Segunda-feira, 30 de Abril de 2012

modernices

Há dias, num café: um rapaz, duas raparigas, o jornal desportivo na mão do rapaz, elas queixando-se de que aquilo não tinha nada para ler, ele a chegar à página onde se falava da eliminação do Barcelona da Champions e o consenso por fim encontrado: eram todos do Barcelona. Ele, que era do Benfica, mas que explicou que: “o Barcelona é a minha segunda equipa”; uma delas, que era do Sporting, mas que disse que “também a minha”; a outra, que nem gostava de futebol, mas que achou por bem completar o momento de harmonia com um lapidar “ahã”.

 

Foi ali, com aquelas três alminhas, mas poderiam ter sido outras, noutra parte qualquer. Nos últimos anos, o Barça teve muita saída. Como os iPhones ou a nespresso. Deve ter acabado quarta-feira.

 

A relação de uma pessoa com um clube desportivo não é um estado de alma. Eu não estou do Alverca hoje e amanhã do Bombarralense. Também não é uma coisa que se tenha porque, se fosse, poderia perder-se. O uso da Língua é muito claro neste ponto: nós dizemos que “somos” dum clube. Eu sou do Bombarralense. Eu sou do Comércio e Indústria. Eu sou do Benfica. Ser. Identidade. Ser de. Pertença. Não se é uma coisa e outra diferente ao mesmo tempo. Chama-se Princípio da Não Contradição, mas não é preciso ter estudado Lógica para o saber; qualquer criança o intui. Ela é o Pedro; razão pela qual não é o Jacinto nem o Manel.

 

Ser dum clube, como sabem todos aqueles que verdadeiramente gostam de bola, não é uma decisão que se tenha tomado. Nada na essência de cada um de nós o foi. Ninguém decidiu que seria rabugento, sonhador, medroso, contemplativo, chato, interessante, et cetera. Um tipo é o que é; parte património genético, parte milagre, parte acaso. É alto, teimoso e sportinguista. Não decide tornar-se alto, teimoso e sportinguista.

 

Pode gostar-se do Barcelona, da forma como joga, da História do clube, do espírito, dos jogadores que tem. Mas ser dum clube estrangeiro como se é daquele de quem se é desde pequenino? Ao mesmo tempo? Em time sharing? Ser do rico, famoso, que se vê na televisão, como se é da malta do bairro?

 

A bissexualidade futebolística, leitor, é uma coisa que não me entra.

 

Chamem-me antiquado. Em pequenino, jurei ao Diamantino que era para toda a vida. 

publicado por Alexandre Borges às 02:21
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Domingo, 29 de Abril de 2012

Sementes


Acredito que há um pouco do que fomos naquilo que vamos sendo. O tempo, as ideias, as alegrias e as tristezas – tudo o que de forma não suficiente chamamos de ‘vida’ – vão ajudando na viagem, nas partidas, nos regressos e na surpresa das esquinas que vamos encontrando. Mas nunca, nunca seremos o que fomos.

 

Explico. Uma das minhas maneiras preferidas de me confrontar com o prefácio de mim é reler livros que de gostei muito na primeira vez que os li. O resultado deste exercício é sempre extraordinário: livro e leitor parecem e são diferentes sempre que lidos à luz do hoje. Há algum tempo fiz a releitura de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. A dada altura uma personagem de que agora não me recordo (a própria Alice?) resume tudo o que aqui foi escrito: «Mas não vale a pena voltar a ontem. Nessa altura eu era outra pessoa».

O tema que sobrevoa esta edição do Lisboa Capital República Popular, «Ser solidário» fez-me voltar a ontem – e por consequência, a outra pessoa que fui. Não me consinto – porque acho inútil e aborrecido – qualquer tipo de nostalgia que não seja a do instante que agora mesmo passou. Mas foi inevitável, perante esta frase, lembrar tempos, lugares e músicas. Um disco que me marcou e confirmou o génio absoluto de Zé Mário Branco, que transcende ideologias ou visões da vida (e escreve-vos quem tem esses valores praticamente nos antípodas dos do cantor); uns versos que ainda hoje me guiam («Fazer de cada perda uma raiz/e improvavelmente ser feliz»);

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                   dEraEr  Era o tempo dos concertos «Solidariedade com...». Nicarágua (contras e sandinistas, lembram-se?), Chile, pessoas, qualquer coisa. Os efeitos dos pós-revoluções começavam a assentar, o primeiro presidente eleito (ainda militar) ia para o segundo mandato e a democracia caminhava debilmente para uma normalidade qualquer. E essa pessoa que fui ia a todas, cantando o refrão de O Barco Vai de Saída, do Fausto enquanto acreditava sinceramente que estava a ser solidário e em comunhão com todos os que enchiam coliseus e outras salas. Não estava, sei-o agora. A minha militância era mais afectiva do que efectiva.

