Terça-feira, 24 de Março de 2009

quem vê cv

Os curricula vitae têm sido, ao longo dos anos, um género literário menosprezado. Há ali mais imaginação, criatividade e génio no emprego da metáfora e da hipérbole que em muito bom romance contemporâneo. Alguns chegam mesmo a ter mais caracteres que, sei lá, um Pedro Paixão.

 

Espanta-me, aliás, que a maioria das pessoas diga que não tem talento para escrever. Modéstia. É pedir-lhes o currículo. De imediato, seremos transportados para todo um universo onírico, uma realidade paralela, à maneira de Tolkien. Tudo deve ser simbólico porque, à primeira vista, nada tem a ver com a pessoa concreta que temos diante de nós. No papel, desfila um ser maravilhoso e interessante, cheio de interesses artísticos e aptidões. Mesmo que tenha 15 anos, ele consegue encher três a quatro páginas de experiências enriquecedoras de trabalho. Se, um dia, substituiu o tio no café, tem, prontamente, experiência no ramo da hotelaria. Se passou uma noite na cadeia por conduzir embriagado, realizou trabalho de investigação na área do Código Penal. Se levou cinco anos para fazer uma cadeira do curso com 10 e, certa vez, perdido do bar, entrou por azar numa AG, o que a sua verve literária dará a ler será qualquer coisa como: frequência da Faculdade de Direito de Lisboa e activismo académico.

 

Inevitavelmente, todos gostam de viajar, ler e conhecer pessoas. São amantes de cinema e sentem um inquietante interesse pelo Budismo, a aprofundar em breve. Gostariam de ser voluntários da AMI e são todos muito sociáveis, excelentes a trabalhar em equipa e com muita capacidade de iniciativa e dinamismo.

 

Ora, a pessoa lê isto, baixa o currículo e confirma: sim, quem está diante de nós continua a ser aquele mono flácido com aspecto de ter feito exercício pela última vez quando se baixou para apanhar a roca, algures em 72, e de ser tão sociável e interessante como um parquímetro, e pensa: génio! Puro génio literário!

 

E há mais. Apesar de alguns abusarem, o CV tem, na generalidade, a dimensão ideal para a sociedade contemporânea: dá para ler no metro, levar para a praia, entreter um bocadinho na sala de espera para a lobotomia. Não maça como o romance, é ainda mais económico que o conto e, apesar do aspecto enxuto, não é hermético como a poesia.

 

E há ainda aquele requinte final, soberbo: a escrita na terceira pessoa. Esse acordo tácito entre autor e leitor, essa rara cumplicidade… Como se não fossem sempre os próprios biografados a escrever, naquele tom desinteressado, sobre si, e houvesse por aí profissionais do CV, a redigi-los em barda sobre toda a gente fascinante que conhecem…

 

Em conjunto, os CV da Humanidade são toda uma “second life”, um programa idealista, a cidade de Deus. Só gente maravilhosa, culta e trabalhadora.

 

Para quando, Assírio & Alvim, uma antologia da novíssima curricula nacional? Um compêndio só com os melhores CV do Modernismo? Um livro de citações com as melhores passagens dos CV dos alunos da Escola Profissional da Boavista dos Pinheiros?

publicado por Alexandre Borges às 00:08
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Sexta-feira, 20 de Março de 2009

A priori parece-me um bom tema

Comigo, foi o verbo refulgir. Descobri-o, ou ele descobriu-me a mim, enquanto folheava um dicionário de sinónimos. Não há, aliás, segundo amor como o sinónimo. Foi por isso que, da noite para o dia, tudo deixou de brilhar e passou a refulgir. Não havia refulgência que eu não visse onde refulgência não houvesse. E que importava isso? Nada. Foram muitos dias passados a aguardar a oportunidade de martelar o verbo refulgir. Martela com eloquência (podia perfeitamente ter escrito loquela em vez de eloquência mas a minha humilde verbosidade aconselhou moderação na facúndia) aquele que se faz valer de um vocábulo desnecessário ou balofo para destituir de inteligência uma afirmação lexical e gramaticalmente correcta. O que faz de muitas conversas interessantes aquilo que na verdade sempre foram: pequenos suplícios.

