Segunda-feira, 31 de Outubro de 2011

isto dos anos e dos dias

Alguns dias atrás, num café de Lisboa, mesa do lado. Ela: “Quantos anos tens?” A outra: “17. Quer dizer… 16.” A primeira, de olhar e tom melancólicos subitamente postos: “Gostava de ter a tua idade…” Pausa dramática. “Eu tenho 21.” E este “21” prolonga-se pesadamente no silêncio, deixando atrás de si um rasto de memórias e remorsos. 21 anos. Jesus. Uma vida. A pobre moça nem sabe como se aguenta de pé. O que foi preciso para chegar aqui – a outra nem pode imaginar. O tormento dos cinco anos que as separam. As voltas ao mundo, os filhos que se criam em cinco longos anos.

Eu, na mesa do lado, tentando não sufocar no pedaço de tosta de salmão acabado de se me enfiar na garganta, e tentando tirar notas para uma futura crónica no sinusite. E pensando: que raio de problema temos com a idade que temos?

A questão tem duas partes. Primeira: o nosso gosto em paternalizar os mais novos, tenham eles menos um ano ou cinquenta. Segunda: a nostalgia que alardeamos da vida que passou, confissão tácita de como e quando falhámos na vida. O encontro das duas partes reduz o problema ao absurdo: se preferimos a idade que algures tivemos, por que paternalizamos quem a tem agora? É, porventura, a nossa histórica tacanhez, jamais curada, a falar: o outro ainda não sofreu como eu, ainda não sabe, ainda não viu nada, não sabe o que o espera, ainda não se desapontou, ainda acha que vai chegar longe, ainda se sente especial, ainda não desistiu de tudo, ainda. Nós somos a fasquia da normalidade. O outro nunca poderá ir além dela. Não nos ínvios caminhos da nossa cabeça.

Copérnico, por vezes, parece nunca ter passado por aqui. Nem Freud, nem Darwin, nem Einstein. Aqui dentro, continuamos convencidos de ser o centro do universo. Um centro falhado, que é ainda mais grave, como se a estrela do nosso sistema solar fosse a desilusão.

Nas nossas manhãs iluminadas pelo pessimismo, temos dificuldade em pôr as coisas em perspectiva. Que atenção dedicaríamos a nós mesmos se nos encontrássemos agora diante de nós dez anos atrás? Por que é que estamos sempre convencidos de já ter vivido tudo? Por que é que os 16 anos e alguns meses da rapariga que os tentou arredondar para 17 devem sentir-se inferiorizados diante das 21 dramáticas primaveras da jovem em frente, bruscamente feita Matusalém-em-roupa-da-Bershka?

Amanhã, é o dia dos meus anos. Não chego lá como o motorista de táxi nem o pintor de casas que sonhei na infância, mas ao menos já não sou o tonto que aos 18 anos achava que ia marcar a literatura.

publicado por Alexandre Borges às 18:24
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Domingo, 30 de Outubro de 2011

Manifesto anti-Halloween

E aqui nos encontramos outra vez, preparados para celebrar entusiasticamente mais uma bonita tradição, tão nossa: o Halloween ou Dia das Bruxas, como alguns preferem dizer para amenizar a estranheza. E a pergunta é: porquê? 

Não que eu tenha algo contra a festa em si, ainda por cima com os alegados antepassados celtas a darem-lhe uma pátina que me agrada. É apenas por ser uma efeméride a martelo, que só acrescenta às vidas dos profissionais da restauração e derivados. Mas para isso já não nos chegava o Carnaval e as escolas de samba da Beira Litoral? Aparentemente o resultado é o mesmo e sempre se pode reclamar uma raiz de originalidade, no caso específico de Torres Vedras.

 

Permitam-me esta breve premissa, antes de iniciarem as diatribes contra o purista e reaccionário de serviço: acho muito bem que toda a gente celebre o que bem lhe apeteça, desde que isso não vá constar no seu cadastro criminal. A origem também me é indiferente. Pessoalmente celebro há muitos anos, por afecto e convicção, o dia de St.Patrick, como se sabe uma festa irlandesa que por via da emigração há muito deixou de ser praticada apenas na Ilha Esmeralda. Mas esta é uma efeméride que não contém outra intenção senão ser uma festa para quem quer e em que a origem está sempre muito marcada. O Halloween – tal como o horroroso Dia de São Valentim – é uma  exportação comercial que querem impingir como cultura popular – ou, pior do que isso, como uma obrigação. Quem tem filhos pequenos já estará sob pressão para arranjar um disfarce tipico do dia de amanhã nos países anglo-saxónicos – mesmo que esteja a viver em Borba ou Vale de Espinho.

