Terça-feira, 31 de Maio de 2011

Português Suave revisited

Gostava do Português Suave. Gostava da embalagem azul e branca às risquinhas fininhas com o padrão dos descobrimentos no meio. Gostava dos cigarros pequeninos que se fumam com a mão em concha como se estivéssemos a esconder o vicio. Gostava de cuspir os pedacinhos de tabaco que fogem para a língua, lembravam-me as coisas boas e o bocadinho de badalhoquice sempre associado a elas. Cigarro de poeta, sem filtro, a queimar os lábios como devem ser as palavras.

 

Já não os fumo há muito tempo, nem sei sequer se ainda se vendem. Troquei-os por uns cigarros internacionais, daqueles à venda na D. Irene aqui da esquina ou no café do sr. Mohamed perto da casa do diabo mais velho.  Cigarros cujo único atributo é aplacarem o vício, como o Macdonalds mata a fome ou a Coca-Cola mata a sede.

Há uns anos, quando ia para algum lado para lá do Marão, levava sempre um volume comigo, mesmo já não os fumando habitualmente.

Achava que não havia nada mais português, nada que me lembrasse mais aquilo que nunca deixarei de ser: português.  O bacalhau, o pastel de nata, a bica são  símbolos de Portugal mas não têm nada a ver com a nossa alma. São demasiado intensos.  

Pequenito; discreto; apurador de palavras escritas, causador de pigarro e rouquidão, mas suave. Como nós, Portugueses Suaves.

 

Andam-nos a vender, há demasiado tempo, a conversa de que temos de ser mais agressivos, mais assertivos, mais duros. Os tempos modernos não estão para suavidade, para discrição, para poesia, dizem-nos. É a época da confrontação, do nós ou eles, da prosa militante.   

Querem-nos tirar a alma, querem-nos mudar, querem que sejamos alemães, ou suecos ou a senhora que os deu à luz, é o que é. Querem-nos Camelos ou Marlboros. Têm conseguido, e é essa a nossa desgraça.

“Pode alguém ser quem não é?”, cantava o Sérgio Godinho. Mesmo que se pudesse, para quê?  A gente vai andando, umas vezes melhor outras pior, mas  chegamos até aqui. Velhinhos de mais de 1850 anos, é certo, mas quem se aguentou melhor que nós? Quantos foram, quantos? Ninguém. Quem tem mais histórias para contar do que nós? Quem andou pelo mundo inteiro e nunca se perdeu?

Pois claro, passado. E que somos nós todos, eles e nós, se não passado, se não memória?

Nós fomos construindo a nossa memória, os nossos sonhos, devagar, como arrancamos com cuidado o plástico do maço de portugueses suaves, como gentilmente descolamos o selo e como tiramos o cigarro. Discretamente, acendemo-lo e deixamos que o fumo inunde, sem pressas, os nossos pulmões. Temos tempo, todo o tempo do mundo. Nós sabemos que as coisas levam anos, décadas, gerações, séculos. Nós ainda cá estamos e estamos para durar. O tempo prova-o. Portugueses suaves e eternos.

publicado por Pedro Marques Lopes às 00:04
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Segunda-feira, 30 de Maio de 2011

a vitória de ser eu

Chegámos a este ponto de não acreditar em nada e que fizemos? Descobrimos, entediados, que não valia a pena viver por coisa nenhuma. Nada era digno do nosso sacrifício. Nem a religião nem a política, nem a arte nem o trabalho. O patrão nunca paga o que merecemos, o mundo não compreende o nosso talento, os líderes apenas querem governar-se, Deus é conversa de velha tia da aldeia que não percebe nada. Com toda a nossa esperteza, lucidez e cultura de viagens low-cost e livros dos tops, chegámos a este zénite intelectual onde pairamos, soberbamente, sobre o rebanho de mortais que, todos os dias, martirizado e iludido, cruza as ruas. Que sorte a nossa. Que bênção. Que mérito extraordinário este de termos nascido com um olho e um cérebro em terra de cegos e simplórios.

Mas, agora, que fazer a todo este genial niilismo? Dá boas frases para dizer em jantares, mas, ao segundo, esgota-se o assunto. Poderíamos fazer uma seita, mas também não acreditamos nelas. Procuramos uma alma-gémea que pense exactamente como nós, mas, quando encontramos uma, achamo-la terrivelmente depressiva. Arrisca-se a acabar em suicídio colectivo e, para isso, mais valia a seita. Sempre se fazia a coisa em grande.

É nesse momento que a grande epifania se desvela diante de nós: não há Deus nem Estado nem amor nem carreira, mas resto eu. Eu existo. Eu sou real.