 

Para muitos uma minudência da interacção, é na verdade o momento que melhor a define: uma palava incorrectamente utilizada e passamos de uma tertúlia nos Encontros da Arrábida para um mano-a-mano taberneiro em Brejos de Azeitão. Às tantas, damos por nós ali estacionados, com vista panorâmica para o nenhures do analfabetismo funcional, sem saber o que fazer, na tal terra onde os autóctones se assoam à gravata por engano. No Portugal profundo do falar caro, está-se lindamente entre iguais até alguém ter a coragem de nos corrigir ou, se tiver bom coração, fazer pouco dos nossos tiques. Ora bem. Foi muito assim que nas conversas me fiz portento: a refulgir para aqui e a refulgir para ali. Refulge-porque-repara-só, epá-tu-não-me-venhas-para- aqui-refulgir, vejam-senhoras-e-senhores-como-refulge, era-meia-de-refulgência-se-fizer-favor.

 

Tudo isto me fez esquecer durante anos a ancestral arte de ficar-mas-é-caladinho ou o engenho necessário para falar-mas-é-como-as-pessoas-normais. Mas lidar com a banalidade do nosso próprio discurso nem sempre é fácil. Às vezes precisamos de sobressair, temos mesmo que falar anormalmente. Bem ou mal, logo se vê. Muitos amigos meus, imbuídos de formação e feitio variáveis, serviram-se desse apelo da língua para cunhar uma social versatilidade com que, desde há muito, se fazem apresentar ao mundo. São gajos que sabem falar. Eles agora são assim. Porreiros, espirituosos, bem falantes, mas pouco representativos da nossa diversidade cultural. Na malha esburacada dos armazéns Regojo que é o tecido social português, encontramos outros tipos sociais, bem mais interessantes e complexos, que, imbuídos de formação e feitio variáveis, se serviram do apelo da língua para cunhar uma prosaica ignorância – não confundir com humildade – vulgarmente concentrada em duas ou três expressões. Pessoas que mandam a língua portuguesa às urtigas - não é que o façam por mal – desde que deram por elas a findar analiticamente que, para se dizer ao mundo que se sabe falar, chegam perfeitamente dois ou três exemplos cirurgicamente aplicados em todo e qualquer momento oportuno, leia-se, por tudo e por nada.

 

Às vezes um só exemplo basta. Que o diga uma secretária chamada Filomena que tive o prazer de conhecer e a quem optei por dar o nome verdadeiro para salvaguardar a sua identidade. Enquanto secretária, Filomena cumpre a promessa dos honorários pagos pelo patrão: uma “problem solving attitude” impecável, “analytical thought” cinco estrelas, “multitasking abilities” de um gajo ficar banzado, e “interpersonal skills” como há muito não se via. Do que carece então a talentosa normalidade de Filomena? De uma marca registada de inteligência. Faltava a Filomena patentear uma outra forma de secretariado. Não lhe chegava o sorriso, ser expedita, tratar de coisas. Filomena quis salvar do esquecimento os seus préstimos diários e foi por esse motivo que começou a usar a expressão a priori. Hoje, seja o que for que Filomena tenha para nos dizer, cabe lá a expressão a priori. Liga-se para lá e o doutor, a priori, não está. Mas não desespere aquele que tenta falar com o doutor, porque a priori foi só ao dentista e é coisa para demorar pouco. Se porventura ligar para lá em Agosto, a priori o doutor há-de estar a torrar na Praia do Vau, por isso volte a ligar início de Setembro. Quando Filomena emprestou a sua voz para gravar a mensagem do atendedor de chamadas, saiu-se com um ‘a priori a sua chamada é importante para nós’. Quem quisesse que aguardasse uns minutinhos a posteriori.

