Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012

Me beija que sou escritor

Na quarta-feira de cinzas não se matam os modos exagerados nem há parcimónia. Na praça Santos Dumont, pai da aviação, os foliões do bloco “Me beija que sou cineasta” disparam para os céus com a música, a maconha, a temperatura a bater nos 30 e muitos, os sakolés chupados entre bisnagadas e beijos na boca a desconhecidos. Vi pelo menos um actor, que já fez de bandido, tripando na multidão – seus olhos faziam adivinhar o outro lado do espelho, onde as pessoas e as plantas e até o lixo eram muito mais bonitos. 

 

Mas nada que se compare com o grupo de amigos, homens e mulheres, que, todos os anos, vestidos de noiva, desfilam no bloco Boitatá sob o efeito de ácidos (ao pé disto saltos de pára-quedas são para meninos).

 

O “Me beija que sou cineasta” é um bloco de artistas e, já se sabe, essa gente gosta de explorar e experimentar. Não é Sodoma nem Gomorra, nem os beijos são tão vulgares como no carnaval de Salvador. Mas a galera é livre, bonitinha e procura emoções.

 

Como os artistas são adeptos do ócio, este bloco não desfila, fica sempre no mesmo lugar, o que transforma a praça numa festa a meio da tarde, ao ar livre, onde aquilo que muitos consideram exageros, são, para outros, uma expressão da sua natureza, uma celebração do belo, um palco para as coisas boas que a vida e o corpo nos oferecem – uma amiga disse que, passada uma semana a vestir fantasias, regressou ao seu guarda-roupa de sempre e percebeu o aborrecimento dos dias comuns.

 

Não era o Eyes Wide Shut. Mas eu tinha uma máscara e entrei num restaurante onde o empregado, português e solidário com o seu patrício, me abastecia e reabastecia de rum porque a cerveja de lata vendida na rua devia ser placebo.

 

Foi então que ela apareceu, brilhando como as princesas, morena e de lantejoulas douradas, cabelo longo, caminhando na minha direcção em fast forward. Vinha da fila do banheiro e, mais bélica que lasciva, trotou para mim. A minha educação e respeito pelas mulheres impede-me de usar as dimensões da princesa como efeito cómico, mas há coisas que têm graça, por isso que se dane a diplomacia entre sexos: ela era pesada, massiva, com ombros de nadadora. E ainda que, como Mandrake, eu ame todas as mulheres, não esperei que o meu primeiro beijo de sempre no Carnaval carioca fosse um atropelamento.

 

Voraz e sem dar-me tempo para dizer o que fosse, a princesa não acertou com a boca na boca, dando-me uma queixada e um encontrão que me fizeram cair, qual Kramer, sobre a mesa de comensais lambuzados de picanha e chope.

 

Quando me levantei, ela já não estava lá. Mas toda a sala olhava para mim e sorria.

 

Fiz uma pequena vénia para sacudir a vergonha e entrar na onda. O garçon português esperava-me com um rum. Sempre soube que os escritores perdem para os cineastas, os músicos e os Dj’s. Mas não passava ainda das duas tarde e a quarta-feira de cinzas parecia sábado de Carnaval. 

 

 

publicado por Hugo Gonçalves às 15:17
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Domingo, 26 de Fevereiro de 2012

Valeu

 
 