 

A pressão comercial passa a ser social e cultural. O que devia ser uma «festa» é uma obrigação: no dia de São Valentim somos obrigados a namorar em restaurantes sobrelotados, no dia 31 de Outubro as criancinhas (e alguns adultos) praticam uma espécie de Carnaval gótico enquanto sugerem  «doçuras ou travessuras». Acredito sinceramente que haja quem se divirta mas para mim faz tanto sentido como no dia 5 de Novembro colocar Portugal a queimar efigies de Guy Fawkes.

 

A verdade é que vai ser dificil parar esta consequência mais triste da globalização. Mas sempre podemos passar a celebrar mais condignamente coisas que nos estão mais perto e desperdiçamos. Por exemplo, em vez de prestar vassalagem a São Valentim, poderíamos ir seduzir, namorar ou casar no dia de Santo António -  em vez de oferecer a este santo o sacrificio do nosso fígado e multidões ébrias só porque sim, como acontece em Lisboa. Nesta busca do mais próximo concedo até as tiritantes mulatas da Mealhada desfilando no Carnaval. Mas tradições de centro comercial, tenham paciência. Quanto a amanhã: eu sei que o Dia de Todos-os –Santos, para além de ser um feriado proposto por uma confissão religiosa, não é o mais exuberante. Mas se querem importar, tragam o Dia de Los Muertos. Eu já o celebrei, e garanto que funciona. Pelo menos aquilo que me lembro.

publicado por Nuno Miguel Guedes às 23:09
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Come back to Camden (já dizia o Morrissey)

Amy Winehouse morreu mesmo ao virar da esquina. Pouco resta dos dias frenéticos em que centenas de fãs em lágrimas acorreram a Camden Square para vígilias e oferendas de cigarros e vodka. Apenas uma tímida e recente mensagem numa placa revela o amor que alguém por ela sentiu. A pacata zona de moradias de três andares limpou os despojos do vendaval mediático, respirou fundo e retomou a rotina abastada num bairro conhecido pelo seu ambiente alternativo. Outros acampamentos – mais politizados, indignados e friorentos – celebram-se agora junto à Catedral de São Paulo e provocam a demissão de cónegos e acaloradas discussões nos programas radiofónicos sobre o que Jesus teria feito perante tal situação. Não sei, mas amanhã tentarei passar por lá para saber.

 

Domingo é dia de fugir às multidões que acorrem ao famoso mercado de Camden, quando a afluência é tal que a estação de metro encerra. O alemão e o italiano dos turistas mistura-se com as mais variadas tribos urbanas em eterna reciclagem geracional e a multietnicidade dos vendedores pragmáticos – paquistaneses a comercializar camisas fluorescentes para abrilhantar discotecas, chineses a vender correntes e botas de cano interminável aos muitos góticos. Continuo espantado com a vitalidade dos góticos, das Doc Martens, do estilo militar, dos punks (eles já diziam que não estavam mortos). Envelhecem, reinventam-se e uma nova geração passa a integrar este clube distinto e cada vez mais tradicional.

 

O mercado de Camden está mais comercial, mais plástico, vendido – ou se calhar já o era na época em que os Blur, os Oasis e os Supergrass se entretinham a fundar a “Britpop” nos pubs da zona, na altura bastante mais decadente, e eu também aqui aterrava durante um InterRail à procura de discos, concertos e do Jarvis Cocker, convencido de que tinha chegado ao centro do mundo. Parece que Morrissey também por aqui vivia nessa altura, um feito que ainda garantia mais misticismo ao bairro.

 

Se calhar por isso nem hesitei quando tive a oportunidade de alugar aqui uma casa, onde me reencontro com os mesmos trintões que arrumaram as Doc Martens no sótão, mas continuam a ouvir a música para esquizofrénicos, segundo a descrição de um pai de um amigo, nos seus iPods (protegidos com capas, para não estragar). Com discrição, claro.

 

Deve ser por isso que o bairro está mais limpinho. Chamam-lhe gentrificação. Ou assim.

 

 

publicado por Ricardo Correia às 01:13
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Sábado, 29 de Outubro de 2011

Rui

Ciúme: uma abordagem prática (III)

 

Certa noite, escreveu Rui: "Só o primeiro choro do bebé é genuíno. Nos seguintes, a experiência vai encurtando o terreno que o instinto leva de avanço. E quando reconhecemos no bebé aquele choro que começa com um atraso subtil ou é interrompido por uma pausa e depois retomado, isto é, um choro que dependeu de uma decisão consciente, impossível de aplicar quando sentimos uma dor insuportavelmente aguda, concluímos que a idade da inocência acabou. Tudo isto acontece antes de o bebé dizer a primeira palavra". Rui não se sentia muito à vontade em destilar do exercício da sua paternidade de divorciado tiradas de psicologia amadora, como a anterior, mas tornara-se um vício. Contemplar o filho não o projectava no futuro, era sobretudo uma forma de se descobrir espiando o passado da sua espécie. Só por isso cada conclusão lhe parecia tão inequívoca e mais uma recordação do que uma descoberta, o que só reforçava a sua vontade de a transformar em regra de vida de enorme relevância para o problema mais premente que tivesse em mãos. 