Então, começamos a viver, finalmente, para o grande projecto: nós mesmos. Espalhamos fotografias nossas pela web, partilhamos com o mundo os nossos gostos requintados, alardeamos opiniões sobre tudo, relatamos cada passo dos nossos dias, filmamos todos os eventos onde que nos dignamos comparecer, fotografamo-nos obsessivamente junto a monumentos, celebridades, vestidos de pára-quedista no dia em que fomos desfrutar da experiência a-vida-é-bela que nos ofereceram pelos anos, et cetera, et cetera, cetera. Para não falar já desses poucos de nós, insignes artistas plásticos, que esborratam assinaturas pela cidade, cachorro marcando território, esquecendo candidamente que uma assinatura se deve inscrever debaixo de uma obra e que a obra não está lá porque a obra, é claro, são eles mesmos, criaturas especiais e únicas capazes de respirar e defecar.

E tudo porque precisamos de provar que vivemos, que existimos, que estivemos aqui, mesmo que o mundo nunca tenha dado por nada.

A angústia que nos move é a mesma de crentes e filósofos, grandes artistas e estadistas: salvar-nos da morte, esbracejar contra a insignificância, provar, antes da putrefacção, que fomos de maior interesse que um pombo ou erva daninha de berma de estrada.

Agora, que alguém que tenha morrido pela paz mereça mais reconhecimento do que nós que passámos a vida a olharmo-nos ao espelho é que é duma injustiça sem nome.

Mundo de ignorantes. Nunca compreenderão.

publicado por Alexandre Borges às 13:46
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Domingo, 29 de Maio de 2011

Dos que nos amam

Chegam normalmente por esta altura, aproveitando a que costumava ser uma doce transição entreo clima ameno lisboeta para a subida estival das temperaturas. Vêm de longe e de muitos lados: Itália, Grécia, Sérvia, Croácia, Brasil, México, Japão. Em comum têm um amor muito específico, uma paixão assolapada e à antiga, que parece tão intensa como intrigante: adoram Portugal.

 

Não se enganem: esta gente não gosta do tempo que faz, das nossas ricas praias, do fado, das pessoas, do belo peixinho. Gostam de tudo. Gostam de nós. Pior ainda: sabem porquê. Para um português isto é um fenómeno que dá que pensar: é realmente fácil gostar de Portugal e das suas paisagens, das gentes que exageram na hospitalidade sobretudo se for realtiva a  estrangeiros. Este gostar é um estado de paixão transitória, que mal se vê dentro do avião que os leva de regresso aos seus países de destino, se transforma numa nostalgia inofensiva e fotografias para colocar no Facebook.

 

Esta gente é diferente, garanto-vos. Voltam. Todos os anos, sempre que podem. Sei do que falo, porque conheço um grupo destes apaixonados, com quem irei estar para o próximo mês.Há anos que viajam para Portugal. Quando podem, várias vezes por ano. É verdade que foi o amor ao fado  - e aos Madredeus  - que os juntou. Mas uma coisa levou à outra e agora apaixonaram-se por um país inteiro. Tudo lhes parece novo, belo e verdadeiro, como se sempre fosse a primeira vez. Emocionam-se com as pedras da calçada, com um poema bem cantado. Como o conhecimento ajuda o amor, são mais sábios e conhecedores da história portuguesa do que os próprios nativos. Várias vezes fui surpreendido com factos ou curiosidades que apenas se não fosse de Portugal me poderia interessar.

 

Porque nós sofremos do antigo atavismo de dizer mal do que está mal e pior do que está bem. Vem de trás este mau estar connosco próprios. Por vezes ele é bem expresso e pode até transformar-se em arte: lembro-me de O'Neill ou de alguns textos de Ramalho Ortigão. Outras vezes é pura maledicência de bairro, o pior dos paroquialismos que é o de ficar quieto à janela à espera de ver quem passa para baixinho tecer comentários maldosos.

 

Eu sei que há tanta coisa má neste país, como haverá noutros. Muitas vezes tento explicar a minha indignação a estes meus amigos apaixonados, sobretudo agora em que os nossos dias andam mais carregados. De nada serve. Eles, como Camões previu, transformaram-se já na «cousa amada» e são completamente inflexiveis na sua paixão, apresentando incentivos, factos e sentimentos que sustentam o seu estado de graça.

 

Parece que agora os pequenos videos que afagam o ego colectivo – como o célebre video da Finlândia  - começam a estar na moda. Ali nos exaltamos, ali nos incentivamos. É simpático, mas perdoem-me, cheira-me sempre um pouco a bazófia. Por mim prefiro estes momentos com os verdadeiros amantes de Portugal. É com eles que aprendo e se tiver sorte, muita sorte, talvez possa reaver, nem que seja por um segundo, esse olhar límpido e deslumbrado das crianças que podem amar sempre em bruto. Quero reaprender a ser turista no meu país

publicado por Nuno Miguel Guedes às 22:42
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Olhem, eu desisto.