Rubem Fonseca, em pé, dizendo coisas sérias com a maior das levezas. É isso que é a melhor comunicação, sobretudo em eventos literários. Sem maldade, meteu-se com todos - até com Eduardo Lourenço, que sorriu, pouco intelectual e muito homem. Humanizou a literatura e a vida, Rubem. Chamou-nos loucos.  Tirou-nos daquele ar sério em que queremos à força toda ser metidos. Despenteou o ambiente e a literatice. Podia ter feito o arzinho do escritor premiado que diz umas frases vagas e poéticas para impressionar a assistência e ter umas manchetes neutras nas secções de cultura dos jornais. Não. Colocou um picante seu, citou - muito citou ele - mas citou como quem tem um bate-papo com a tradição literária para melhor entender o ofício da escrita. E, já agora, passar esse entendimento a quem o quisesse ouvir. A ideia não foi falar para dentro. Quis falar com os que estavam à frente e com os que estavam em cima. Com novos e velhos.  Sem medos de ferir este e aquele com os seus apartes cómicos. Chamou, com humorística ternura, "meninos" aos que estavam na mesa.  Falou, além da loucura e da alfabetização, da motivação que é preciso para escrever. Teve verve. Rubem foi na Póvoa uma pessoa e uma personagem, daquelas que fazem falta a um mundo de estantes muitos direitas e de livros muitos arrumadinhos. Sim, nisto não houve Acordo algum. Se Valter Hugo Mãe foi há uns meses ao Brasil para fazer chorar os brasileiros, Rubem Fonseca veio agora a Portugal para nos fazer rir - ele que é descendente de portugueses.  Valeu.
publicado por Nuno Costa Santos às 22:57
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Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012

Ai se eu te pego


António Lobo Antunes disse há uns anos atrás que um tipo se torna escritor quando o seu domínio da escrita coincide com uma experiência de vida da qual este consegue verter uma história digna de ser contada. Esquecendo por momentos que essa opinião faz de mim um analfabeto sem nada para dizer, reconfortado por saber que Lobo Antunes não nos está a ver, vou traçar um paralelismo arriscado e dizer que acontece algo parecido com a beleza feminina. 

Pode falar que eu não ligo,
Agora, amigo,
Eu tô em outra,
Eu tô ficando velha,
Eu tô ficando louca.

Nestas coisas, convém sempre ter a certeza. Por isso, a primeira coisa que fiz antes de escrever sobre mulheres a propósito de Mallu Magalhães foi, até por questões legais, certificar-me de que ela já é mulher. A Wikipedia diz que Mallu nasceu em 1992, e só assim me foi possível escrever este texto. Conheço-a há alguns anos, desde que me foi apresentada como a suposta (e polémica) namorada de 16 anos de Marcelo Camelo, membro dos para mim veneráveis Los Hermanos e autor de um par de belos discos a solo. Mas isso agora não interessa para nada. O que eu quero dizer hoje é que, ainda mais importante do que descobrir Mallu Magalhães, a diva instantânea do vídeo acima, é redescobri-la enquanto mulher. Passo a explicar.


Em cima, à direita, vemos Mallu Magalhães, prestes a terminar o 11º ano. O tipo ao lado dela é o tal Camelo, uma espécie de deus da presciência que, contra todas as evidências, antecipou a transformação que a vida e as canções - ou, se quisermos ser justos/má onda, o marketing - operariam na pequena Mallu. Pois é. Se Mallu menina era amorosa, a mulher é uma ode a esse momento surpreendente e estonteante em que o domínio dos quadris coincide com um olhar digno de ser lançado ao mundo. 


Claro que sim. Eu espero um bocadinho. Perplexem-se à vontade, eu já cá volto.


Nem vem tirar
Meu riso frouxo com algum conselho
Que hoje eu passei batom vermelho,
Eu tenho tido a alegria como dom
Em cada canto eu vejo o lado bom.

Pode falar qu'eu nem ligo,
Agora eu sigo
O meu nariz,
Respiro fundo e canto
Mesmo que um tanto rouca.



E pronto. Isto é o que eu tenho para dizer hoje. Não lhe tirem o riso frouxo, que hoje ela passou batom vermelho. Podem não concordar com Mallu, mas não a censurem por seguir o seu nariz. Ou por se pavonear graciosamente na plenitude do momento surpreendente e estonteante em que o domínio dos quadris e um olhar digno de ser lançado ao mundo coincidem como se o CERN tivesse posto o acelerador de partículas a funcionar. É uma coincidência luminosa, ou nefasta, a de uma mulher plena de faculdades literárias. Como ambos somos maiores de idade, achei que valia a pena registar o facto.

publicado por Vasco Mendonça às 16:39
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Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2012