 

Segundo a Wikipédia, a priori, do latim ‘partindo daquilo que vem antes’, traduz uma anterioridade lógica e não cronológica. Nada mais correcto. Quando Filomena começa uma frase fazendo uso de ‘a priori’, parte daquilo que precede toda e qualquer afirmação sua: as muitas aulas de português a que faltou, aquele pragmatismo tão português de quem passou um exame sobre Os Maias sem os ler, ou a leitura das partes que interessam do Cavaleiro da Dinamarca. Ao consagrar esta forma de portugalidade, Filomena forja uma nova história, daquelas que não encontramos na Wikipédia. Assim, a priori não terá sido usado pela primeira vez por Alberto da Saxónia no século XIV, mas sim pelo Alberto do talho, coleccionador de dizeres invulgares que jamais algum carnívoro de Ramada ousou corrigir. A teoria foi afiada ao longo dos anos por Alberto, vulto filosófico-cortante do séc. XXI, e demorou pouco a consolidar-se entre os atentos: mais ou menos o tempo de se raspar a gordura de uma pá de porco. E é assim que a língua há-de perdurar e desdobrar-se, até ao dia em que formos obrigados a regressar à gramática - Deus nos livre – ou conhecermos um talhante que leu Os Maias. O que seria brilhante, mas refulge muito pouco.

 

Vasco Mendonça

publicado por Nuno Costa Santos às 00:50
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Quarta-feira, 18 de Março de 2009

o amor do ponto de vista da abep

A pessoa com quem vivemos foi, frequentemente, o nosso melhor público. No início mitológico de cada relação, o outro ri-se de todas as nossas piadas, acha violentamente interessantes todas as nossas observações, quer saber tudo sobre o que fazemos e acompanhar de perto cada novidade. Depois, isso passa. É natural. Mas faz espécie – passe o palavreado técnico – que, um belo dia, a contraparte se torne o exacto oposto do que fora outrora, isto é, passe de maior fã da nossa arte a público mais difícil de todos. Ou seja, um tipo começa a namorar com o arraial de Alfama e dá por si a acordar com o grande auditório da Gulbenkian.

 

Nem sempre acontece. Há casos – não sei se motivados por alguma doença – de velhinhas que continuam a gargalhar em decibéis desaconselháveis ao tímpano humano a cada graçola batida atirada pelo seu velho homem. É um acontecimento muito terno, mas com o seu quê de insuportável.

 

O que mais se dá, pois, é a mariocastrinização da/do companheira(o). Toda a gente ri das nossas façanhas, ela olha as horas. Seguem suspensos as nossas aventuras épicas no escritório, ela boceja. Desconhecidos rasgam elogios a um pedaço de carpintaria ou literatura que tenhamos produzido, ela aponta, fria e sadicamente, todas as imperfeições que parece considerar por demais evidentes.

 

São paragens menos turísticas do amor, mas estão lá. Descobrimo-las quando vamos para lá viver, quando passamos de estrangeiros em visita a emigrantes com visto permanente.

 

E, no fundo, só queria pensar nisto: um tipo, se vive em Roma, deixa rapidamente de admirar o Coliseu. O Coliseu, por mais extraordinário que seja, tornar-se-á a sua paisagem habitual, o seu fim da rua a caminho do trabalho, ao final do dia, parte rotineira do cansaço e do tédio. Está lá como está o Pingo Doce da nossa rua, a casa decrépita, a vitrine da loja de loiças para casa de banho. O espanto, o maravilhamento, não foi feito para os dias, mas para um momento triunfal das nossas vidas. Mas, com paciência e realismo, numa manhã qualquer, o Coliseu voltará a revelar-se em toda a sua grandeza. E o tipo que lá vive ao pé voltará a deslumbrar-se e a sentir-se abençoado.