Como é habitual quando tenho que escrever qualquer coisa e antes escolher um tema, passei os últimos minutos a olhar para um ponto qualquer aqui em casa na esperança de encontrar assunto. Hoje, o alvo da minha atenção foi uma prateleira cheia de livros que li ou planeio ler. Os temas são os mais variados. Vejo ali o Alain de Botton estacionado ao lado do Roberto Bolaño, que por sua vez divide poeira com o Andrew Ross Sorkin e o G.K. Chesterton. Consigo explicar-vos como é que estes gajos vieram todos aqui parar (basicamente influência deste ou daquele tipo que aparenta saber mais do que eu, e são muitos, quase todos), mas não vos sei dizer o que é que estes livros acrescentaram à minha vida, para além de encherem as prateleiras cá de casa. Podem ter-me ajudado a raciocinar durante uns minutos, talvez a escrever um pouco melhor, mas nenhum deles me deu mais do que algumas horas de entretenimento e muitos momentos de tédio enquanto o respectivo autor não chegava a um corolário qualquer. Não trouxe de lá nada a não ser a consciência de que pouco ou nada absorvo, mesmo tendo acesso privilegiado a muita coisa (por comparação, por exemplo, com um labrego qualquer que não sabe que o é). Nem grande distracção, nem apaziguamento. Geralmente, chego ao fim com a certeza de que não percebi o objectivo do autor, a não ser num parágrafo ou noutro, mas percebi desde cedo que ler aquilo não ia mudar nada em mim ou no mundo. É assim com quase tudo.

 

A coisa mais relevante que retirei do livro do Alain de Botton sobre o Proust foi o comprimento de uma frase do gajo, um apontamento que já usei vezes demais em conversas mundanas. O Bolaño demora 10 páginas a dizer alguma coisa memorável. Quando chego ao fim de um desses sprints, ainda tento fingir que percebi o que ele estava a fazer com todos os seus recursos literários, como se também eu fosse escritor e só pessoas como eu pudessem perceber realmente o que está ali em causa. Não sou, e não percebi. Mais uma vez, acabo por assumir que dali não levo grande coisa a não ser um “ok, então era isto que querias dizer. próximo capítulo. falta muito para chegarmos?”. Foi assim com o Detectives Selvagens, e posso dizer que regressei da América Latina igualzinho a mim mesmo. 

 

O Andrew Ross Sorkin explicou-me o que uma cambada de pulhas bem colocados em Wall Street andou a fazer durante décadas, mas, e depois? Um gajo fica com a sensação de que sabe um bocadinho mais do que os outros sobre aquela merda, mas não se lembra de metade das coisas que leu e vai continuar a não saber explicar à malta do café o que são credit default swaps. O Chesterton diz coisas muito bonitas sobre a religião e a loucura, mas às tantas um gajo está a ler aquilo e a pensar que aquela merda, ao nível dos valores, é uma espécie de língua morta. Não trouxe de lá uma única ideia que me ajude a não insultar taxistas no trânsito, e não há-de ser por causa dele que volto a entrar numa igreja. Vou responder ao Chesterton como se fosse um amigo: meu, podes ser bué citável, mas ainda não foi desta. Como dizia o Burrell, "It's Baltmore, gentlemen, the Gods will not save you." Não pensem que acabei me contradizer com esta citação saída do The Wire, uma série sobre pretos altamente sobrevalorizada porque, pronto, tem uma consciência social e por isso justifica a nossa visão pretensamente justa das coisas, quer acreditemos na espécie humana ou achemos que o ser humano é uma merda. Não se enganem, dizia eu, porque acabei de desencantar a tirada no meu newsfeed do Facebook. Não fazia ideia de que o Burrell tinha dito esta merda e na altura em que vi a série não achei que fosse assim tão importante. No entanto, nesta era do conhecimento pronto a exibir, achei que vinha mesmo a calhar. Chesterton e The Wire num só parágrafo. Qualquer dia sou o Rogério Casanova.  

 