 

Como perante o choro do bebé, devemos desconfiar do ciúme. Rui chegou a elaborar um teste de polígrafo para despistagem de ciumentos, mas tinha inclinação natural para a academia e o seu empreendedorismo nunca desabrochou em patentes, pelo que apenas há relatos de um questionário da sua autoria, diz-se que com 20 perguntas, que terá circulado entre os seus amigos mais próximos. Com base na sua experiência pessoal, Rui concluiu que na esmagadora maioria dos casos as fundações do seu ciúme revelavam-se frágeis. Nos mais simples e frequentes, o ciúme era uma convenção social interiorizada por reflexo condicionado - uma caricatura a que Rui chamava ciúme cargo, estabelecendo um paralelo com os cultos daquelas tribos que tomam a forma pela substância e pensam que com auscultadores e torres de controlo aéreo de brincar podem trazer de volta os aviões do homem branco que antes alimentaram um qualquer comércio e entretanto desapareceram. Era como se Rui construísse o amor da frente para trás, no calendário (um amor retrospectivo) e na cronologia das sensações (que lhe chegavam pela ordem inversa, fazendo causa do efeito). Porque implicava abdicar dos efeitos retroactivos, não era fácil encaixar tal conclusão, o que talvez explique que o questionário se tenha perdido. E ainda pior era a conclusão extraída dos casos mais complicados e raros: o ciúme como uma manifestação do ciúme fundador - uma doença crónica, portanto - e não como uma sensação genuína. Como sucede a muitos projectos com pretensões científicas, o de Rui pariu um resultado que o senso comum conhecia, embora preferisse ignorar: não há ciúme como o primeiro.

 

Abordagens prévias: 1, 2

 

Série que sucede a Infidelidade: uma abordagem prática

publicado por Vasco M. Barreto às 10:49
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Sexta-feira, 28 de Outubro de 2011

A liberdade precisa de amigos

Como é que hei-de começar isto? Se calhar começo por dizer que pelo menos este cidadão que hoje publica no Sinusite votou no PP nas últimas eleições. Porquê, pergunta, perseguindo a rima, a Zé Heitor da farmácia. Porque achei que o PP poderia moderar os ímpetos ideológicos ultra-liberais de Passos Coelho e companhia - cada vez mais radicais ao longo da campanha. E o que temos neste momento? O PP ausente e caladinho, cúmplice de uma série de medidas imoderadas e justificadas, como sublinhou Pacheco Pereira hoje na "Sábado", por uma espécie de ódio ideológico ao funcionalismo público e àquilo que se considera ser os seus privilégios. Esperava do PP a moderação que não está a dar - num discurso, numa opinião, num gesto. Numa afirmação de identidade, mais próxima da sua raíz democrata cristã.

 

Sei que este é um discurso fora de moda mas acredito que os valores essenciais do cristianismo (eu que até os cruzo com os do budismo, onde hoje até me movo melhor) podem ajudar a humanizar as políticas, sobretudo aquelas que vêm de utopias ideológicas como são as  do liberalismo puro e duro. Continuo na essência liberal, sim, continuo a acreditar que discursos como este, feito por Adolfo Mesquita Nunes, fazem todo o sentido - acho que falta muita iniciativa e responsabilidade pessoais em Portugal em todas as áreas -  mas sinto a necessidade de ver esse discurso de apelo ao esforço de cada um complementado com um sentido de atenção a quem simplesmente está em desequilíbrio financeiro permanente, a quem é prejudicado porque precisa dos dinheiros dos subsídios de Natal e de férias para pagar despesas essenciais. Ou por outra: só a liberdade é sublinhada. Falta o resto.

 

Sei que há gente no PP, a começar por Portas, com todos os seus defeitos, que partilha, pelo menos em teoria, destes valores. Alguns até os exibem demasiado à lapela - com todos os perigos que isso traz. Mas o facto é que não os tenho ouvido. Achei o discurso de Adolfo Mesquita Nunes um discurso com rasgo e novidade por estar centrado nesta ideia de  que a liberdade é um valor que devia ser mais nuclear por aqui. Penso é que lhe faltou essa dimensão de atenção ao outro, do construir ajudando quem não consegue fazê-lo sozinho, de - numa palavra que se gastou mas que ainda faz todo o sentido - solidariedade. Não há maior manifestação de liberalismo, pelo menos como o entendo, do que o voluntariado. Se cada um cuidasse da rua, do melhor da sua rua, dos problemas da sua rua, dos que sofrem na sua rua, teríamos provavelmente um país melhor e mais simpático para se viver.

