Quinta-feira, 31 de Março de 2011

Deus é uma ligação sem fios

À conta de circunstâncias extremas que o pudor me impede de revelar (a modos que mudei de casa), estive três semanas sem net nem têvê. Eu sei, eu sei, é muito bonito estar sem net e sem têvê, pensem só no tempo que sobra para os livros, os amigos, os filhos, a luta pelo ambiente, a c*na da tia.

Mas para ser sincero só leio merdas com figurinhas, não tenho tempo para mais que os meus três amigos, o meu filho é uma peste, o ambiente anda um coche fodido desde há uns milhares de anos e a c*na da tia não me apetece. Manias.

De modos que o que me aconteceu nas últimas três semanas tornou-se uma espécie de estudo de caso. Toda a ilusão que poderia ter acerca dos benefícios de viver sem tv esvaíram-se como o apoio dos reaccionários de direita à administração Bush depois de se descobrir que afinal não havia armas químicas no Iraque. (Espera, há qualquer coisa de errado neste exemplo. Não podem ser os reaccionários de direita, que são gente intelectualmente honesta. Sei disso porque o Pacheco Pereira disse bem de mim na tv, antes de eu ficar sem tv. E eu nunca gozaria com um badocha que disse bem de mim.)

Quando este massacre acabou eu tinha perdido toda a capacidade de comunicar com os restantes seres humanos, isto é: aquela parte ínfima, nanoinfinitesimal de sociabilidade que me restava foi-se à vida e bordejei a insânia.

Os meus amigos têm de si a imagem de intelectuais que vêm filmes inacessíveis, têm dados do INE na ponta da mesma língua que recita poesia e sabem onde se come as melhores patas de formiga de todo o Oriente. Eu não me afasto muito deste universo, ou seja, não sou ninguém sem poder ver o House e não consigo passar sem a minha dose de Gossip Girl, uma série que leva ao absurdo a ideia de vazio.

(Tenho cerca de 50 mil palavras preparadas em que defendo metafisicamente o Gossip Girl, mas resumamos a coisa assim: já toparam bem aquela loira?)

Adormecer no sofá com baba a correr no queixo depois de um episódio do Lie to Me seguido de um festival de três horas de NBA e acordar duas horas depois para atender os pedidos de um garoto mimado que com um ano e meio ainda não se levanta e prepara o seu próprio biberôn, isto é – na minha humildíssima opinião – o mais próximo que um homem pode estar do civismo.

E o que me aconteceu nestas três semanas? Praticamente desci ao nível de vagabundo (sem-abrigo): dei por mim a cirandar por cafés, de ar alienado, a fazer o sinal da conta quando queria pedir mais um bica. Quando entrava num quiosque para comprar A Bola ficava por ali, em lágrimas, a folhear a Tv Guia – e por duas ou três vezes fui convidado a sair do estabelecimento. Desesperado, procurei refúgio na droga – mas entrei num bordel por engano. E não tinha dinheiro, porque não tinha net para trabalhar.

Digo-vos: sim, sim, a tv é muito perigosa, traz informação pouco fidedigna, está ao serviço do governo, do capital, desune a família, já não se fala às refeições, não se sabe quais os trabalhos de casa dos meninos, a net tem pornografia, meu Deus, o que será das nossas criancinhas se se meterem na pornografia, ainda acabam como os pais.

Mas a verdade, não bem a verdade, mas uma coisa amanhada às três pancadas que eu faço passar por verdade porque me dá jeito (visto ser um preguiçoso boçal que inventa teorias baseado em factos inexistentes, o que me habilita a escrever na imprensa), a verdade é que a tv e a net são a nossa âncora, os instrumentos que diariamente usamos para esquecer as pessoas que no dia seguinte vamos voltar a ter vontade de assassinar.

Mas como à excepção dos sportinguistas quem sofre tem direito a uma prendinha, no dia em que a net e a tv voltaram (primeiro abracei-as, depois disse que lhes perdoava terem-me abandonado), liguei-as (chamando-lhes fofinhas enquanto afagava o router) e, ai milagre, estava a começar um episódio novo do House seguido de um episódio igualmente novo do Lie to Me.

Não peço a Deus que entre em minha casa nem que me dê um sinal. Só peço à Zon que não me corte a ligação.

publicado por João Bonifácio às 23:35
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falhar. falhar outra vez. falhar melhor.

