacionamento

É uma coisa silenciosa, que é como dói mais. Um gesto discreto, porque pressupõe a evidência da situação. A constatação de uma superioridade que conta, de antemão, com o reconhecimento tácito por parte do ser inferior. Entram no elevador, vêem o piso zero seleccionado, introduzem a chave que dá acesso aos pisos do parque e depois fazem-no. Rodam ligeiramente o pescoço e arqueiam a sobrancelha com precisão geométrica, dizendo: “Tu sabes que eu sou melhor, não sabes?”. E seguem o resto da viagem de queixo erguido e olhar fixo num horizonte elevado, passando em voo rasante sobre a nossa cabeça, subitamente enterrada entre os ombros.

 

Donde veio isto, não tenho ideia. Mas ter um lugar de estacionamento, tornou-se, parece, a palma olímpica. Imagino pais perguntando às filhas casadoiras: “Quero lá saber se ele é bom rapaz! Tem lugar no parque da empresa ou não tem?”. E, a partir daí, tudo é possível: “Sim. Ele tem mais 65 anos do que eu, esteve preso nos últimos 40, está todo cheio de doenças, abandonou as últimas três mulheres e os 15 filhos à fome e diz que só me quer para cozinheira e escrava sexual, mas tem lugar no parque da empresa.” Pais: “Filho!!!!!”

 

Sim. Segundo a ética contemporânea – aquela onde toda a gente tem um blackberry, um cargo em inglês na assinatura do email (um estafeta é, por exemplo, um Senior Delievery Specialist) e toma brunches em vez de – q’horror – pequeno-almoço, é desprestigiante respirar o mesmo ar que o resto da espécie. Ter de cruzar a recepção do prédio, passar pela mesma porta por onde – asco – toda a gente passa e, imagine-se a pelintrice, caminhar pelo próprio pé até à viatura ou – artimanhas do demo – transporte público, é atestado de falhado (na assinatura do email, ler-se-ia: “Senior Losing Executive”).

 

As lutas fratricidas dentro das empresas por quem tem direito a lugar de estacionamento e porquê. A magnanimidade com quem alguém cede solenemente o seu lugar no parque quando vai de férias. O choque desalmado perante a descoberta de que alguém estacionou, impiedosamente, o seu carro plebeu sobre o sagrado lugar de outrem.

 

Antes, queríamos um lugar no céu. Agora, um lugar no parque. Chamem-me retrógrado, mas preferia a primeira. Se me arqueassem a sobrancelha, é porque, ao menos, devia ter feito alguma coisa agradável.

publicado por Alexandre Borges às 13:20
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Domingo, 13 de Maio de 2012

A vida tem morte a mais

Claro: somos crescidos, já sabemos como é. Nascemos, morremos, coisa natural, «é a vida» como somos ouvidos a dizer estupidamente nos velórios dos nossos parentes.

É a vida mas é o caralho.

Da vida rejeito a morte. Entendo-a, lido com ela, tenho até a dádiva da Fé. Mas não me obriguem a aceitá-la, não me obriguem a resignar-me num final tão chocho, tão previsivel, tão foleiro.

 

Eu escrevo zangado. Estes dias têm levado muitos que conhecia e privei. Leio dilacerantes declarações públicas de amor de um amigo e mentor e, mesmo através daquela sábia e terrível beleza, percebo o desespero, o náufrago envergonhado que anuncia a deriva que sempre sucede à perda.

O que nós contemos é demasiado para acabar. Acredito que a imortalidade possa ser uma grande maçada, ainda por cima sabendo que nós humanos não somos flores que se cheirem. Mas admitamo-lo: viver sabe a pouco, mesmo quando se morre de excesso de vida.

 

Não há refúgio possivel nestas alturas: leio Unamuno, leio Séneca, leio a minha Bíblia e não há santuário nem consolo. Depois passa. Mas volta, volta sempre.

Estou zangado. Apetece-me grafittar esta cidade que está luminosa com a frase do Sénancour: «Se é do pó que viemos e é para o pó que vamos façamos que isso seja uma injustiça». Mas em vez disso tenho de fazer um perfil jornalístico de alguém que conheci e gostei e reler as suas entrevistas antigas e voltar a reencontrá-lo nas palavras que sobreviveram ao pó.

Eu sei que a vida é injusta. Mas não me obriguem a aceitar a morte.

publicado por Nuno Miguel Guedes às 02:21
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Sexta-feira, 11 de Maio de 2012

O Problema Está Nas Mangas

Acho que é o senhor Albert Camus (sim, esse) que tem um conto em que um homem isolado escreve, na solidão do seu quarto, uma inscrição que não se percebe se é “solitário” ou “solidário”. Não tenho a certeza. Mas se é só lhe fica bem ter tido essa ideia no papel. Porque de facto muitas vezes as condições tocam-se. Há muito bom solidário solitário. Há muito boa solidão que se quer dar aos outros, que se quer abrir ao mundo. Só não percebeu como. Até porque os dias não estão para isso. Os dias não estão para gestos largos, generosos, maiores. Não falo apenas da falta de condições financeiras para ajudar quem precisa (tanta gente, caramba!). Falo do cinismo que se instalou e que é, para citar o economês de esquina, um verdadeiro programa de desincentivo ao investimento de quem descer à rua e começar a perceber quem os são os vulneráveis do bairro. Dos mais velhos aos mais pobres.