 

Tudo isto me faz lembrar uma declaração televisiva antiga de Felipe González, que dizia qualquer coisa como: "A esquerda não consegue falar de crescimento e a direita não consegue falar da exclusão". Acredito que há um equilíbrio qualquer que pode ser perseguido e realizado.  E também aqui confesso o meu "ecumenismo". Não me interessa tanto saber se é pela democracia cristã ou se é pela social-democracia que se chega lá. Importante é que na acção política estejam elementos de empatia e compaixão por quem vive um caminho difícil e desprotegido e  precisa, no plano institucional e da comunidade, de protecção, ajuda e incentivo.

publicado por Nuno Costa Santos às 22:10
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Quinta-feira, 27 de Outubro de 2011

A mistura

"You know when you throw a party, you think people will show up and no one will like each other. It's like that with music – parts of your musical psyche have never met other parts. You wonder if you should get them together. I used to think it was good to keep them apart. Now I kind of throw them in and see what happens."

Tom Waits deu, esta semana, uma entrevista ao Guardian, de onde retiro a citação supra.

 

Com a entrevista e a semana chegou, também, Bad as me às lojas e o Outono às nossas vidas. Como diria o outro: “everything in its right place”. Desconheço melhor época que esta para uma vida que está fechada nos discos, à espera de se libertar.

 

Este Outono entrou, porém, de forma um pouco desadequada, abrupta, apesar de extemporânea, dando razão aos fiéis do aquecimento global, arrasando os armários da meia-estação e confundindo o metabolismo da espécie. Cruzaram-se duas estações com características opostas e tudo isso gerou um conjunto de percepções que nunca se tinham encontrado.

 

Assim, o momento mais estranho que talvez tenha vivido em toda a minha existência, depois de não ter encontrado portugueses em Badajoz há dois anos, nem Espanhóis em Elvas, na Páscoa, aconteceu há dias, nessa vasta e inóspita região, assombrada pelo abandono civilizacional e pelo opróbrio – a Margem Sul, mais concretamente, na Costa de Caparica, também conhecida pela Flórida Portuguesa, local de excelência para uma reforma do alto-proletariado, com as suas camisas colonialistas e os cabelos armados, tudo muito amarelo ou em sépia. Mas, um momento singular, dizia, esse em que se confundiram dois símbolos estranhos entre si.

 

Descia a famigerada Rua dos Pescadores, por motivos que eu próprio desconheço, numa destas últimas manhãs de sol. A rua, que de pescadores tem pouco, acolhe o comércio local e o espaço envolvente concentra a grande percentagem de restaurantes. Talvez por isso, e pelo adiantado da hora, o vendedor das castanhas a tenha escolhido para se abancar. Acontece que, por causa do calor e das maravilhas do peixe ultra-congelado, alguns daqueles restaurantes aproveitam as benesses do aquecimento global para despachar as últimas sardinhas. Ficou, assim, no ar a mais improvável das coincidências; uma mistura de cheiros que caracterizam, cada um a seu jeito, o seu próprio tempo.

 

Tal como Tom Waits, somos demasiado bons a tomar as coisas por certas, nos seus devidos lugares, sem misturas. Em rigor, somos todos conservadores. Não damos muita oportunidade à fusão porque gostamos de ter a certeza do tempo, das mudanças de guarda-roupa, da fruta da época. Não ouvimos o próprio Waits no pico do Verão, o Anel dos Nibelungos de manhã ou a Tarde em Itapoã do Vinicius no dia de Natal. Só porque não faz sentido; não casa, como se diria na mais banal das mesas de dominó. Sentimos um desconforto antropológico, um embaraço entre a natureza e a própria roupa com que a fomos vestindo. Estranhamos, em suma, a oportunidade de juntar o melhor de dois mundos, de fazer sardinhas com castanhas – a nouvelle cuisine das estações.

publicado por jorge c. às 10:05
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Quarta-feira, 26 de Outubro de 2011

Santíssima trindade sob a influência do calor

 

 

 

 

Escreve aí no teu bloquinho a minha história. Há coisas que precisam ser ditas e gente jovem para impressionar. Tu metes isto num blog ou num jornal? Podes ligar o gravadorzinho. Depois manda-me o ficheiro de som para guardar nos meus arquivos. Ontem esteve cá a Rolling Stone Brasil e para a semana vou ao Jô Soares. Já visitaste S. Paulo? Ias gostar. E já andaste de helicóptero? Bebes dry martinis? Querias ser tão bem sucedido como eu?