E houve aquela tarde de calor indolente, em que um amigo chamado Pedro Branco entra pela sala da Associação de Estudantes a que eu pertencia e lança o apelo: «O meu pai precisa de vozes para um coro de uma canção. Agora! Quem vem?». Fomos todos. O “pai” era – adivinharam – o próprio Zé Mário Branco. O resultado está registado e é com muito orgulho que me encontro na vozearia mais ou menos organizada que participa na canção Qual é a tua, ó meu?, incluída no mesmo disco.

 

Muitas versões de mim depois surpreendo-me a escrever sobre esses ontens que cantavam, de um optimismo quase absurdo mas sincero. E lamento, lamento tanto que a vida me tenha ensinado que o bicho humano gosta de praticar pouco o que louva. Não se trata de não acreditar na solidariedade; trata-se de acreditar (ou de constatar) que ela tem aparecido apenas na pior das situações ou instigada por campanhas massivas. Ela existe, eu sei. Há provas de pessoas e instituições que a praticam, sem medo nem vaidades. Mas por outro lado lembro que os mesmos que aderimos tão entusiasticamente na ajuda às vítimas do terramoto haitiano são exactamente os mesmos que os deixam agora no esquecimento. A media e a nossa consciência flexível faz o resto.

 

Parafraseando Dickens vivemos os piores dos tempos, vivemos os melhores dos tempos. A humanidade que teima em existir no ser humano vem ao de cima com as adversidades e todos os dias vemos exemplos notáveis de ajuda. Não me importo de dizer que eu próprio beneficiei com isso. Mas não consigo deixar de pensar na irritante sazonalidade dos bons sentimentos colectivos. Não é de resto de estranhar: o filósofo Emmanuel Lévinas (de certa forma um precursor e influência no pós-modernismo anunciado por Gilles Lipovetsky) esforçou-se para desenvolver a ideia da primazia do Outro, rejeitando assim todos os conceitos antropológicos que desde Descartes giravam à volta do ego. Dizia mesmo que a civilização ocidental encontra-se marcada pela redução do Outro ao Mesmo e que seria urgente um «humanismo do Outro», onde a violência de um rosto alheio nos convocaria ainda com mais força a sermos Nós. Infelizmente a nossa sociedade empurra para um isolamento, o que equivale a uma espécie de permanente angústia relacional, o que no limite nega uma das principais características do que é ser humano: a comunicação. É espantoso verificar como esta ideia se transformou na regra da humanidade ocidental , com as excepções a virem apenas em situação de crise. A solidariedade como virtude praticada em uníssono é impossível pela própria natureza humana. Cepticismo antropológico? Sem dúvida, mas um cepticismo que pela minha parte aceita mais o ‘talvez’ do que o ‘não’.

 

Apesar de tudo estes não podem ser os dias do pessimismo. São dias de acção, sob pena de tudo se perder. Iniciativas como a LCRP ajudam a pensar em valores universais e colocá-los em prática. E espero – meu Deus, como eu espero – que quem sou hoje e isto vos escreve esteja completamente enganado naquilo que aqui diz acreditar e que o outro que fui ontem possa regressar em força e confiante.

 

 

(texto publicado no jornal que acompanhou a edição deste ano do Lisboa Capital República Popular)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por Nuno Miguel Guedes às 19:06
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Segunda-feira, 23 de Abril de 2012

deus não existe, foi o que as cartas disseram

Dizia há dias um estudo que há cada vez menos católicos. Não duvido. Duvido é que haja cada vez mais ateus. A malta gosta de se armar em durona. Qual adolescente em furiosa afirmação pessoal, gaba-se da sua ciência, do seu banho de mundo, da sua lucidez, da sua tecnologia, enquanto troça dos tontinhos que ainda vão à missa e ouvem a Renascença. Porém, debaixo da ilusão do cepticismo, da maturidade, da razão, nunca foi tão absurdamente crédula como agora (sublinhe-se a diferença entre crédula e crente).