Para o Reinaldo Moraes

Meu querido Naldo, Rei dos portugais daquém e dálem mar,

 

Estava para aqui a tentar sacar uma croniqueta sobre esse excitante tema que é a política portuguesa e o meu coração a uns milhares de quilómetros de distância. Está contigo a beber uma Brahma geladinha num boteco qualquer aí no Rio de Janeiro. Está nervoso, o cabrão. Será que a minha Portela ganha? Os meus olhos não viajaram com a traidora bomba encarnada, a puta devia ser azul e branca como o mais sagrado estandarte, não vou poder ver os meus irmãos e irmãs da minha escola a desfilar defendendo as minhas cores. Mas não preciso de ver para saber que há um bocadinho de mim em cada passista, há um bocadinho da minha melancolia lusitana na mulata que requebra ao som do enredo, um bocadinho da minha histriónica alma minhota num branquela do bloco.

Pede mais uma cerveja, Reinaldo. Afoga o meu coração para que eu possa esquecer que os meus pés não podem bater ao compasso do samba que se ouve por detrás dum morro. Só mais uma, para que eu possa esquecer que a minha terra é tão grande, tão grande, que não consigo vê-la daqui; que apesar do sol brilhar aqui em Lisboa, sinto-me gelado por não poder estar no local onde o meu coração está.

Até quarta-feira visto-me de azul e branco para não esquecer que pertenço a um mundo que vai de Trás-os-Montes até a Amazónia, que não existe nem Portugal, nem Angola, nem Cabo Verde, nem Brasil, há apenas uma alma grande que viaja dos musseques de Luanda até aos bidonville de Paris passando pelas casinhas brancas alentejanas ou pelas casas de tolerância de São Salvador.  Vai sambando, cantando fado, dançando mornas até que desfalece num bar entre copos de vinho e tragos de aguardente.

E a Portela, Naldo ?   

publicado por Pedro Marques Lopes às 00:46
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Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2012

carnavais

Indigna-me que se tenha acabado com o feriado do Carnaval a pretexto da crise económica. O feriado do Carnaval deveria ter sido abolido simplesmente porque sim. Aliás, a bem da civilização, seria mesmo de considerar abolir o fim-de-semana que precede o Carnaval. Ou todo o mês de Fevereiro, não fosse o Diabo tecê-las.

 

Vejamos: que acontece no Carnaval? Geralmente, machos de todos os bandos aproveitam a deixa para, alegadamente, se vestir de mulher. Haveria com certeza muito a dizer acerca do que espoleta este comportamento, mas quedemo-nos pelo resultado: estas criaturas não ficam parecidas com mulheres. Nos casos melhor sucedidos, parecem o fruto do amor proibido entre o Batatoon e a Belle Dominique.

 

As crianças mascaram-se de bruxas e super-heróis, os pais gastam uma fortuna com fatos que jamais voltarão a ser vestidos e os que não vão na lenga-lenga mandam os filhos para a escola com um daqueles apetrechos que consistem duns óculos de cientista louco, acoplado a um nariz de taberneiro, rematado com um bigode à Toni, traumatizando a criançada até ao fim dos seus dias (sei do que falo, aconteceu-me na segunda ou terceira classe).

 

As mulheres vestem-se de princesa, fada, anjo, qualquer coisa que lhes permitiria uma noite perfeita de romance e sedução se ao menos um dos homens das redondezas não estivesse vestido de travesti.

 

Uns e outros atiram água e adereços mal-cheirosos e dançam ao som das piores canções da História (Como é que é, Sinusite? Quero ouvir: “Eeeeeeeeeehhhhhhh, meu amigo Charlie…”) em sítios adornados com balões que espirrarão saliva desconhecida quando forem rebentados – que serão – e fitas coloridas, ítem produzido sabe-lá onde e com que fim, tão útil como – vamos ver – um rebobinador de dvds.