 

Estás pronto?

 

Eu tinha chegado ao Rio de Janeiro com a crise a morder-me os calcanhares. Em Portugal não tinha trabalho, voltei a viver com os meus pais, a minha namorada emigrou para Londres e ao fim de uns meses mandou-me um email a dizer que tinha conhecido uma pessoa e que cenas à distância só nos filmes.

 

Soube que havia aqui emprego e apanhei o avião. Mas as coisas pioraram antes de melhorar. Dividia casa com Wilson, um rockabilly que tomava speed e fazia versões de Sinatra na sua guitarra heavy metal. O apartamento mantinha-se em bom estado porque, por vezes, depois de tomar um speed, ele se punha a fazer a faxina em fast forward enquanto eu espiava o Facebook da galdéria londrina. Fiz uns biscates como designer gráfico e quando o meu pai telefonou e lhe disse:

 

“Ando a fazer uns bicos para me safar.”

 

Tive de explicar que aqui “bicos” são biscates. Entre nós esta historieta tem graça, ficava bem numa página de revista. Podes usar. Mas em algum momento o meu pai visualizou a imagem do filho a soprar na gaita de outro homem. E isso não tem piada nenhuma.

 

Em frente.

 

Eram tempos de desalento e chovia muito. Um dia o Wilson entrou no meu quarto e disse: “Portuga, quero que você conheça um amigão do peito.” Enchemos a cara de cachaça e fumámos tudo. Eu e o Wilson, porque o convidado, The Show Man, um gadelhudo de túnica, com cara de último dos moicanos, não intoxicava o corpo seco e musculado de mestre de kung fu.

The Show Man vendia sanduíches vegetarianas na praia, dava seminários de pinanço tântrico e tinha máximas pouco originais para todas as ocasiões.

 

“Escuta o que o teu corpo te segreda.”

 

Eu não ouvia nada a não ser o zumbido da minha consciência alterada por substâncias várias. Pode ter sido da moca, mas o momento foi místico. Wilson via porno no computador, eu acendia um baseado e The Show Man comia melancia. Levantou um dedo e repetiu várias vezes, criando um mantra:

 

“Maconha Sexo Melancia.”

“Maconha Sexo Melancia.”

“Maconha Sexo Melancia.”

 

Escuta, eu nem sou muito espiritual, mas uma pessoa chega a esta terra e sente a força dos morros e da selva e do bafo verde. Fosse o que fosse, aquele mantra mudou a minha vida.

 

No dia seguinte acordei muito cedo. Fui dar um mergulho e lutar contra as ondas. É o que te digo, há aqui uma cena marada, não é por acaso que há terreiros, pulseirinhas do Bonfim e igrejas em todas as esquinas. Já reparaste na quantidade de autocolantes (eles dizem adesivo) a favor de Jesus Cristo colados em quiosques, portas de barracos e tabliers de taxistas? Há muita gente a explorar a cena mística. É um grande negócio. Maior do que o meu.  

 

Mas adiante, fosse o que fosse, tive uma visão. Pus o plano em marcha. Primeiro tinha de testar o produto. Pedi erva ao Wilson, combinei um chope com uma amiga gótica do Wilson e pus a melancia cortada em cubos – que o Wilson tinha comprado – dentro do frigorífico.

 

Já estiveste com uma gótica? Pois, eu também gostava de dizer que tudo começou com a prima mais jovenzinha da Malu Mader, mas foi com uma gótica que testei o produto. No entanto, faça-se justiça: ela ficava muito melhor nua do que vestida.

 

Maconha.

 

Fumámos um, ligámos as colunas ao computador, começámos a ouvir os instrumentos musicais com mais precisão, percebemos a sensibilidade apurada da pele, o aquecimento dos músculos, a doce tesão do fumo espalhando-se no sangue.

 

Sexo

Desapertámos botões e forçámos as costuras da roupa, beijámo-nos como se fosse uma viagem numa nave espacial, fornicámos tresloucadamente, depressa e devagar, mais beijos na boca e mãos amarradas.

 

Melancia

Quando os corpos regressaram à calma, o peito arfando e a cabeça num lugar qualquer, um lugar mais leve, então levantei-me e fui buscar a melancia: a boca ficou fresca, os olhos reagiram, a polpa desfez-se na língua e activou de novo o sangue. Estava fechada a minha peça magistral.

 

Maconha Sexo Melancia.

 

Experimentei com outras mulheres antes de fechar um plano de negócio. Projectei workshops, apresentações na televisão, um livro, claro, centros de atendimento espalhados por todo o país, mais tarde pelo mundo, uma rede de pessoas que seguiriam a santíssima trindade do self help para a felicidade.