 

O vulgo moderno revoltou-se contra a religião dos papás e abraçou o tutti-frutti da espiritualidade. Ele, basicamente, acredita em tudo. Tudo menos – Deus nos livre – o que seja católico.

 

Ele acha o Budismo uma escola de vida, o yoga uma prática extraordinária, os deuses hindus um mistério fascinante. Apercebeu-se de que há um karma na sua vida. Tem agora a casa cheia de velas com aroma a cedro para se libertar dele. Quando tem tempo, faz meditação (sim, porque, para ele, “rezar” é a coisa mais careta do mundo, mas “meditar” já é toda uma outra conversa). Anda a tentar equilibrar os shakras. Frequenta gurus, terapeutas e massagistas-que-sentem-coisas. Já foi a uma consulta de numerologia e a muitas de astros. Lançaram-lhe as cartas, leram-lhe a sina, fizeram-lhe o eneagrama; para a semana, tem marcada uma constelação familiar.

 

Desde que foi à Índia, despertou nele uma espiritualidade inquietante. Anda a tentar descobrir o que foi na outra vida. Tem muito respeito pelos islâmicos. Acha que não devíamos ir lá meter-nos com os princípios deles, que não se deve brincar com o facto de serem poligâmicos e esconderem as mulheres e lapidarem as adúlteras. A Igreja Católica é que é uma vergonha, que não autoriza o preservativo.

 

Tem em casa uns budas e pedras para diferentes ocasiões (uma que afasta o mau olhado, outra que atrai boas energias, outra que o faz estar bem consigo mesmo). Reorganizou todo o apartamento de acordo com o que lhe explicou uma amiga acerca do feng-shui. Vai lendo uns livros tipo “O Segredo” e tenta segui-los à risca. Alimenta-se de acordo com um plano rigorosamente adequado às necessidades energéticas do seu corpo. Espalhou incenso pelo andar. Tatuou um Vishnu na omoplata direita e um Shiva na esquerda.

 

Reserva bilhetes na primeira fila para ouvir o Dalai Lama na Gulbenkian, mas acha uma vergonha que se feche o Terreiro do Paço para o Papa. Não compreende que faz aquela gente toda em Fátima enquanto compra um bilhete para o Tibete.

 

No Brasil, disseram-lhe que tem um anjo e, desde então, que lhe parece senti-lo. Bebe um chá às terças-feiras que dizem que purifica e tem momentos em que, quase, quase consegue ver a aura das pessoas.

 

Acredita no PT e no psiquiatra, no poder curativo do pensamento positivo e a verdade é que, da última vez que lhe lançaram os búzios, acertaram em quase tudo.

 

Tem pena da mãe, que ainda acha que vai para o céu. E do pai, que tem medo de ir para o inferno. Estava capaz de acender uma vela de cedro por eles ou de meditar um pouco em volta da ingenuidade dos velhos. Mas são um caso perdido. Comem tanta carne vermelha.

publicado por Alexandre Borges às 01:23
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Quarta-feira, 18 de Abril de 2012

Johnny be good

1
Johnny nunca vira um elefante na savana embora tivesse sido concebido em África, num território onde os paquidermes eram comuns.

Johnny olhou para o animal, que não tombou com o primeiro tiro. Johnny só começou a correr após o segundo disparado, como todos os jornais viriam a relatar mais tarde.


2
Há vinte e três anos, a mãe transportara Johnny, ainda alimentado pela placenta, entre o continente da fome negra e a promessa do continente branco, numa patera, com mar calmo e desembarque nas praias mediterrânicas durante a noite. Foi apanhada pela polícia, mas como estava grávida não podia ser deportada.

Johnny cresceu na Europa vigorosa da indústria automóvel, do advento das telecomunicações, das obras públicas que davam trabalho aos que chegavam de fora, como a mãe de Johnny, que viveu em três cidades europeias, até se casar com um primo, e montar um mercado com produtos do seu país.