é preciso tanto atrevimento para retormar as croniquetas ao som do samuel, beckett, não samuel johnson, nem samuel úria, ou outro desses teóricos da flor caveira, mas falhar é importante e eu vai não volta falho, por exemplo, queria ter escrito estes dislates ontem, quarta, e faço-o hoje, quinta desapontando camaradas de blogue e um ou dois indivíduos mais distráidos que ainda me dão atenção, coitados, ignorance is bliss, se calhar do que eu precisava era de um relógio, calhando basta um daqueles espetos no chão que medem o sol, que rica pretensão, medir o astro-rei e ainda saber se já são um quarto para as cinco, ou então uma ampulheta, se bem que uma dessas geringonças remete imediatamente para o astérix e os helvécios, e acabo de chegar ao topo da minha cultura, das minhas referências, mas esse álbum até é dos mais elevados, começa com uma orgia e com um cozinheiro que glosa o fellini, e depois sim, mergulha nas ampulhetas, eu sempre a lembrar-me do CUUUU-CUUUU, não acordem os hóspedes, CUUU-CUUU, vieira, abre a pestana e escreve a crónica, e ainda parodiam o fondue de queijo, não tarda sou eu que sou atirado ao rio com um peso amarrado aos pés pelos meus companheiros da bloga, e até se metem com a cruz vermelha, hoje seria impossível fazê-lo, já não se brinca com as ong's a não ser que nos chamemos fernando nobre e queiramos chegar a belém, como quem canta "havemos de ir a viana" mas no eléctrico 15, ou então consigam-me um daqueles relógios digitais casio, lembro-me de a minha falecida avó me levar ao relojoeiro em braga para comprar um e eu que não despegava os olhos do dono do estabelecimento que trazia entalado no olho um daqueles óculos de ver diamantes, ou de ver mecanismos sensíveis, suíços de preferência, os casio creio que vinham (vêm?) do oriente, mas as rodas dentadas aprumadinhas têm mais a ver com zurique genebra berna, CUUU-CUUU, está na hora de pores aqui um ponto final e acabares com a agonia, pelo menos até à próxima semana. à quarta? pois. faites attention.

publicado por Pedro Vieira às 11:33
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Terça-feira, 29 de Março de 2011

Provinciano, essa é que essa

Nova York é muito giro. Tem lojas do melhor que há, restaurantes fantásticos, grandes concertos a cada hora, museus de ficar com a cara à banda, ainda hoje jantei com a Pedro Abrunhosa japo-americana – não sei se ela percebeu que estava a jantar comigo. É porreiro, bestial mesmo. Também faz muito bem à saúde porque se faz muito exercício. Um tipo anda, anda, anda, e não custa nada porque, enquanto se apanha o frio mais roxo do mundo, vêem-se coisas do diabo mais velho: prédios, mamelucos, tolinhos a prometer o fim do mundo, gajos a vender noggats, outros a impingir cachorros quentes, táxis amarelos, gajas doidas com as pernas ao léu, homossexuais e assim. Nada a ver com Lisboa.

E a energia? Uiiii, a energia. A energia é tanta que um cidadão quase que consegue acender uma lâmpada quando chega ao hotel – ou é isso ou é o sítio onde estou que dá choques por todo o lado.

 

Eu esforço-me, juro que me esforço. Saio sempre de Lisboa cheio de vontade. Digo aquelas bacoradas do costume “vou fugir desta merda”, “um banho de cultura, pá”. A minha mulher faz a lista dos sítios onde temos mesmo, mesmo, de ir, anuncio a minha chegada aos indígenas e lá vou eu.

Adoro chegar ao destino, o pior é ficar. É que tenho de fazer imensas coisas. E quanto maior é a cidade, mais coisas há para ver, para rever, para comer, para isto e para aquilo. O cidadão pode ficar a preguiçar, mas depois fica com a consciência pesada: “então gasto uma fortuna e depois fico para aqui no hotel ou num café a beber uma gasosa?”  Este stress mata-me.

 

Não é que não goste das cidades onde vou, gosto de quase todas – tirar Índias, Chinas e que tais -, mas sinto-me sempre como se estivesse a ver um filme em fast forward.  Mesmo quando decido apenas sentar-me numa praça e ver o mundo passar durante horas, dias a fio não é a mesma coisa do que fazê-lo na minha cidade. Eu sei, eu sei, é a mesma gente, com as mesmas angústias, desejos e receios mas o cenário não é o mesmo. A encenação diferente faz a peça diferente, e eu não percebo aquelas marcações de palco, aqueles adereços. Dessem-me mais tempo e eu até acho que era capaz de alcançar, mas não tenho. Não tenho anos, décadas para ser desse local e é esse o tempo de que preciso.