 

Maconha Sexo Melancia

 

Dois anos mais tarde: todas as minhas previsões foram cumpridas. Sou uma história de sucesso, o português que deu certo no sonho brasileiro. Daqui a cem anos haverão de falar de nós. 

publicado por Hugo Gonçalves às 15:25
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Armando e Tobias

Ciúme: uma abordagem prática (II)

 

As histórias não precisam de ser verdadeiras para serem eficazes. Se, ao contrário do que se conta, Garrincha nunca tratou todos os defesas por "João", a biografia do craque estava sobre a mesa de cabeceira de Armando no dia em que ele teve a ideia de passar secretamente a chamar "Tobias" a todos os homens que tomaram o lugar que há não mais de 5 anos havia sido o seu. Esse foi o primeiro momento. No segundo, Tobias emancipou-se, ganhando a biografia de um bom heterónimo, mas também a autonomia do amigo imaginário. Calvin inventou Hobbes de um tigre de pelúcia? Primário.  Armando materializou Tobias a partir do nada, com o toque de Deus - que é também o das crianças verdadeiras, embora ele tivesse 32 anos. Em rigor, Tobias nunca serviu para vencer a solidão. Armando tinha amigos e namoradas q.b. Na prática, Tobias era um assassino a soldo conceptual, que atava a lembrança deles a um bloco de cimento, afundando-a nas profundezas da memória de Armando, permitindo-lhe assim alcançar a tal condição supra-humana, quase um cúmulo de civilidade para exibir como uma insígnia, de ficar "amigo de todas antigas namoradas". Não deixava de ser um amigo irritante, recorrentemente repreendido por elas, em regra por telefone, na ressaca do encontro - "Armando, és incrível. Passámos férias a quatro este Verão, mas preciso de te perguntar isto: tu sabes como se chama o meu marido?" Armando desfazia-se em desculpas, que estava cansado e com problemas de memória. Depois lá arriscava, protegendo o seu amigo: "João?"

 

Abordagens prévias: 1

 

Série que sucede a Infidelidade: uma abordagem prática

publicado por Vasco M. Barreto às 14:56
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E se o Governo fosse uma equipa de futebol?

Comecemos então.

 

 

Pedro Passos Coelho – Roberto

 

Começamos com o Primeiro Ministro e um guarda-redes cujo melhor elogio recebido em Portugal foi o de jogar bem com os pés. Pedro Passos Coelho é o Roberto deste plantel: o PM quer acreditar que os milhões de votos que deram por ele são de gente que ainda confia na sua governação; acredita que o mérito do seu trabalho acabará por vir ao de cima, mas até agora notabilizou-se por ir buscar bolas ao fundo da baliza. Acredita que a economia vai crescer 3,5% ao ano, acredita que Portugal não é a Grécia, sabe de fonte segura que as agências de rating vão cair na realidade, assegura que o Pai Natal parte da Lapónia todos os anos, e provavelmente espera que os seus três caniches vivam para sempre.

 

 

Vítor Gaspar – Xavi Hernandez

 

O Ministro das Finanças é o elemento mais cerebral do actual Governo, e aquele que pauta naturalmente o jogo de toda a equipa. Xavi Hernandez, seu paralelo futebolístico, é o pai do tiki-taka, um modelo de jogo que enerva o adversário e acaba por adormecê-lo através de uma eficaz circulação de bola, seguida de movimentos de ruptura absolutamente letais. Já Vítor Gaspar é adepto do hara kiri, um estilo de suicídio que fará deste governo o pior da história da democracia portuguesa.

 

 

Paulo Portas – Freddy Adu

 

Depois de umas habilidades num futebol de outro campeonato, Freddy Adu deu por si em apuros quando o hype sem fundamento o levou a pisar alguns dos relvados mais importantes da Europa, e outros menos honrosos. Com o fim da viagem, viria também o reconhecimento da inaptidão e o retorno do pequeno trota-mundos a casa. Infelizmente para os portugueses, também o Ministro dos Negócios Estrangeiros há-de regressar à base.

 

 

José Pedro Aguiar Branco – Jorge Ribeiro

 

Deve ser difícil chegar ao Bairro da Boavista e ser “o irmão do Maniche”, o que não ganhou uma Liga dos Campeões, foi dispensado do Benfica e é hoje um fiel sucessor de laterais esquerdos como Nelo, Caetano ou Quim Berto. O ministro José Pedro Aguiar Branco, coroado com 3,61% dos votos nas últimas eleições do PSD, encontrou em si o amor fraterno aos colegas de partido para pôr de lado as divergências de base e juntar-se à solução de unidade capaz de tornar o ministério da Defesa numa estrutura que não faça dois gajos virarem-se um para o outro no café e perguntarem: “mas p’ra que é que serve aquela merda?”. Até agora, está a falhar. É o único ministro que tem direito a ser tratado por 4 nomes, até porque não é major nem coronel de coisa nenhuma.