Johny era bom aluno, cidadão com passaporte, um exemplo da integração e do modelo de desenvolvimento. Terminada a faculdade, foi escolhido no processo de seleção para ajudante pessoal do monarca do país. Já não vestia sua alteza da cabeça aos pés, como aconteceria séculos antes, e teve uma notoriedade incomum para o posto que ocupava. Os jornais fizeram perfis sobre o rapaz africano, que atravessara Gibraltar na barriga da mãe – uma família que cruzou a Europa até que, apoiada e motivada pelo sistema e pela bondade das gentes, conseguiu que o filho frequentasse os mesmos salões com chefes-de-estado, estrelas rock, celebridades cinematográficas, atletas de primeira linha.


3
O segundo tiro não acertou no animal. O elefante seguiu caminho, foi perdendo velocidade, cambaleava como os bêbedos, tombou junto de uma árvore que Johny não sabia o nome mas, estava seguro, vivia ali há mais tempo que toda a comitiva do safari em que participava o monarca.

Johny tinha uma namorada. Pensava casar e, mais tarde, depois do estágio com o rei, abrir um negócio, como fez sua mãe. Johny correu, por fim, mas não para o monarca, que jazia no pó, sangrando da cara porque a arma, com defeito, rebentara no momento do segundo disparo.

Johny correu para o elefante e, mais tarde, os jornais e as televisões repetiram o relato desse detalhe como a mesma insistência com que um adolescente relembra a sua primeira experiência sexual nos dias subsequentes ao extraordinário evento.

Contrataram-no para fazer anúncios de produtos orgânicos, de carros amigos do ambiente e de bancos e companhias de energia que se esforçam por dar miminhos aos clientes em função de um mundo melhor e sem poluição.


4
Johny ficou famoso.


O rei desfigurado.

E um cronista social, malvado e megalómano, tornou famoso o cognome do rei, aquele pelo qual ficará conhecido nos manuais de história: “Trombinhas”.


Houve manifestações nas redes sociais e em certas ruas por causa do incidente com o elefante. Escreveram-se crónicas a favor da caça e outras em desprimor da raça. Homem que é homem mata o que come, diziam uns. Vais pedir um double cheese de elefante?, diziam outros.

Johnny foi despedido, meses depois, quando ninguém já se lembrava dele ou do animal assassinado. O rei chamou-o e disse:

“O senhor preferiu ir em resgate do animal do que salvar o seu monarca.”

Trombinhas tinha saído, recentemente, de uma plástica de sucesso que, no entanto, não o impedia de parecer o Homem Elefante.

 

Johnny disse:


“O animal, como se percebe pela ação da justiça do Acaso na sua tromba, é vossa alteza. Diria mesmo uma real cavalgadura (sem insultar os equídeos) e uma majestosa bosta de vaca (igualmente sem desprimor para o trânsito intestinal dos bovinos)”.



5
Johnny abriu um mercado, teve um filho e jamais se mudou para África ou voltou a ver um elefante na savana. Quando o rei morreu, engasgado na azeitona de um dry Martini, a bordo de um iate onde pescava tubarões, Johnny fugiu do luto oficial e das cerimónias nas ruas. Levou o filho ao zoológico. Não era a savana nem havia árvores ancestrais, mas Johny habituara-se, há muito, que a procura da excelência pode ser frustrante. O zoo servia.

Desrespeitando os cartazes que pediam para não alimentar os animais, Johnny deu amendoins ao filho e disse que os atirasse na direção dos elefantes.

Johnny inquietou-se, pensando se, no futuro, o seu filho seria caçador, se abandonaria um cão, se compraria bilhetes para a tourada.

Depois, um pensamento deu-lhe algum descanso:

“Quanto à forma como o meu filho irá tratar os animais, está tudo em aberto. Mas ao menos sei que não tem a sina amaldiçoada de um dia ser rei.”


publicado por Hugo Gonçalves às 17:26
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Sexta-feira, 13 de Abril de 2012

História de um Filme

Todas as adolescências são musicais. Arrisquemos mais: as músicas que ouvimos na adolescência são as mais importantes das nossas vidas. Apareceram numa fase de definições identitárias várias e trazem consigo todos os “instantes decisivos”, de vivências fundamentais, em que foram ouvidas. Ao longo da vida adulta não são raros os momentos em que são recordadas e lembrados os sentimentos que as acompanhavam. Os sons trazem imagens – que se vão substituindo umas às outras – e assim, de forma espontânea, se vai editando a longa-metragem de um crescimento. Há quem prefira deixar a adolescência nesse país distante onde está, para não ter de remexer ora no tesouro que foi ora na caixinha de problemas que constituiu. O escriba que assina estas linhas (o que é apenas uma forma de evitar o totalitário “eu”) preferiu ir, quase 20 anos depois de o ter deixado, buscar esse “tempo sagrado” e tentar perceber que mudanças ocorreram no território que pisou nessa altura de todas as descobertas.