 

Amanhã regresso. É essa a minha casa, e é a única que, apesar de com muita dificuldade, vou entendendo.  Hei-de voltar a estas cidades que elogiarei e falarei com muita propriedade, mas não tenho nada a ver com elas, nem nunca terei. Vou continuar a perder tempo, que não tenho, a viajar para mais esta e aquela.

Quando perceber porquê, digo-vos.  Entretanto, tenho para mim que sou só um provinciano envergonhado.

publicado por Pedro Marques Lopes às 03:52
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Segunda-feira, 28 de Março de 2011

a chuva e os conservadores

A chuva de Abril reconcilia um conservador com a sua consciência.

Anos de conversas de café que terminaram com dedos em riste, acusando “Tu és mas é um conservador, pá!” como quem aponta a reincidência despudorada num pecado capital, podem fazer-nos fraquejar. A inefável crise arrisca amaciar-nos o coração e puxar-nos da nostalgia revolucionária da adolescência. A ânsia de que governos, constituições e tratados nos deixem trabalhar em paz, obriga-nos a debitar slogans liberais. Mas, ao cair da noite, armado de roupão e pantufas, livros e cigarros, com a chuva a deslizar de modo incerto pela vidraça, um conservador redescobre a verdade visceral de si mesmo.

Vem isto a propósito destes dias de fim de Março, início de Abril, quando chove.

Chove como sempre choveu, como a sabedoria popular sempre disse que choveria, como é esperado que chova. E enquanto alguns blasfemam diante do roupeiro, olham as camisas de manga curta de lágrima no olho e amaldiçoam o guarda-chuva, o conservador conforta-se debaixo do sobretudo e do chapéu, feliz por algumas coisas ainda serem para sempre, estarem no sítio certo, chegarem à hora do costume. Como previsto. (“No alarms and no surprises, please…”)

Há um só tipo de conversa mais inútil do que a que versa sobre o tempo: a que apresenta queixa dele. O conservador pode falar sobre o estado do tempo como qualquer outro ser humano em apuros com a falta de assunto, mas não se queixará da chuva ou do sol, do calor, da humidade ou do frio. Ele sabe – tem de saber – que é inútil. Tem de reconhecer instintivamente o absurdo de despender energias, tempo e latim a protestar contra o que não pode ser mudado. Afinal, a revolta contra as condições meteorológicas é apenas um estado avançado da condição de eterno sindicalista de bancada de que padece muita populaça. Não há um pensamento organizado que a sustente; é um simples acto reflexo de reacção à realidade. Se chove, dizem que já ninguém aguenta. Se não chove, ai que lá vêm os incêndios. Está frio? Coisas que eles andam a fazer lá no espaço. Calor? É da emissão de gases poluentes. Faz sol? Que saudades da serra coberta de neve. Neva? E agora quem é que vai trabalhar?

A revolta gratuita e sempiterna que brada este género de bordão só estaria feliz, talvez, se pudesse passar a vida estendida languidamente ao sol enquanto chovia no resto do mundo. Sabendo da impossibilidade de tal milagre climatérico (e já nem discutindo o altruísmo que lhe subjaz), insiste, ainda assim e todos os anos, em chicotear-nos a paciência com queixumes.

Neste fim de Março, início de Abril, ela está aí, em força, lamentando que chova, como sempre choveu, como sempre lamentou.

O conservador, munido do pacifismo que lhe impede de dar outro uso ao guarda-chuva (um que acabasse com a conversa de vez), apazigua o seu delicado sistema nervoso. Afinal, as lamentações sempre lá estiveram. São parte do mundo que continua a ser o que costumava ser. Como a chuva primaveril e a nostalgia dos grandes verões da infância.

publicado por Alexandre Borges às 15:14
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Domingo, 27 de Março de 2011

O regresso

 

Não posso dizer que seja a primeira vez que o escreva mas nem por isso deixa de ser menos verdadeiro: gosto de regressos.

Este é apenas mais um, em que me passeio por palavras que aqui ficaram ao pó do que já fomos e escrevemos. E no entanto, tão familiares, tão à nossa espera. Foi a ideia do regressar que me convenceu a ocupar esta casa.