 

Tornou-se ainda mais difícil tentar ser solidário num mundo que promove não só a solidão mas sobretudo o individualismo blasé. A boca de balcão. Ou de twittada. Tornámo-nos cínicos – e não daquele cinismo bem-humorado e elegante, que põe em causa só para chatear; daquele cinismo que seca - e se calhar ainda não percebemos que essa é a maior doença deste tempo. Os centros de saúde espalhados pelo país deviam ter consultas para acabar com este cinismo, com esta patologia que questiona cada gesto de amor, cada tentativa, que mata quem tenta e se esforça. “Foste ajudar aquela senhora a atravessar a rua? Isso é porque te queres sentir melhor!”. Estão a perceber o que digo? A especialidade da casa – esta casa que habitamos chamada mundo - tornou-se a problematização. Nisso ninguém nos bate: somos muita bons a problematizar. E nisso, repito, não há solidariedade como a nossa. Estamos sempre prontos a ajudar quem tomou a decisão de arregaçar a manga para ajudar quem precisa. Ajudar a quê? A fornecer-lhe problemas à cachimónia, a dizer-lhe para se deixar de coisas, a voltar para casa, a parar, a regressar à condição de ser autocentrado, sem disponibilidade para outros umbigos, outras respirações. “Não te metas nisso, pá! Vais ajudar os pobrezinhos para quê? O Governo que trate do assunto. Só te vais meter em problemas. Eles ainda se vão virar contra ti. Tu não tens nem condições para te ajudar a ti próprio quanto mais para ajudar os outros”. E um tipo paralisa. Recua. Fica com dúvidas.

 

Sabemos que ser solitário é uma condição que nos cabe a todos pelo menos no essencial da vida. Crescemos, vivemos e morremos sozinhos, numa solidão que pode ser mais ou menos acompanhada e partilhada. Mas esse dado da existência não nos impede, como o outro (no caso, o homem do conto), de sermos solitariamente solidários, que é, em muitos casos, o máximo que podermos ser. Não se pense que esse gesto conta pouco. Conta muito. Acrescenta. Faz cada vez mais a diferença. Volto à imagem: comece-se por arregaçar as mangas em cada bairro, em cada prédio, em cada apartamento, em cada quarto, em cada coração. O resto logo se vê.

 

(crónica publicada no jornal que acompanhou a edição de 2012 do Lisboa Capital República Popular)

publicado por Nuno Costa Santos às 11:33
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Sexta-feira, 4 de Maio de 2012

Morrer à míngua

Existe uma cultura generalizada de que não se deve pagar a cultura. E não, não falo apenas do Estado, do vilipendiado Estado nestes dias em que o premiado cinema português espera o apoio que está, muito troikianamente, a perder (e bem merece tê-lo, caramba! - dentro de um quadro mais justo, claro, e com composições de júri e opções mais equilibradas nos Olimpos cinéfilos). Falo também das pessoas - isso: os cidadãos - que querem demasiadas vezes ir ver espectáculos sem terem de pagar os míseros euros dos bilhetes. "Não se arranja um bilhete à borla?". Não. Não se arranja. Ou não se devia arranjar. Porque o bilhete muitas vezes até só custa três euros (há cada vez mais espectáculos a custarem isso) e, em vez de gastar os trocos no croissant com queijo e a meia de leite da manhã, é bom pagar aquilo que se vai ver, seja um espectáculo de teatro, um filme ou um festival de bandas alternativas. Porquê? Porque é justo pagá-lo. E por uma questão prática. Porque, se se assim não acontecer, deixa de existir palhaços. Ou performers. Ou actores. Ou realizadores. Ou técnicos de som e pós-produtores. Simples. Acabo de fazer um filme com meios mínimos e sei o que custa: temos sempre de andar a puxar a carroça e a entusiasmar os participantes - entre técnicos e criativos - de que vai valer a pena o esforço. Com frequência entre a meia-noite e as quatro e meia da manhã, que é quando eles, generosamente, arranjam um tempinho, fora dos horários de trabalho, para contribuirem para a causa. Basicamente não funciona. Ou funciona muito mal.

 

Muita da cultura custa dinheiro a fazer. E por isso deve ser paga. É esse o ponto, ou o meu ponto. E - admitamo-lo sem merdas - "a cultura" é um gesto essencial à nossa sobrevivência. Conheço pouca gente capaz de sobreviver sem arte, sem ouvir e ler histórias, sem se emocionar com a recriação das suas vidas - das luzes e sombras disto de andar vivo - que as várias modalidades artísticas (desculpem a pompa) permitem.

Fui ver o "Tabu" e encontrei a salas cheia e com uma reacção atenta e entusiasmada. E, meus queridos (falo para todos, até para mim próprio), os "tabus" pagam-se. Custam dinheiro. É preciso pagar ao pessoal para os fazer - desde aquele que teve a ideia inicial ao que fez os apuros finais, mesmo antes da entrega da primeira cópia para exibição. Não aparecem feitos. Se queremos continuar a vê-los é importante que se promova ideia - seja através do Estado, seja através dos privados, seja através dos espectadores - de que é decisivo pagá-los. Sem isso podemos morrer à míngua. De cultura. Que é uma forma particularmente indigna de morrer.

publicado por Nuno Costa Santos às 11:21
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