 

Não que nós sejamos o Coliseu. Mas há uma incompletude que temos em comum.

publicado por Alexandre Borges às 00:18
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Domingo, 15 de Março de 2009

O barbeiro

Fotografia: Pedro Cláudio

 

A MAN'S gotta do what a man's gotta do», diria John Wayne ou outro como ele. A frase parece redundante, mas não é; e o pior é que está a cair em desuso. Hoje, os homens já não fazem o que têm de fazer, mas o que pensam que toda a gente faz. Mais grave ainda: vão onde toda a gente vai, mesmo que isso signifique ir a um «cabeleireiro unissexo».

 

Das modernas perversões, não consigo imaginar nenhuma pior do que os cabeleireiros unissexo. Não é só a perda de mais um universo masculino - é o abandalhamento de um ritual de iniciação. Ir ao barbeiro desde menino, acompanhado pelo pai, é um dos hábitos mais saudáveis para a educação de um rapaz. Logo em pequeno aprende a conviver com conversas sobre mulheres, política e futebol enquanto é acarinhado por aquele que, a partir desse momento mágico, irá ser o seu barbeiro. Ao longo dos anos, o barbeiro torna-se cúmplice na vida do adolescente: fala-lhe dos estudos, da vida, conta anedotas, pergunta-lhe como estão os pais, estimula namoros e pequenas marialvices. Aos poucos, o rapazinho vai sendo capaz de acompanhar e começar as conversas que ouvia quando pequeno, e a partir daí nasce uma grande amizade. Agora, expliquem-me como isto é possível num «cabeleireiro unissexo».

 

O genuíno barbeiro-amigo tem de possuir várias características. Primeiro, é bastante recomendável que seja herdado, isto é, que o nosso pai já tenha sido (ou ainda seja) cliente habitual. Depois, um verdadeiro barbeiro deve ter obrigatoriamente um engraxador que saiba tudo sobre futebol e uma ou mais manicuras que independentemente da idade sejam tratadas por «meninas». Pessoalmente, não gosto de barbeiros localizados nas zonas novas da cidade (o meu é na Rua dos Correeiros, aqui em Lisboa), mas admito que se trate de uma posição radical.

 

O homem civilizado, o que não vai a cabeleireiros unissexo falar de estilismo e da dança no ACARTE, tem uma fidelidade canina ao seu barbeiro. Cada vez que, por motivos de força maior, vai cortar o cabelo num estabelecimento desconhecido, sente cada golpe de tesoura como uma traição amorosa e um sentimento de culpa do tamanho do mundo. Francamente, nos tempos que correm, é assim que cada vez mais deveria ser.



[crónica publicada na revista K, nº19, 1992. Não tive de retirar uma única linha ou de alterar seja o que for.A foto é a que ilustrou o artigo na sua edição original]

publicado por Nuno Miguel Guedes às 17:02
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Quinta-feira, 12 de Março de 2009

Não Entres Tão Depressa Nessa Converseta Escura

Hoje é assim, sabemo-lo: um tipo - um tipo novo, acabado de sair das Faculdades - tem qualidades, talentos, vocações, vontade de suar e disciplina e mesmo assim fica fora dos empregos. Mesmo daqueles a recibinho verde. O toque de bola e o esforço não chegam. Escrevo sobre o assunto porque assisti recentemente a um caso (um desses de talento e de trabalho) de alguém que não ficou a trabalhar na empresa que merecia e que o merecia. Porque, citando um chato qualquer do linguajar económico, as condições de mercado, neste momento, não são favoráveis à contratação de pessoas.

 

Isso chateia. De facto chateia. Dá logo vontade de ajudar a miudagem, de lhes pôr uma cunha (a boa cunha, que também a há, convém recordá-lo nesta altura de malhanços vários na instituição), de ligar a amigos, inimigos e amantes a atazanar-lhes a cabecinha com o currículo do rapaz. Com mais do que isso – que essa coisa do currículo muitas vezes não chega; é, demasiadas vezes, matéria morta e vaga. É preciso mostrar ao mundo laboral o trabalho, o bom trabalho do cidadão. O sapateado do bicho. Em polaroids, DVD’s ou animações de rua.