Faço 30 anos daqui a 1 mês e ainda não percebi o que é que andamos todos aqui a fazer, a não ser por via das coisas imediatas e da satisfação que estas nos dão. Cada vez tenho menos capacidade para atentar nos problemas da vida que precisam de um diagnóstico aturado, de uma estratégia planificada ou de uma resolução gradual. De um interesse duradouro, em suma. De profunda reflexão - cruzes credo. A não ser que me paguem para isso. De resto, bardamerda. Faz mais sentido para mim que um gajo assuma que o grande objectivo da sua vida é beber um café e fumar um cigarro todos os dias ao acordar, até ao fim dos seus dias, do que um gajo acreditar que será por via de estímulos mais difíceis de digerir do que uma dieta à base de cozido à portuguesa que vai sentir-se completo e verdadeiramente são. A não ser que convivamos diariamente com pessoas que procuram a sua validação na estratosfera das relações, e aí é obrigatório uma pessoa acompanhar. O que dá um trabalho do caraças, se, como eu, não se for capaz de procurar muito mais do que entretenimento, coisas imediatas, sinais efémeros que mantenham um gajo ligado ao mundo, mas que não impliquem uma gigantesca reflexão sobre o Grande Rumo das Coisas ou, pior ainda, sobre nós mesmos. Um indivíduo não se supera por isso. Aliás, um indivíduo não se supera a não ser que viva obsessivamente para um só objectivo. Não tendo a obsessão nem o objectivo, as coisas tornam-se muito mais fáceis e, como diria o Alain de Botton de uma forma mais literata e por isso credível, um gajo passa a fazer aquilo a que no mundo da auto-ajuda se chama “visualizar o resultado". Os problemas passam a resolver-se: a) em meia hora, com uma ida ao Pingo Doce, b) em uma noite, regada rumo ao êxtase, c) em uma semana, passada de papo para o ar em Punta Cana, ou, d) em um ano, com uma doença filha da puta que conseguimos fintar. Pode ser que me engane, mas acho que isto vai ser assim até ao fim.

publicado por Vasco Mendonça às 17:33
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Sexta-feira, 27 de Maio de 2011

Pontapés de canto

Dou uma aula de escrita criativa e escrevo. Aproveito o momento em que os alunos  - psicólogos, editores de vídeo, estudantes - trabalham um sketch de auto-paródia da turma para esboçar esta croniqueta para o Sinusite – adiada durante um dia que não facilitou o estacionamento. Encontramo-nos em pé de igualdade - temos o mesmo tempo para acabar um texto. Ouço os portáteis a serem martelados e levanto de quando em vez a cabeça para confirmar que pelo menos neste lado da cidade a Apple ganha à Toshiba. Há alunos que, como tantos, de tantas gerações, olham para o ar, gesto vilipendiado mas possivelmente mais produtivo do que se magica. Outros apontam a caneta para a folha como os perdigueiros que farejam a caça sem a vislumbrarem. Daqui vejo melhor: estamos todos ridiculamente azulados pelo projector que procura um computador sem sinal (“Para exibir a Ajuda, use o botão ?”). E pelo calorzinho também.

 

Alunos e professor exercitam as escritas como podem, como outros, em superfícies mais verdejantes, treinam penaltis e pontapés de canto. É, sei disso, uma actividade que arrepia quem tem com estas coisas uma relação com o sagrado. Escusado será dizer que não há aqui pretensões de Nobel nem ambições de Branquinho da Fonseca. Respiramos todos por escrito, com os recursos que as leituras, a hora e o cansaço nos concedem. (O projector cansou-se e apitou antes de se apagar). Escrevemos. Apagamos. Escrevemos. Apagamos. E comentamos.  Não o fazemos num café de Montmartre, entre moças bonitas e intelectuais de gola alta, mas numa saleta lisbonense, com vontade de arregaçar as mangas da tshirt até aos ombros. O "Magazine Littéraire" não se interessaria por nós. 

 

Há um mês, em boa hora, aceitei o convite para fazer - como aluno - um brevíssimo curso do género para pessoas que vivem da escrita. Não encontrei - como ninguém encontra - a divina luz do firmamento da mais alta das literaturas. Fiz mais do que isso: treinei zonas da prosa a que, por vocação, não me tenho habituado - as mais descritivas, por exemplo. Fui analisado, posto em causa, criticado, elogiado, glosado e gozado. Como se estivesse - como realmente estou - a aprender o essencial do que é isto de escrever. Experimentei registos diferentes dos habituais. Forcei a mão onde ela, por comodismo, se recusa a ser forçada. Percebi aquilo que ainda quero e posso experimentar. Mais duas e três sessões e já não passaria sem estas idas ao ginásio.

 

Penso, sim, penso que faria bem a variadíssimos escritores profissionais sentarem-se numa salinha deste género. Deliro até com a utopia de um curso de escrita destinado a escritores consagrados. Uma série de Lídia Jorges e Lobo Antunes a serem chamados a tarefas simples, quase  primárias, da escrita e à partilha daquilo que produzirem em exercícios mais ou menos tramados  - são sempre para ontem.  A treinarem diálogos,  entradas de romances, desenvolvimentos narrativos, a escolharem adjectivos certeiros e a limparem metáforas espúrias.  A porem-se em causa, que é aquilo que um escritor mais deve fazer. O professor não seria o mais importante. Fundamental seria ter alguém que desse o mote, que provocasse, que, por umas horas, fizesse desses adultos com carradas de vícios nas estantes crianças em parques infantis da criatividade literária.