 

 

 

É aqui que entram as ilhas dos Açores. Ou, se quisermos ser mais rigorosos, uma ilha dos Açores, São Miguel. Foi esse o solo terrestre com vista para o mar que suportou o seu crescimento. Foi ai, nessa paisagem sem adjectivações possíveis, nesse ambiente ilhéu único, que cultivou imensas dúvidas e algumas certezas, no ambiente psicológico de investigação próprio da idade. Foi aí que partilhou com os amigos as experiências de criatividade e libertação que são transportadas, noutras circunstâncias, de forma naturalmente mais condicionada e normativa, pela vida fora. Como é que está a terra que deixei quando tinha 18 anos? Na altura de fazer as malas uma primeira pergunta foi logo colocada na bagagem. Interessava-me (sim, o melhor é assumir o controlo do avião) ir buscar a adolescência e aproveitar para perceber em que é que se transformou a ilha. Seguiam-se outras, decorrentes das primeiras: os locais onde cresci estão intactos – têm a mesma morfologia, o mesmo cheiro, a mesma poesia? As pessoas que lá estavam continuam no mesmo sítio? Estarei preparado para me confrontar com as rugas dos lugares e dos rostos? Pisamos aqui o terreno das emoções que todos os regressos suscitam: uma mistura entre curiosidade e apego. E a consciência de que muitas vezes é necessário vigiar a nostalgia, esse mar de conforto onde dá sempre jeito ao espírito banhar-se. Chegámos – nós, equipa de filmagem – à ilha de São Miguel nos finais de Setembro com a ideia de fazer um documentário ficcionado a partir de algumas ideias que tínhamos lançado em conversas várias.

 

Depois de um brainstorm numa casa junto à Lagoa das Furnas (oh privilégio!), alinhámos uma série de situações que queríamos gravar e fizemos um primeiro desenho da calendarização. Mas as pessoas com as quais nos fomos cruzando nas três semanas de rodagem tornaram esses planos iniciais apenas o ponto de partida para todo o tipo de surpresas. Cheguei, sim, à pista na qual queria aterrar: as pessoas, continuam a ser as pessoas a dar a volta ao mais programado dos textos. Hoje não sabemos se temos um documentário com momentos de ficção ou uma ficção com momentos documentais. Os abraços um a um ficarão para altura oportuna. Mas fica aqui já um agradecimento do tamanho do céu que estão a sobrevoar para quem – ora nos momentos de representação ora na interpretação de músicas ora em depoimento – também fez o exercício de ir procurar os seus discos perdidos. Agora quem diz discos perdidos também diz milagres encontrados. Até já, numa sala de cinema perto de si. A primeira exibição do filme "Noite de Festa" é amanhã, às 15h30, no Teatro Micaelense, integrada no Panazorean

 

O trailer é este:

 

 

 

 

(Publicado na revista da Sata)

publicado por Nuno Costa Santos às 23:28
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Quarta-feira, 11 de Abril de 2012

Heterossexuais Contestatárias

Depois de me emocionar com a prosa do arquitecto, no Sol, sobre"Os Homossexuais Contestatários", inspirei-me no seu texto para retratar outra maleita dos tempos modernos.




À minha frente, no elevador, está uma mulher de 34 ou 35 anos. Pelo decote, emissão de feromonas e pela forma como balança o pé dentro do sapato de salto, percebo que é heterossexual.

Estamos no elevador do Shopping da Gávea, no Rio de Janeiro, e sim, vou começar com detalhes descritivos como: trabalho naquela zona, subo e desço a rua muitas vezes, gosto muito de subir a rua, e de descer também; bebo um copo de água a meio da manhã; a Gávea é um lugar com muitas mulheres bonitas; não sei porque as mulheres bonitas escolhem certas zonas da cidade, mas, de facto, ali nos cruzamos com muitas mulheres bonitas – quase tantas como gays no Chiado.