 

E é preciso também que a rapaziada recusada, momentaneamente recusada, não entre tão depressa nessa noite escura que é a conversinha do lamento e do “só neste país” e do, para lembrar o texto de ontem do Pedro, “é a crise, não posso fazer nada”. Porque isso é converseta de esquina, daquela que não nos faz dar nem um passo, nem um passinho que seja, de esquilo anão. É, é aqui que entra o meu discursozinho liberal (também tão espancado, tão facilmente espancado por estes dias), filosoficamente liberal, psicologicamente liberal, estuporadamente liberal. Se calhar convém, como é que se diz mesmo?, ir à luta. E o que é que isso da luta?, pergunta-me o Zé Ferdinando.  Isto, provavelmente: se não dá aqui, dá ali. Se não consigo que me recebam acolá, dou três cambalhotas para ser recebido acolará. Até que, chamem-lhe fé, chamem-lhe fezada, chamem-lhe delírio, alguma coisa de boa, vá, de menos má - que eu quero acompanhar as poses intelectuais da minha época- aconteça.

 

Lembro-me agora de um belo de um papelote que um tio, vivido durante uns anos em Filadélfia (e noutras Américas), me deixou, um dia, em cima da mesa melancólica e desistente. Tinha uma frase escrita a caneta e em maiúsculas: “Do it”. Do it? Sim, do it. Vai virar frangos, se for preciso. Mas do it. Não esmoreças, André. Não te fiques. Continua o sapateado.

publicado por Nuno Costa Santos às 22:35
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Terça-feira, 10 de Março de 2009

Um fugitivo regressa à pátria

A Suíça faz racista o multiculturalista. Tornou-se urgente fugir da clínica e tenho andado a monte e numa existência de caçador-recolector que terá consequências no futuro desempenho da minha actividade profissional. Escrevo-vos do Languedoc. Paguei pela primeira vez a uma prostituta, mas para me afrouxar as correias da camisa-de-forças. Isto não é um sinal de vida, é uma demonstração de sobreviviência. Até já.

publicado por Homem do pullover amarelo às 11:54
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onde se fala sobre darwin, bidés e escritórios

Darwin foi esperto. Houve tipos que se esfolaram a trabalhar em coisas datadas como dobrar o Cabo das Tormentas, inventar o telex, desenvolver a gloriosa passarola voadora; descobrir, literalmente, a pólvora. Foram grandes um instante e, depois, abandonados ao esquecimento logo que alguém inventou coisas melhores ou caminhos mais rápidos para chegar ao mesmo sítio. Darwin não. Darwin pensou numa coisa à la longue – que é uma expressão muito bonita que, além do mais, deu para refrão de imensas canções reggae – a teoria da selecção natural das espécies. Nunca vai sair de moda, nunca estará desactualizada. Pelo contrário: quanto mais as coisas mudarem, mais ele estará certo. Concentrou-se no movimento e não na coisa. De cada vez que entro numa casa de banho com bidé, por exemplo, penso em Darwin. Não é a imagem mais bonita de sempre, bem sei, mas ele estava a pedi-las  (há dias, graças à exposição da Gulbenkian e uma capa do Público, descobri que Darwin, afinal, era o gémeo prematuro do Beck, mas isso são contas de outro rosário). O bidé fraquejou, não se adaptou às circunstâncias, e salvo honrosas excepções em casas com outros detalhes tão caros ao design como marquises e cães de loiça, sucumbiu à evolução.