 

Olho de novo para os alunos. A mão que cheirava a presa já ataca a folha. Alguém – topo agora – exerce essa forma suprema de escrita criativa que é o SMS. Um dos escribas, percebendo o desmaio do seu computador, abre um bloco e rabisca-o com a fúria de quem quer cumprir dentro do prazo. Digo-lhes sem sadismo que têm menos de um minuto para acabar. Estou a falar comigo também. Dou uma lida rápida no que escrevi, ouvindo ainda alguém a teclar uma última farpa. O tempo acabou.  Últimos a ir à baliza.

publicado por Nuno Costa Santos às 23:33
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Quarta-feira, 25 de Maio de 2011

Monstros marinhos na Ponta do Sol

Uma série sobre o programa animal: comer, não ser comido e dar a comer

 

Velhos de pijama na praça pública e andar seguro cimentaram a ideia de senilidade, mas se houvesse omnisciência e rigor devíamos subtrair todos os casos que correspondem a ajustes de contas, pois só os lúcidos tentam recuperar a paz interior. O esporádico assassínio por vingança fez com que os ajustes de conta se associem invariavelmente a pessoas, mas não é por falta de enquadramento penal que devemos desconsiderar os ajustes de contas com lugares. Quando me perguntam "ela marcou-te muito, não foi?", respondo com outra interrogação: "Paris ou Nova Iorque?" Nova Iorque, Paris, Lisboa, o bairro dos Olivais, Setúbal e... de memória viva não consigo continuar esta regressão, o que deixa Bragança e a ilha de São Jorge, lugares onde me dizem que também vivi, como aprazíveis destinos de férias futuras, que tendem a ser lugares com que não temos contas para ajustar. Curiosamente, alguns lugares de férias passadas, nomeadamente as férias grandes, podem pedir um ajuste de contas. No meu caso, esse lugar é a praia da Ponta do Sol, na Ilha da Madeira.

 

O meu irmão e eu assistíamos o meu pai no mergulho para apanhar lapas, que ele arrancava com uma espátula a uma profundidade pouco impressionante e nós depois recolhíamos para dentro de sacos de serapilheira de plástico; por vezes passava-nos também jacas, uns pequenos caranguejos que abundavam por ali. O objectivo era uma frigideira de lapas grelhadas, que a minha avó faria ao fim do dia, para se acompanhar com cerveja Coral ou laranjada Brisa, mas a apanha era também uma oportunidade para gozar o espectáculo daquele mar rico em castanhetas de roxos fluorescentes e iluminado até ao fundo pelo sol. Era o mundo do silêncio do Jacques-Yves Cousteau, mas com o silêncio interrompido por uma respiração inquieta e a paisagem a rodar periodicamente nos seus 360 graus, como se pretendesse evitar ser surpreendido pelas costas. De quem era a culpa? Minha, mas também do próprio Cousteau, que filmou o tubarão branco, um bicho de verdade e não como o brinquedo mecânico do Spilberg; a culpa era ainda de quem me levou ao Museu de História Natural do Funchal, visita que taxidermizou para sempre alguns receios sobre monstros marinhos. Quando entrava naquele mar plácido a perder de vista, a minha cabeça era um oceanário arquitectado por um Jeronimus Bosch, cheio de criaturas que nunca haviam sido vistas na Madeira, mas que existiam em algum mar distante e podiam nadar até ali. O mar tinha a propriedade única de anular as distâncias - antes do bater de asas de borboleta na China que provocava um furacão na América,  já eu pensava nas batidas de barbatanas na Ponta do Sol que excitavam os tubarões dos recifes australianos.

 

O meu pai nunca soube. E com o meu irmão nunca falei disto, porque falamos pouco. Mas lembro-me de um dia estarmos a sair da água e ele me contar que quando fazíamos o percurso de regresso à praia a sós, só os dois, ele nadava muito depressa por causa dos tubarões. Creio que foi das vezes em que me senti mais próximo dele. Éramos miúdos, mas se o mano velho também tinha medo, era normal ter medo. A vergonha não chegou a desaparecer, apesar de nunca ter recusado uma ida ao mar. Mesmo depois de o meu pai ter capturado o único monstro marinho que vi na Ponta do Sol, o medo não desapareceu. A Ponta do Sol tinha um posto de observação de cachalotes em ruínas e o meu pai contou-me que quando era miúdo um desses gigantes veio dar à praia. Por vezes passavam barcos de pesca desportiva ao largo e eu sabia que eles apanhavam peixes assustadores, mas nunca vi nenhum ali. O único monstro marinho que vi foi um polvo que o meu pai caçou com as mãos.