 

Fora isto, há um estranho clima de guerra entre as 320 localidades que reclamam para elas o título de Carnaval com mais tradição do país. Aí, o festival de horrores atinge os píncaros: dos cabeçudos passeados de ano em ano (as figuras de Cavaco e Soares já devem ter mais Carnavais na espinha do que a Xuxa), estrelas recrutadas em reality-shows mesmo antes de voltarem para a sarjeta acenando do topo de carros alegóricos que fazem uma chaimite parecer um clássico da elegância automóvel e jovens roliçadas seminuas que se saracoteiam entre a cacimça e a pneumonia.

 

À margem, há um grupo de intelectuais que não participa no espectáculo. Diz que não gosta do Carnaval, excepto – atenção – o de Veneza. O Carnaval de Veneza?! Mas alguém saberá o que acontece no Carnaval de Veneza além de a malta se vestir à filme de época e pôr umas máscaras – admito – giras?

 

Por fim, quem souber que responda para esta caixa de comentários: no Carnaval, festejamos exactamente o quê? (respostas do género “a vida” ou “a alegria” serão automaticamente reencaminhadas para o site do Ministério da Saúde) Qual é a efeméride? O acontecimento? A razão? Aonde nasceu isto? Que tem a ver connosco? Por que não celebramos também o dia de acção de graças e o ano novo chinês e a tomada da Bastilha?

 

Era preciso alguma desculpa para acabar com isto?

 

P.S.: De repente, imaginei o Hugo lá no Rio a catequizar a multidão: “Deviam ver como é que a gente faz isto lá em Ovar…”

publicado por Alexandre Borges às 01:26
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Domingo, 19 de Fevereiro de 2012

sonhos de uma vida por viver

Há filmes que não nos largam. Mais do que o filme em si, é a história que “Dreams of a Life” reconstrói que nos põe a matutar, e a história fala de Joyce Vincent Carol, uma mulher de 38 anos que faleceu em 2003, presume-se de causas naturais, e cujo corpo apenas foi encontrado quase três anos mais tarde no seu apartamento londrino. As cartas acumulavam-se no hall de entrada, enquanto na sala a televisão manteve-se ligada ao longo dos anos. Foi descoberta porque tinha vários meses de renda em atraso. Nem a família nem os amigos tinham comunicado o seu desaparecimento.

 

No entanto, esta história foge aos padrões habituais deste tipo de notícias: Joyce Carol não era uma idosa esquecida pela família, não tinha problemas psíquicos, dependência de álcool ou drogas. As pessoas que a conheciam recordam-se dela como alguém cheio de vida e ambiciosa, uma vida social e profissional intensa. Tinha quatro irmãs, que chegaram a contratar um detetive privado para a encontrar. Teve namorados, um grupo de amigos com quem partilhou casas, colegas de trabalho com quem ia beber uma cerveja. Era muito bonita, dizem todos, e imaginavam-na como alguém que tinha concretizado os seus sonhos. Estranhamente, algo em nós não associa a beleza a uma vida triste e solitária.

 

Não explorando a morbidez do tema, o filme pretende sobretudo reconstituir a vida de Joyce Carol, dar uma vida e um nome a alguém que tinha deixado de ser notícia. Alguém que se arriscava a tornar-se um mito urbano.

 

O filme também não aponta dedos a pretensos culpados, apenas expõe a facilidade com que alguém cai no esquecimento de uma cidade. Apesar de vivermos na chamada era da comunicação. Mas essa era está também associada a uma enorme mobilidade – temos a enorme vantagem de mudar facilmente de bairro, de cidade, de país por um novo emprego, uma nova paisagem, uma nova relação. Apesar de termos a oportunidade de conhecer muitas pessoas num novo ambiente e sermos convidados para jantares, cinemas e cervejas a falar sobre a nossa vida, é natural que os laços precisem de tempo para solidificar. Até então, cada um de nós apenas mostra os sorrisos. Tal como no Facebook. Espalhamos no nosso mural as fotografias das férias de daiquiris na mão, não as tristezas de segunda-feira.