 

 

Miguel Macedo – João Moutinho

 

Se tivesse ardido muita mata no último Verão, seria fácil comparar Miguel Macedo a Mario Balotelli, o mal amado de Manchester que há uns dias atrás chamou os bombeiros a sua casa depois de lhe ter pegado fogo a brincar com pirotecnia. Felizmente, não é esse o caso, portanto fiz-me valer da recente declaração auto-vitimizadora do Ministro da Administração Interna em que este abdica de um estranho subsídio de alojamento (que daria para pagar 3 RSIs ou, no caso do Ministro, cerca de 28 bifes no XL). A forma como "abdicou de um direito" fez lembrar a sequência de contorções faciais que João Moutinho faz quando alguém lhe toca dentro de campo. Primeiro, age como se tivesse uma fractura exposta. A seguir, choraminga junto do árbitro. Coitadinhos.

 

 

Paula Teixeira da Cruz - Geraldo Alves

 

Geraldo, hoje um competente e pacato assalariado do AEK de Atenas, é irmão de Bruno Alves. Formou-se no Benfica e foi em tempos aquilo a que na gíria se chama um sarrafeiro do caraças (Bruno Alves deve muito do que sabe ao seu mano). Para quem não acompanhou o início de carreira de Geraldo, imaginem um centro-campista capaz de guardar dentro de si todas as injustiças do mundo, mas apenas capaz de as resolver com entradas a pés juntos. Foi um pouco assim a chegada de Paula Teixeira da Cruz ao Governo, mas, como Geraldo Alves, também a ministra se tem vindo a acalmar, caminhando vagarosamente para a única reforma que parece estar ao seu alcance: a sua.

 

 

Pedro Mota Soares – Franco Baresi

 

Franco Baresi, lendário jogador italiano, construiu toda a sua carreira jogando a líbero. O que tem isso a ver com Pedro Mota Soares? É tão provável encontrar um líbero no futebol moderno como identificar solidariedade e segurança social no ministério com o mesmo nome. Pedro Mota Soares é portanto o líbero deste governo, ocupante inglório de um cargo que, se o CDS mandasse realmente nisto, faria dele o Ministro do Combate à Preguiça Popular e da FlexInsegurança.

 

 

Álvaro Santos Pereira – Paulo Futre

 

Álvaro e Paulo. Universidade de Vancouver, Escola da Vida do Montijo. Dois homens, dois trajectos, a mesma convicção: vai vir charters, ou, no caso do Álvaro, empregos. Enquanto Futre vive confortavelmente na bolha que é o seu magnífico ego, “o Álvaro” parece uma criança obrigada a participar no teatro da escola. Esqueceu-se das falas, transpira por todos os lados e a coisa já só se endireita se alguém pegar na deixa e continuar a história sem ele.

 

 

Assunção Cristas – César Peixoto

 

Ninguém sabe explicar como é que ambos foram parar a clubes grandes, mas eles lá estão. A César Peixoto podemos gabar, no máximo, o facto de ser o melhor defesa-esquerdo metrossexual do futebol português. Assunção Cristas, por seu lado, ficará para a história por uma irrelevância do mesmo calibre, como mentora de um ministério da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território sem gravatas. Diz-se que Deus está nos detalhes, mas isto, até para alguém religioso como a ministra, é levar o chavão longe demais.

 

 

Paulo Macedo – Zlatko Zahovic

 

Após uma passagem profícua pelo F.C. Porto, o mago Zahovic rendeu-se à economia de mercado e foi até Valência em busca de pesetas. Pouco tempo depois, regressaria a Portugal para abrilhantar o deserto de ideias que era o Benfica daquele tempo. Um pouco como Paulo Macedo, antigo Director Geral dos Impostos, cargo que abandonou em ombros para uma aventura na banca, de onde saiu em Junho para repensar o jogo do Governo na área da saúde. Busca ainda entrosamento, mas tem procurado jogar em futebol directo – directo ao bolso dos utentes do SNS.

 

 

Nuno Crato – Madjer

 

Esqueçam o Madjer do calcanhar de Viena. Refiro-me a outro Madjer, futebolista de praia, o mesmo que há alguns anos atrás estagiou durante 2 dias com o plantel de futebol de onze do Vitória de Guimarães. Desistiu da ideia quando percebeu que o campo era demasiado grande e que não dava para fazer pontapés de bicicleta com a mesma facilidade. O Ministro da Educação e Ciência já esteve mais longe de chegar à mesma conclusão.