(Se eu escrever assim e explicar tudo muito bem explicadinho, contando a minha vida desde que lavo os dentes de manhã até que ato os cordões das meias de dormir à noitinha, fica tudo mais claro e a minha singular voz literária permanecerá para sempre na cabeça dos leitores tal como a minha prosa nobelizável perpetuará sua luz nas bibliotecas do mundo inteiro.)

Julgo ser notório que a comunidade heterossexual feminina tem vindo a crescer não só no Rio de Janeiro, mas em múltiplas metrópoles – e a maioria queixa-se do elevado número de homens hetero imprestáveis para um namoro de verão, quanto mais para casar e ter filhos. Elas estão aí e são insolentes. 

Como todos sabemos, caiu o muro de Berlim, o Fidel patina, eu li muitos livros que explicam isto, a juventude é rebelde e agora já fiz um enquadramento histórico para concluir brilhantemente que: ser hoje uma mulher heterossexual de 30 e tal anos, solteira ou sem parceiro, é moda ou uma forma de contestação. 

Uma amiga minha pensou fazer uma tatuagem, participar numa manifestação a favor da legalização da maconha ou fundar uma banda de punk rock, mas depois, influenciada por amigos e pelas celebridades que assumem a sua heterossexualidade em público, resolveu ser uma trintona nos píncaros da prestação sexual, sem parceiro permanente e orgulhosa da sua condição (ela ainda não decidiu se é uma doença, se é assim porque é assim, ou se é apenas vulnerável às tendências da estação). 

Durante anos, as mulheres heterossexuais de trinta e tal anos tiveram de viver num sistema que não permitia que se assumissem, muitas casavam e tinham filhos para escamotear a sua condição. Conheci umas quantas que, muitos anos mais tarde, largaram tudo e saíram do armário. Sem as lutas ideológicas da Guerra Fria, sem o confronto geracional de antanho, a insolência maior é agora ser uma mulher heterossexual de trinta e tal anos.

Quando olho para a mulher no elevador, para a forma como ostenta a sua heterossexualidade, o peito apertado, as pernas lisas e altas, não posso deixar de pensar que a sua opção é uma forma de negação radical, porque rejeita a relação homem-mulher como ela deve ser. O macho passa a ser o caçado. E a verdade é que, naquele elevador, me senti como a zebra coxa cruzando o território da leoa. 

Esta mudança de paradigma, em que o homem é usado para satisfação da mulher sem fins de procriação, é um caso bicudo de niilismo, uma ausência de continuidade da espécie, como o insecto fêmea que come a cabeça do macho no final da cópula. 

Sempre que uma mulher heterossexual de trinta anos tem relações com um homem sem envolvimento emocional e gravidez subsequente, morre um marinheiro no mar. E se uma dessas mulheres tem relações com outra mulher, então nesse caso morrem três fadas, dois atuns e um unicórnio.

Além de nociva, a exposição da heterossexualidade destas mulheres é, para concluir, uma moda, uma birra, um acessório no kit da noite, uma forma de chamar à atenção. 

Moral da história?

Talvez o que dizia aquele grande gayzão, Oscar Wilde:

“The only thing worst than being talked about, is not being talked about”

Tradução muito livre: ser polémico é melhor que ser apenas nulo.

 

Moral da história 2: You go girls.

 

publicado por Hugo Gonçalves às 14:41
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Quarta-feira, 4 de Abril de 2012

Carta para a sociedade protetora dos animais

Caríssimos senhores,

 

Venho por este meio fazer-vos um pedido. Mas para justificar a minha demanda sou obrigado a falar-vos de Bento, o bulldog francês, que permaneceu em minha casa, durante cinco dias, enquanto a dona viajava para São Paulo. Começo por dizer que não se trata de uma raça de minha preferência, e que sim, discrimino entre as raças caninas porque em criança tive um pastor alemão capaz de dar explicações de matemática a alguns dos meus colegas de escola – além de caçar coelhos, lagartos e obedecer a dezenas de comandos de voz. Rocky era um super cão.

 

Tenho preferências e embirrações, assumo, mas Bento entrou-me em casa tão lampeiro e confiante, cheirando o apartamento e soprando as beiças de alegria, que logo ali comecei a desativar os meus preconceitos.