 

Uma outra espécie que tem de estar para cair a qualquer momento é o escritório. A mania do escritório, do local de trabalho, do emprego. À parte umas quantas profissões que têm a nobreza de pôr as mãos na massa – médicos, bombeiros, pedreiros, electricistas, dançarinas exóticas, blá, blá, blá – quantos de nós precisariam hoje, realmente, de sair de casa para trabalhar? Advogados, técnicos superiores de contas, criativos publicitários, designers, arquitectos, astrólogos, comentadores desportivos, colunistas da Mulher Moderna – que é que toda esta gente está a fazer a ocupar andares e andares de escritórios? Ide para vossas casas. Poupem nos transportes, na gasolina, nos nervos. Deixem de pensar no que vão vestir. Deixem de pensar na desculpa para o atraso. Deixem de meter atestados. Acaba-se a casa de banho ocupada, a conversa que não se quer ouvir, a interrupção gratuita, o barulho, o cheiro da convenção de marmitas à hora de almoço, o chato do chefe, o hipocondríaco do secretário, a histérica da adjunta, a arma química que a senhora da reprografia usa e insiste em chamar perfume.

 

A net ofereceu-nos mais que galerias de mature babes e blogues de intelectuais deprimidos. Deu-nos tempo e independência em relação ao espaço. Hoje, só percebo que se queira sair de casa para trabalhar numa de duas circunstâncias muito específicas: querer ter um caso tórrido com a estagiária do quinto andar ou viver numa casa com bidé e cães de loiça.

 

Imagino que não fosse o caso de Darwin. (Esse teria um australopithecus de loiça.)

publicado por Alexandre Borges às 02:24
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Terça-feira, 3 de Março de 2009

citando Alf, o extraterrestre: "I kill myself"

Chegados tão a propósito como um tipo vestido de palhaço Ronald McDonald a um funeral, aterraram, ultimamente, entre nós, os chamados temas fracturantes. A expressão, anteriormente só ouvida em conferências de imprensa de médicos de agremiações futebolísticas, designa, como sabemos, um cabaz de polémicas que, no fundo, se resume à trilogia: aborto, gays, eutanásia. O primeiro já foi desassombrado; os restantes atropelam-se, agora, na luta pela vaga a próxima discussão nacional, do cabaré ao convento, do blog à taberna.

 

Isto preocupa. Por duas razões: a primeira, como por aí se escreve, é que desvia a atenção dos problemas actuais; a segunda é que pode significar o fim do Bloco de Esquerda. Legalizados todos os temas fracturantes, o Bloco passa a ter tanta utilidade como um arrumador de carros no deserto.

 

Deixemos a questão gay, já aqui tão bem tratada pelo Pedro e pelo João. O que me perturba, hoje, é a outra.

 

Afinal, por que é que não deixam um tipo morrer sossegado? Dão-lhe rédea solta para decidir coisas bem piores e, depois, puxam-lhe o tapete. Um fulano é livre de escolher a paixão clubística, a profissão, voluntariar-se para a guerra, frequentar dietistas, morar na Rinchoa, ler até ao fim as crónicas de Vital Moreira, entrar em desfiles de Carnaval, incorporar tunas académicas, fazer férias na Costa, mas, quando chega a altura de acabar com tudo, não tem voto na matéria? Por amor de Deus! Até o deixam casar e ter filhos, mas não o deixam morrer? O que é que está errado nesta imagem?

 

Logo que um tipo fazia 18 anos, eu apresentava-lhe o papelinho com a pergunta: “Se um dia tiver o azar de ficar tão activo como um couve-flor, quero que me desliguem a máquina. Sim ou não?” E pimba. O tipo espetava-lhe com uma cruz. Se, algures, mudasse de ideias, ia à Loja do Cidadão e, enquanto esperava vez na Lisboagás, dirigia-se ao balcão da eutanásia e dizia: “olhe, afinal, acho que já não quero morrer”.

 

Estava feito. Pode ser que, um dia, seja assim. E que a lista de actividades proibidas a gente maior e vacinada mude para ítems traumáticos como: ligar a televisão antes das oito da noite; estar no Messenger mais que sete minutos por trimestre; achar o Manuel Cajuda um pão; fazer marquises; agitar bandeirinhas de partidos sem ter sido regiamente pago para executar essa função; trautear canções da Mafalda Veiga e/ou dos últimos 20 discos do Luís Represas em público.

 

A ver vamos. À atenção da agenda do Bloco.

publicado por Alexandre Borges às 14:38
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