 

Não sei se esta classificação faz algum sentido e se há algum fundamento neurológico, mas distingo as memórias animadas (como uma cena de filme) das memórias estáticas (como um quadro ou fotografia). A imagem que guardo do polvo é absolutamente estática. De calção de banho, diante dos amigos e da família, o meu pai mostra a sua presa com um sorriso de orgulho que hoje faria dele o inimigo número um do PAN (Partido pelos Animais e pela Natureza). Só o polvo varia em função do tempo e dos humores, indo de um polvo com tentáculos de choquinhos ao polvo gigante das 20 Mil Léguas Submarinas. Esta captura deu um belo polvo de escabeche e passou a ser usada para ilustrar que os actos de bravura costumam ter associada alguma imprudência (se o polvo estivesse agarrado a uma rocha e não a seixos soltos, estaria há décadas órfão de pai), mas para mim tem um  ensinamento mas íntimo. Lembra-me que ninguém pode fazer tudo por nós, nem sequer um pai que, sem o saber, limpa o mar dos monstros marinhos. Por isso, não imagino uma vida cumprida sem voltar a nadar naquela mar e vejo-me a cumprir a tal imagem do velho senil, não na versão de pijama, mas equipado com umas barbatanas e viseira modernas que liguem mal com o meu corpo flácido ou descarnado, para enfim nadar sozinho e respirar tranquilo sem nunca olhar para trás.

publicado por Vasco M. Barreto às 14:01
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Segunda-feira, 23 de Maio de 2011

Está escrito

O cidadão liga a rádio ou a televisão e ouve um comentador, jornalista ou bicho do género a desenvolver um, normalmente, brilhantíssimo raciocínio. Explica os seus argumentos, dá os muito reveladores exemplos e, muitas das vezes, remata: “Bom , eu até já escrevi sobre o assunto”.  

A frase serve para legitimar definitivamente a razão do senhor ou senhora. Como se ter passado a escrito uma teoria qualquer lhe desse uma força especial, como se os dedos fossem uma espécie de notário do pensamento.

No fundo, pretende-se dizer que as palavras ditas não têm suficiente relevância, são coisas mesquinhas, diletantismos do pensamento, algo de pouco preciso, uma forma menor de expressão. O que realmente contaria seria a palavra escrita num livro, num jornal ou num blog ou rede social. Ou seja, se eu escrever que o Alexandre Borges é um rapaz lindíssimo, não restam dúvidas a ninguém que acho o homem uma espécie de Brad Pitt da Terceira. Se eu disser exactamente o mesmo num programa de rádio, tanto o posso achar parecido com o Emplastro como com o Paulo Pires.

 

Claro que não há nada como o conforto dum teclado. Um tipo pensa, vai buscar um livro para o ajudar, telefona a um amigo e depois derrama toda a sabedoria recolhida e mastigada numa página. Não há ninguém do outro lado, ou melhor, há gente que lê e que concorda ou discorda, mas fica-se por aí.

Se estiver a discutir com alguém é mais difícil. Pode ser que o outro cidadão tenha pensado em algo que ele não tenha pensado, que tenha lido outros livros, que tenha falado com outros amigos. E, naquele instante, estamos sozinhos, desprotegidos. Não nos dão tempo para pôr o chapéu pensador, não podemos pedir uma pausa para nos sentarmos numa esplanada a reflectir. É ali e agora. Ou estamos certos das nossas opiniões ou dizemos meia dúzia de disparates. Ah, mas não interessa, é só gente a falar.  

O problema é que é a falar que a gente se entende. É a falar que nos surgem as ideias, que vemos que há outras formas de ver o mundo, que percebemos que a realidade não se esgota no cubículo onde escrevemos umas tretas que julgamos irem mudar o mundo.

Lembro-me de ler um pateta cheio dele próprio que dizia recusar-se ir a rádios e televisões porque não tinha paciência para discutir com imbecis e tinha receio de dizer algum disparate. Pois. Nada como ter a verdade toda e nem sequer ouvir, um gajo dorme muito mais descansado. Nada como não explicar as nossas ideias em frente de outras pessoas, assim não exibimos as nossas fragilidades.

Pronto, está escrito.

 

 

 

 

 

 

 

publicado por Pedro Marques Lopes às 23:37
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os meus cigarros larilas

Fumo cigarros larilas. Slims. Aqueles fininhos, em caixa amaricada, que não sabem a nada. Um problema.

Fumar slims deixa-nos numa desconfortável terra de ninguém. Nem somos o estóico anti-tabagista, adepto da saúde e da condição física, nem o rebelde fumador inveterado que não teme a morte e enfrenta de sorriso na boca o politicamente correcto, nem o super-herói de todos eles, o ídolo que fumou anos a fio e deixou do dia para a noite, conhecedor dum lado e doutro da barricada e que desperta a curiosidade de todos: “Como conseguiste?”, perguntam-lhe de olhos esbugalhados, suspensos da resposta.