 

Essas são reservadas à família e aos amigos. Mas também estes estão por vezes apanhados naquilo que se chama vida. Todos percebemos porque por vezes se adiam telefonemas e marcam encontros para um dia destes, que serão convertidos em meses e por vezes alguns anos. Mas a linha pode tornar-se ténue.

 

No caso de Joyce, provavelmente terá sido também o orgulho que a fez retrair-se. Dos seus últimos anos sabe-se apenas que esteve num refúgio para vítimas de violência doméstica, após ter abandonado o seu último emprego. E a partir daí ter-se-á isolado, se calhar com vergonha da sua nova situação.

 

Uma amiga a viver em Londres há três anos recusou-se a ver o filme. Apesar de conhecer muita gente, também ela teve dificuldade em indicar no emprego a pessoa mais próxima a contactar em caso de urgência. Também por isso o filme não me larga.

 

Eleanor Rigby  died in the church and was buried along with her name

Nobody came

 

All the lonely people, where do they all come from?

All the lonely people, where do they all belong?

 


publicado por Ricardo Correia às 14:51
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Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2012

Dorme, meu pequenino

Percebo bem este rapaz. Também sofro desse que pode ser considerado um dos males maiores na humanidade. Já sofri mais, é verdade, mas ainda posso entrar na categoria, nem que seja por solidariedade e compaixão. Os insones (e os ex-insones, sempre disponíveis para voltar à tribo dos acordados), deviam fazer parte de uma organização secreta. De uma maçonaria de inquietos. Os insones de cada bairro deviam poder encontrar-se todos de madrugada numa sala e falar demoradamente dos seus dramas, dos sonhos que acabaram de ter, dos problemas do universo, do Aimar e do Miguel Relvas.

 

Ser insone não é para meninos, não. Faz pensar na tortura do sono - só que determinada pelo pior dos PIDES, a nossa cabecinha, os nossos nervos e inquietações, algumas delas pouco evidentes. Muitas vezes o insone não percebe por que é insone. Ele até tem a vida resolvida. Aconteceu-lhe ser assim e faz de tudo para não o ser.  Não é muito vulgar encontrar alguém que se gabe de ter insónias, que chegue ao trabalho e diga: "Pessoal, sabem uma coisa? Sou dos piores gajos a dormir lá do bairro!". Não há maior especialista na arte do zapping. Não há melhor crítico de TV de programas obscuros, de documentários sobre inanidades. Não há tipo que leia mais as piores tretas - aqueles anúncios que ninguém lê nos jornais e revistas - do que o insone profissional. O insone já não conta só carneirinhos. Conta até pulgas. E nada.

 

Precisam de ajuda, de companhia. Ninguém se lembra dos insones deste mundo. Onde está o voluntariado para fazer companhia a quem, como o George, se levanta cinco vezes por noite? A Associação Insone Amigo? Gente capaz de ir a casa de gente apijamada que está de olhos abertos quando o resto do prédio sonha que isto da Troika já passou e que voltámos a poder ver as entrevistas do Daniel Oliveira sem ter a palavra "austeridade" a passar no rodapé mental.  Se calhar o insone só precisa de alguém que lhe passe a mão pela cabeça e diga:"Vá, meu pequenino, toca a dormir". E "dãobalalão, cabeça de cão, orelhas de gato, não tem coração". Se calhar é só isso. Não custa nada.

publicado por Nuno Costa Santos às 19:34
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Quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2012

Um melómano confessa-se

melomania

s. f.

Paixão pela música.

 

Segundo a Wikipedia "Melomania é o termo usado para descrever uma paixão exagerada pela música, por vezes atingindo foros de mania. Apesar deste significado, o termo é frequentemente usado de forma elogiosa para descrever um grande apego à música. Neste sentido, Melómano é considerado como sendo um indivíduo amante e conhecedor de música, intérpretes e estilos musicais."