 

Bento passeava comigo várias vezes e chegou a acompanhar-me para o trabalho – uma bonita casa na Gávea, onde Bento rebolava na alcatifa e explorava o segundo andar cheio de caixotes. Quem o conhecia, gostava dele. Na rua alguns assustavam-se com a sua cara achatada, outros elogiavam-lhe a cabeçona e o corpo musculado, um amigo chamou-lhe, carinhosamente, E.T, cruzámo-nos com outro cão da sua raça, ainda bebé, e descobrimos que tinham o mesmo nome.

 

O dono do outro Bento disse ao seu cão: “Olha aí o seu xará, isso é você daqui a uns tempos.”

 

Dois adolescentes pararam quando eu e Bento comíamos um queijo minas com peito de peru em pão francês e bebíamos um suco de melancia, e um deles fez, a meio da conversa, uma observação que me escapara: “Esses cachorros têm um problema. Como a cabeça é grandona, a mãe sofre muito quando eles nascem.”

 

Dei por mim várias vezes, como agora, a falar dos acontecimentos do dia em que eu e Bento tínhamos sido protagonistas. Partilhei com amigos a destreza de Bento quando, fechados no parque infantil da praça Santos Dumont, lhe lançava um pedaço de madeira e ele regressava com a madeira entre as beiças como se fumasse um charuto.

 

“Bento tem cara de gangster simpático.”

 

Dava por mim a pensar estas coisas ou a falar com ele sobre os mais variados assuntos, as suas orelhas de extra terrestre captando a minha voz e os seus olhinhos atentos. Falávamos das coisas do dia-a-dia, nunca nada de complicado, jamais política, muito menos futebol.

 

Na maior parte do tempo, claro, não dizíamos nada. Eu escrevia toda a manhã, depois de um passeio com Bento e de uma ida ao pão – por mais rápida que fosse a compra, ficava sempre em sobressalto, olhando pela janela a ver se Bento ainda estava preso na trela amarrada ao canteiro.

 

Eu escrevia e ele ficava deitado na sala, roncando e peidando-se como um estivador, por vezes alerta para alguma coisa que eu não identificava, ladrando, zangando-se, mudando de lugar.

 

Como disse, na maior parte do tempo, não falávamos. Eu levanta-me para ir beber água, dava-lhe uma fatia de fiambre, um cubo de melancia, ele esperava mais de mim, ficava a olhar-me, e eu cedia em mais um cubo, mais uma fatia.

 

Bento regressou a sua casa, deixando a minha coberta de pêlos. Aspirei-os ontem e hoje, enquanto escrevia de manhã, interrompi o trabalho e virei-me para o lado para comentar alguma coisa com Bento. Ele não estava. Na rua, a caminho do trabalho, e no regresso, cruzei-me com outros cães e outros donos.

 

Bento cheirava a cão, roçava-se no meu sofá como se estivesse em transe, era produtor de uma flatulência maligna e não se podia ver um filme sem o seu ressonar em dolby sorround.  

 

Mas, como acontece quando duas criaturas são capazes de passar horas fazendo-se companhia sem dizer uma palavra, Bento e eu eramos uma boa dupla, podíamos ser uma parelha de detetives ou de aposentados bem dispostos. O bairro era nosso e nós sabíamos aproveitar os pequenos deleites do bairro: a rua das Acácias e sua abóboda de árvores, a relva molhada, ao anoitecer, na praça Santos Dumont, a garota bonita que sorria para Bento, a alegria pateta e encantadora quando dois cães se encontram, os passeios, o silêncio de nada além dos nossos passos.

 

Por isso, caros senhores, vos peço que, tal como cuidam dos animais abandonados por humanos, se prestem a cuidar dos humanos abandonados por animais. Bento foi-se e a qualidade do ar melhorou nesta casa. Mas quem é que me vai ouvir, a meio da manhã, quando perguntar: “E que tal se chamasse Oncinha a uma das personagens do romance?”

 

Com os melhores cumprimentos,

HG

 

Ps – no meu afeto por Bento não deve ser descuidado o facto de ser xará de outro Bento. Manuel Galrinho. O lince do Barreiro. O grande guarda-redes benfiquista da era dos bigodes.

 

Ps - Bento é um cão viajado e urbanita, depois de Nova Iorque e Lisboa esta é a terceira cidade onde vive. 

publicado por Hugo Gonçalves às 23:22
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