O fumador de slims, visto de fora, tem tudo o que é mau de fumadores e não-fumadores. Esfumaça, o que incomoda, mas parece cheio de medo, o que aborrece. É um fumadorzinho, uma imitação de fumador, um tipo que mergulha de braçadeiras. Não é carne nem peixe. Está ali. E, qualquer dia, há-de se arranjar uma sala só para ele nos restaurantes.

O fumador de slims, enfim, é gozado por todos, fumadores, não-fumadores e ex-fumadores. O próprio tipo que lhe vende os cigarros parece ter um sorrisinho trocista ao canto da boca enquanto lhe passa o reles pacotinho.

Pedia-me há dias um amigo desta casa que pensasse nas fotografias dos escritores na contracapa dos livros. Os grandes seguram cigarros, acendem cigarros, fumam cigarros. Os que têm gravitas para isso empunham, soberanos, charutos ou cachimbos. Os outros não fumam nada. Nenhum deles fuma slims. Não para a fotografia, pelo menos.

Explico – ó meu Deus! Como e quantas vezes tenho explicado – que fui o destemido fumador de cigarros pretos e fortes durante anos. Que me transformei depois no heróico sujeito que deixa o tabaco de um dia para o outro. E que, por fim, conheci uma rapariga que fumava slims – e o resto é história.

Não chega, diz-me o mesmo amigo. Suponho que esteja certo (agora que penso nisso, não me recordo de que marca fuma).

Talvez não valha a pena dar qualquer justificação. Fumo cigarros larilas. Sou um rebeldezinho. Um viciado em coisas menores. Um medricas que mesmo assim vai em frente.

Fumar esta porcaria, afinal, é capaz de fazer algum sentido.

publicado por Alexandre Borges às 07:32
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Sexta-feira, 20 de Maio de 2011

Dias de Ternura Desportiva

 

Quem não conhece a poesia de Fernando Assis Pacheco pode entrar pelo futebol. Vai pelo bom caminho. Manuel António Pina notou-o com outras palavras no posfácio à edição em livro destas belíssimas “Memórias de um Craque”: é pouca a diferença no toque de bola. Assis Pacheco era essencialmente o mesmo quer invocasse a musa irregular ou trouxesse à memória uma confraria de “jogadores made in retrosaria”. As crónicas que aqui se contam em voz alta trazem justamente isso: o sangue e a verve da sua escrita, no caso a tratar dos digníssimos acontecimentos ocorridos em cima de “ervados”, quintais, ruas e superfícies afins. E o homem, esse homem que tratava a vida com ternura e humor, com gentileza e autenticidade, sem necessidade de recorrer a nomes e modos pomposos. Outro jogador da bola, o rapaz Camus, recentemente relembrado e rediscutido, dizia que tinha aprendido tudo o que havia a aprender sobre o carácter no futebol. Assis Pacheco não era do género de fazer proclamações tão definitivas. Mas é justo dizer-se que se pode encontrar nestas gravações o essencial da têmpera e da alma Assispachequianas, nas suas primeiras aprendizagens do modo humano de funcionar.

 

Permitam-me a nota pessoal: reconheço inteiramente nestas histórias a figura que tenho procurado, em função do trabalho para um retrato biográfico, noutros mapas e pesquisas – aquele que, depois de andar a afirmar-se em golos e caneladas, se fez um homem familiar e de família, um romântico que aconselhava “o amor/o equilíbrio dos contrários”, um leitor de grandes apetites, um gastrónomo de gosto afinado, um jornalista para quem tanto era importante projectar uma reportagem como redigir uma breve, um tipo também, como todos os que admirava, com o seu feitio e as suas manias. Um coração de lugares vários – Coimbra, Pardilhó, Orense, etc. – que nunca deixou os lugarejos da infância, esses territórios de pequenas maldades e afirmações, bastante distantes daqueles que pisou mais tarde, naquelas circunstâncias limite da vida, como são as da guerra, que ninguém devia ser obrigado a respirar.

 

É particularmente feliz esta versão áudio de algumas das suas boas prosas. Porquê? Porque, sabemo-lo, muitos dos textos de Assis Pacheco foram desenhados para serem ditos – vêm de uma tradição galaico-portuguesa que muito deve à convivência e ao bate-papo. Uma linhagem que, diga-se, devia ser cada vez mais recuperada. Nas artes e nas esquinas. Sim, neste tempo de facebooks (e assim) nada melhor do que pôr a petizada a ouvir o narrador Nuno Moura a lembrar-nos que a chincha é para rolar no chão, não naquela coisa da internet. “A minha posteridade vai ser isto: ir morrendo”, disse ele em 1993, numa entrevista ao jornal “Público”, invocada num belo texto de Torcato Sepúlveda, escrito após a sua morte. Podemos dizer que mais uma vez praticava os exageros da auto-ironia. A posteridade de Fernando Assis Pacheco é ir revivendo nas edições e reedições das suas jogatanas literárias e na recuperação de quem foi na vida e na literatura. Também por alturas da sua morte, Miguel Esteves Cardoso escreveu que “vai ser bom lê-lo e vê-lo renascer”. Que será “uma alegria para acompanhar e tornar ainda maior a nossa mágoa, dando-lhe o sentido que ainda nos falta conhecer e sofrer para começarmos a aproximar-nos da sua verdadeira inteireza”. A coisa já se está a cumprir. É caso para descer as escadas do prédio e jogar à bola com a malta do bairro em jeito de celebração.