 

Prefiro, contudo, a definição simples do Dicionário Priberam da Língua Portguesa. Para se ser, hoje, um indivíduo amante e conhecedor de música, intérpretes e estilos musicais basta ter uma ligação à internet. A paixão pela música pressupõe uma cultura, um enraizamento quase sublime que advém da fruição da música. O Melómano não é, apenas, aquele que tem um conhecimento enciclopédico mas, sim, aquele que reconhece uma banda sonora da sua vida a cada segundo, a cada passo. Talvez por isso, a novidade é um conceito abstracto para a sua paixão.

 

Não se entende, assim, a novidade pela sua natureza cronológica. Ela está na descoberta de novas dinâmicas da própria vida. Para o Melómano, a novidade é algo sem tempo. Há sempre nos Beatles, nos Massive Attack ou em Chopin uma harmonia que nos escapou. Há sempre uma palavra de Casablancas, de Vinicius ou de Brel que ouvimos dita de um modo absolutamente novo. E todos os dias nos espantamos com esse conjunto de novidades, tornando a obra imortal. A morte física do autor nunca matará a novidade da obra.

 

Por outro lado, nem toda a música contemporânea é, necessariamente, nova. O espectro de influências que define todos os artistas pode ser tão evidente e aborrecido que faz de um tema de 2012 um pano velho. Isto para não dizer o óbvio: nem toda a novidade é boa, por definição.

 

Neste sentido, um DJ não tem de ser um melómano, porque a sua principal preocupação é encontrar sonoridades contemporâneas que não aborreçam o seu público, nas rádios e nas discotecas. Se o Melómano, por sua vez, quiser ser, também, um divulgador, a sua missão já é outra: promover o factor cultural que alimenta a sua paixão e contribuir para o enriquecimento dos outros. Por outras palavras, acrescentar valor.

 

Resta-me dizer que o trabalho criativo de um músico só pode ser novo se for genuíno. Ao obedecer a uma espécie de ditadura da novidade, a sua concentração estará dirigida para um campo exterior, facto este que o limitará. Talvez possamos, mesmo, afirmar que é aqui que está uma das distinções entre arte e entretenimento. Ou talvez tudo isto não passe de uma mera desculpa para sacar gajas.

publicado por jorge c. às 00:04
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Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2012

This is how it goes

dizem que a paixão o conheceu mas hoje vive escondido nuns óculos escuros

 

Al Berto

 

 

 

Ele tinha o coração arrancado da caixa torácica, que é muito pior para a saúde do que ter o coração partido. Ele tinha frio em casa – puta Europa e as suas frentes frias, uma cidade amarrada pelo vento, um apartamento apenas com um radiador que, numa noite de whisky solo em demasia, caíra sobre a carpete, iniciara um churrasco de ácaros, colapsara o electrodoméstico. Por isso, ele tinha frio, mas também tinha frio porque, com um buraco no peito e outro na carpete, estava mais susceptível a ser túnel para correntes de ar.

 

Ele não tinha coração e vestiu um sobretudo, calçou as luvas, saiu para a calçada escorregadia de uma cidade que parecia um banco de nevoeiro, aqui e ali um prédio ou um candeeiro público, o som dos bares e das casa de passe, talvez uma coxa com liga a assomar numa porta, apunhalando a nebulosidade que não parava de se instalar no buraco que ele tinha no peito.

 

Humidade. Ele era um homem cheio de humidade nos cantos e nos recantos, como a casa de uma velha junto ao mar.  

 

Passou perto do rio e as coisas pioraram. Por trás de neblina que tinha sabor de sal e diesel, ouviam-se marinheiros ao estalo com travestis nas ruas com caixotes do lixo tombados e traficantes providenciando droga marada.

 

Fazia tanto frio na cidade e atrás daquele sobretudo, fazia tanto frio que ele levantou o braço para um táxi, procurando o aquecimento e os estofos. Mas já se sabe que por vezes as coisas estão irremediavelmente fodidas e o taxista explicou que o aquecimento se escangalhara há duas horas. Por trás do sobretudo sentiu algo viscoso, não uma dor escorrendo mas uma falta.