Na nossa vida há demasiadas partidas e despedidas e uma falta gritante de regressos. O amor, por exemplo, é sempre uma viagem que se inicia, que, por mais doce que seja, é assustadora. Ficamos sem rumo, não sabemos o que pode acontecer, que imensos icebergues podem estar emboscados e prontos a afundar o Titanic afectivo que tanto trabalho nos deu a construir. E às vezes acontece o naufrágio, e podem ser derivas até ao próximo resgate. Até ao próximo regresso a essa mesma partida que pouco antes juráramos nunca mais fazer.

Nunca compreendi bem o aforismo que diz que nunca devemos regressar aos lugares que nos fizeram felizes. Eu acho que sim, desde que se tenha o cuidado de não ambicionar vivê-los como antes. Esse é um regresso que pressupõe a coragem de lidarmos com o que fomos e com o que somos, mas nem por um minuto mata a felicidade que terá existido. Ela já é parte do nosso património tal como a dor que por vezes se pode seguir. Regressar devolve-nos sempre ao que somos, aqui e agora – nunca ao passado.

Depois, temos a sorte de muitos terem deixado pistas belíssimas, verdadeiras auto-ajudas que nos indicam caminhos e sugerem escolhas. Assim de repente, nesta escrita meia apressada, lembro-me da parábola do Filho Pródigo, que sugere o mais belo dos regressos – o regresso a Deus. Lembro-me de um livro que há tanto tempo me atravessou o coração: Para Sempre, de Vergílio Ferreira, constrói-se a partir de um regresso doloroso mas necessário. Outro célebre regresso foi provocado por uma trincadela num bolo. Resultado: A La Recherche Du Temps Perdu. Também é verdade que muitas vezes, «home is so sad», como garantiu Larkin. Mas é preciso regressar para compreender e voltar a partir.

Regresso ao que disse: não existem suficientes regressos na nossa vida. E sabemos que todos nós – todos – somos Ulisses, Penélope e Ítaca de nós mesmos, em simultâneo- Queremos sempre partir, queremos sempre esperar com zelo e amor, queremos ser o lugar mítico onde alguém irá regressar um dia. Eu continuo à espera, enquanto preparo a nova partida para um novo regresso.

 

 

 

publicado por Nuno Miguel Guedes às 17:03
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Sexta-feira, 25 de Março de 2011

A Sinusite Não Passou

 

O quê? Vai fazer dois anos? Sim, vai fazer. E eis que estamos de volta para mais investidas e textos neste blogue dedicado a um género pelo qual continuamos, como hei-de dizer, apaixonados. O programa eleitoral é o mesmo – e, como todo o programa eleitoral, deve ser ignorado. Deixaremos as nossas respirações irregulares quotidianas para as nossas casotas bloguísticas pessoais. Aqui queremos publicar textos pretensamente mais compostinhos. Crónicas. Que, julgando-se prosas entre o efémero e a literatura, são apenas, como sabemos, posts metrossexuais.

 

Voltamos por causa do sindroma “Hoje Escrevo Porque Me Apetece”, para recriar o título da crónica de Drummond que apadrinha este território – e frase que me remete para uma das minhas postagens na anterior encarnação sinusítica, sobre o verbo “apetecer”. Apetece-nos reabrir o estabelecimento, na forma como existia dantes e (basicamente) com o mesmo gang: Rubem Braga, Christopher Hitchens, Enrique Vila-Matas, Nelson Rodrigues, J.M. Coetzee, Javier Marías e Nuno Homem de Sá. Serve?

 

Espero - eu que ainda acredito em utopias – que cada escriba cumpra o objectivo de publicar a sua artigalhada no dia aprazado. Até porque temos um objectivo a atingir: queremos expulsar dos jornais os cronistas no activo, mesmo que sejamos nós próprios. Isto não é para meninos. Humilhem-nos, por favor, se não conseguirmos.

 

O nosso PEC – Plano de Estabilidade pela Crónica – é modesto e relativamente inequívoco. Não queremos enganar ninguém. Estamos aqui para revelar ao mundo, sob a forma cronística, aquilo em que, como toda a gente, nos transformámos nestes anos: seres ainda mais rabugentos e com ainda mais vontade de ser lidos e ouvidos. Por mim, sinto-me como me senti há dias numa visita, depois de um ano de ausências, à alergologista: cheínho de vontade de voltar a cumprir medicamente tudo o que me fará suportar uma asma cada vez mais persistente. Diz que escrever crónicas, essa respiração do espírito, ajuda bastante.

publicado por Nuno Costa Santos às 09:46
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