 

(Texto editado no audiolivro da Boca "Memórias de um Craque")

publicado por Nuno Costa Santos às 18:40
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Quinta-feira, 19 de Maio de 2011

O génio censor lusitano

Uma série sobre o programa animal: comer, não ser comido e dar a comer

 

Numa das milhares de notas de rodapé que nos deixou, David Foster Wallace sugere que o “beef” e o “pork” do léxico gastronómico da língua inglesa são atavismos de proibições ancestrais, por afastarem da mesa as imagens dos mamíferos (a “cow” e o “pig”) de onde vem a carne, cuidado que não se aplica a outros animais, como os crustáceos – “lobster” é “lobster” – e os vermes – “Dick Cheney” é “Dick Cheney”. Trata-se de uma digressão tipicamente wallaciana, pois o autor de imediato mina a sua tese, recordando que “lamb” não vem com eufemismo e é ainda “lamb” quando chega ao prato, embora um melhor exemplo fosse a expressão “suckling pig”, que combina som e sentido, recrutando as glândulas salivares à segunda sílaba, sem deixar de descrever, com grande rigor e franco poder imagético, a essência de um leitão. Em Portugal, a tese de Wallace seria ainda mais absurda, pois aqui vaca é vaca, porco é porco e uma tripa é uma tripa. Não trocamos significantes por causa de um qualquer tabu milenar, antes os significados, e só devido à pressão do mercado – são os “secretos” anunciados pelas ementas deste país e consumidos a um ritmo incompatível com o da produção de porco preto.

 

Até à vulgarização dos termos brasileiros “moqueca” e “bobó” (por exemplo, de camarão), o léxico gastronómico luso era muito pouco traiçoeiro. Folhear um índice de um livro de Maria de Lurdes Modesto oferecia pouquíssimas oportunidades para trocadilhos vulgares, o que surpreende, tendo em conta a nossa tradição nos enchidos. Dir-se-ia que o léxico gastronómico luso esteve sob uma longa e constante pressão, contrária à que moldou aquele artesanato rico em falos de cerâmica animados por uma mecânica simples. Não surpreende, pois a comida é para se levar a sério. Esta purga livrou-nos das “moquecas” e dos “bobós” autóctones e não sobrou quase nada. Uma excepção é “túbaros fritos”, nome que foi solução prática, pois conserva uma fonética alusão à botânica - túbaro/tubérculo - mas evita que por engano se lancem rodelas de tomate para dentro da frigideira. Menos pragmática e mais interessante, ainda que simples, é a génese da segunda excepção: o rabo de boi. A subtileza de “rabo de boi” é tal, que só quando nos lembramos da alternativa mais natural se percebe a artificialidade da escolha que vingou. Refiro-me, naturalmente, a “rabo de vaca”. Temos a carne de vaca, os bifes de vaca, o lombo de vaca, a língua de vaca e a mão de vaca, mas o rabo de boi. Não é um mistério insondável. Há uma sinergia que faz com que “rabo de vaca” seja treslido pelo rudimentar cérebro masculino como uma expressão vulgar, capaz de o embalar num silencioso crescendo a culminar no sonoro e boçal “comia-te toda!”, que depois espalharia ondas de choque no jantar de cerimónia e faria do pobre coitado o epicentro da censura social. Isto é trivial, mas arrisco a ideia de que “rabo de boi” constitui uma das obras maiores do génio censor português. Como solução, reabilita-nos inclusive do gesto irreflectido do padre madeirense que mandou capar todos os antúrios dos arranjos florais da sua igreja (true story). “Rabo de boi” não denuncia qualquer pulsão pornográfica do censor. “Rabo de boi” não vem com a infantilidade dos branqueamentos totais – penso num “surpresas de bovino”. “Rabo de boi” conservou ainda algo de vagamente censurável, o que cria  uma ilusão de espontaneidade, isto é, de ausência de censura - a este tipo de solução, nos antípodas do radicalismo, não basta querer, nem coragem, é preciso o mesmo virtuosismo que guia o braço do jogador de snooker bem sucedido na intenção de falhar uma tacada por um triz. É um nome tão rico que tem ainda o mérito de nos distrair de um facto irrefutável: aquela sublime carne andou enxotar as moscas que circundavam a poia da vaca. Ou do boi.

publicado por Vasco M. Barreto às 20:03
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