    

Ele enfiou a mão dentro do sobretudo, atravessou o corpo, tocou nos estofos. Nada de nada e, no entanto, a rádio tocava When you’re smilling, por Louis Armstrong, The Majestic Years.

 

“Suck my cock”, disse ele para o Universo, numa língua que não era a sua mas que, por ser franca, chegaria aos ouvidos do Buda ou da Mãe Natureza ou do Jezzy Creezy ou de quem fosse responsável pela cena fodida do amor que arranca corações.

 

Ele entrou no aeroporto, comprou uma passagem, sentiu-se como uma mula colombiana de cocaína quando os seguranças pediram que tirasse o sobretudo. Apreenderam o isqueiro que ele trazia no bolso das calças, mas foram indiferentes ao buraco que estava no centro daquele homem que apertava o cinto nas calças, com dificuldade, tal e qual a criança que se debate com os cordões dos ténis.

 

Um espectáculo tão triste como a mulher que ele vira semanas antes, chorando dentro de um carro, no parque de estacionamento de um hospital. Mas ele já tinha a sua dor e, como diz a canção, a dor é minha, a dor não é de mais ninguém.

 

Quando aterrou noutro continente nevava e os táxis eram iguais aos táxis dos filmes. Primeiro caminhou pelas ruas ventosas, jornais voadores despenhavam-se na cara das pessoas, havia muitos homens a beber álcool em garrafas pequenas, enfiadas em sacos de papel, ao mesmo tempo que esfumaçavam beatas e anunciavam o apocalipse.

 

Ele entrou no bairro onde não se ouvia um carro. As árvores, tão brancas de neve, tinham sido copiadas de um livro de banda desenhada japonesa. Ele subiu os degraus e tocou à campainha.

 

Fazia menos frio dentro daquele apartamento. Ela não disse nada. Foi ao frigorífico, afastou os chocolates e o queijo light, tirou o embrulho de papel, algo que se traz de um talho, um pedaço de qualquer coisa. Depois entregou-lhe o embrulho e disse:

 

“Devias ter vindo buscar isto há mais tempo.”

 

Ele abriu o papel melado como se fosse uma bomba. Passara demasiado tempo com aquele buraco. Como seria ter outra vez um coração a bater no peito? Por mais que a pergunta lhe parecesse um título de romance para mulheres mal fornicadas, o seu cinismo não era capaz de vencer a necessidade de sobrevivência. Ele pegou no coração e meteu-o dentro de si, encaixou aurículos, sintonizou ventrículos, apertou-o várias vezes para que voltasse a bombar sangue e calor. Disse:

 

“Já está.”

 

E a cidade rebentou de luz como um fogo-de-artifício, em vez de neve as árvores eram mais verdes que uma selva tropical, havia cães na rua e as crianças andavam de triciclo, pais amavam os filhos e visitavam os progenitores em lares de terceira idade.

 

“Hoje será um bom dia”, disse ele.

 

“Isto está a ficar um pouco piegas”, disse ela.

 

E o coração dele falhou um batimento.

 

Ele abriu o sobretudo. A pulsão dela foi tão poderosa e veloz como a dentada de um bicho: arrancou-lhe o coração outra vez.

Ele saiu para a rua e sentou-se nos degraus. Estavam de volta a neve e o frio. Levantou as golas do sobretudo, pegou num cigarro e, com ele na boca, percebeu que não tinha lume. Ela apareceu na janela e atirou-lhe uma carteira de fósforos. Conseguiu acender o cigarro depois de cinco fósforos e olhou para cima, onde ela lhe dizia adeus.

 

Puxou o fumo e sentiu os pulmões substituindo os prazeres do coração.

 

Talvez regresse, em pouco tempo e com efeitos definitivos, para recuperar aquilo que é seu. 

 

 


publicado por Hugo Gonçalves às 15:21
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Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012

Para o dia de hoje fica esta do Papa

O Pavão

 

E considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor das suas cores; é um luxo imperial.

Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d´água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas.

Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.

Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz do teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico.

 

Rubem Braga

publicado por Pedro Marques Lopes às 00:01
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