O empresário/suplente de luxo/treinador/adepto/guarda abel 

 

Miguel Relvas – Jorge Mendes

 

O Ministro dos Assuntos Parlamentares não é bem um ministro. Em linguagem moderna, podemos dizer que é um connector. Mas é mais do que isso. É também um fixer, uma espécie de Michael Clayton com menos 10 cms, mais 10 kgs, e muito menos tempo para lidar com questiúnculas éticas. Se fosse futebolista, deixem-me cá ver, seria George Weah, o que partiu o nariz a Jorge Costa, foi suspenso por 6 jogos e recebeu o prémio fair play no fim da mesma época. Como não é futebolista, olhemos para ele como o empreendedor-sombra do actual ciclo governativo. O Governo é a sua Gestifute; o mundo uma complexa rede de relações para gerir. E o resto é conversa – sempre ao telemóvel, conforme se vê.

 

Entretanto, ocorreu-me comparar Carlos Moedas ao Paulinho das toalhas, mas acho que já chega por hoje.

publicado por Vasco Mendonça às 10:41
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Terça-feira, 25 de Outubro de 2011

A visita do casal

Reli isto do Rubem Braga e não consegui pensar em rigorosamente mais nada. Juro que não foi preguiça nem falta de tempo.

 

Um casal de amigos vem me visitar. Vejo que sobem lentamente a rua. Certamente ainda não me viram, pois a luz do meu quarto está apagada.

É uma quarta-feira de abril. Com certeza acabaram de jantar, ficaram à toa, e depois disseram: vamos passar pela casa do Rubem? É, podemos dar uma passadinha lá. Talvez venham apenas fazer hora para a última sessão de cinema. De qualquer modo, vieram. E me agrada que tenham vindo. Da-me prazer vê-los assim subindo a rua vazia e saber que vêm me visitar.

Penso um instante nos dois; refaço a imagem um pouco distraída que faço de cada um. Sei há quantos anos são casados, e como vivem. A gente sempre sabe, de um casal de amigos, um pouco mais do que cada um dos membros do casal imagina. Como toda gente, já fui amigo de casais que se separaram. É tão triste. É penoso e incômodo, porque então a gente tem de passar a considerar cada um em separado – e cada um fica sem uma parte de sua própria realidade. A realidade, para nós, eram dois, não apenas no que os unia, como ainda no que os separava quando juntos. Havia um casal; quando deixa de haver, passamos a considerar cada um, secretamente, como se estivesse com uma espécie de luto. Preferimos que vivam mal, porém juntos; é mais cômodo para nós. Que briguem e não se compreendam, e não mais se amem e se traiam; mas não deixem de ser um casal, pois é assim que eles existem para nós. Ficam ligeiramente absurdos sendo duas pessoas.

Como quase todo casal, esse que vem me visitar já andou querendo se separar. Pois ali estão os dois juntos. Ele com seu passo largo e um pouco melancólico, a pensar suas coisas; ela com aquele vestido branco, o conhecido que “me engorda um pouco, chi, meu Deus, estou vendo a hora que preciso comprar esse livro Coma e Emagreça, meu marido vive me chamando de bola de sebo, você acha, Rubem?".

Eu gosto do vestido. Quanto a ela própria, eu já a conheço tanto, nesta longa amizade, em seus encantos e em seus defeitos, que não me lembro de considerar se em conjunto é bonita ou não, e tenho uma leve surpresa sempre que ouço alguma opinião de uma pessoa estranha; não uso imaginar qual seria minha impressão se a visse agora pela primeira vez. “Ele diz que eu tenho corpo de mulata, você acha, Rubem? Diz que quando engordo minha gordura vem toda parar aqui" – e passa as mãos nas ancas, rindo. “Nesse negócio de corpo de mulata você deve mesmo consultar o Rubem, mulher.” Um gosta de mexer com o outro falando comigo. “Você já reparou nessa camisa dele? Fale francamente, você tinha coragem de sair na rua com uma camisa assim?"

Penso essas bobagens em um segundo, enquanto eles se aproximam da minha casa. Na tarde que vai anoitecendo tem alguma coisa tocante esse casal que anda em silêncio na rua vazia; e eu sou grato a ambos por me visitar. Estou meio comovido.

A campainha bate. Acendo a luz e vou lhes abrir a porta e também discretamente, o coração. “Quase que não batemos, vimos a luz apagada. O que é que você faz aí no escuro?"

Digo que nada, às vezes gosto de ficar no escuro. “Eu não disse que ele era um morcegão?"

Sou um morcegão cordial; trago um conhaque para ele e um vinho do Porto para ela.

 

 Do Rubem Braga

publicado por Pedro Marques Lopes às 16:11
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