Sábado, 28 de Fevereiro de 2009

A selva alheia

Estranho quem vive barricado na sua selva. E se recusa a visitar, nem que seja por um segundinho, a selva alheia.  Fico  varado - eu que gosto de mixar universos e personagens  e de circular em territórios contrastantes - com os cidadãos que só se sentem bem ou na tascarola ou no grémio literário. Aqueles que se recusam a passear diletantemente pelas diversas esquinas da vidinha, das mais limpas às mais abodegadas, e que preferem ficar estacionados, como se costuma dizer,  em lugar seguro. Sempre o mesmo, sempre o mesmo, seja  este elitista ou achungalhado.

 

Os que não passam a fronteira das freguesias do seu preconceitozinho para visitar outros lugarejos, ambientes e perfumes. Os que se recusam a falar com os Fanãs porque só se dirigem a pessoas de dois apelidos. Ou o contrário: gente que se recusa a falar com quem usa pulloveres em bico e tem uma maneira afectada de falar porque isso era ceder ao mundo "deles", do "guito" e da "tradição".

 

Peço desculpa, como o outro, por estar a sublinhar o óbvio : isto, seja o que isto for,  vale a pena, parece-me (a mim e à dona Lurdes),  pelas possibilidades.  Por, num dia, podermos estar a beber um bela de uma imperialeca  num tasco irrespirável e  noutro estarmos a arriscar uma bem recomendada vinhaça numa esplanada com vista sobre a cidade. Por podermos ir à cinemateca e ao mercado do DVD de Campolide. Por podermos ter um amigo rasta, que nos convoca para épicas festarolas junto ao Martim Moniz, e outro que nos leva a passear pelos jardins aristocráticos da sua casa de familia, cheios de histórias e memórias.

 

Sim, percebo muito mal as pessoas que ou só gostam da pastelaria ou só gostam da casa de chá.  Os que só frequentam a pastelaria e são incapazes de passar por uma casa de chá.  Os que se recusam a descer da casa de chá "Tia Constança"  para pedir uma bica ao balcão do café do Zé Nando. Sim, bem vistas as coisas, percebo mal o mundo quase todo.

publicado por Nuno Costa Santos às 00:01
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Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009

A playlist humana

Há discos que não se ouvem de manhã, outros que pela noite se tornam insuportáveis. Alguns só servem acompanhados de pessoas, e uns quantos não permitem companhia. Para cozinhar há discos muito úteis que, em outras situações, se revelariam incipientes. E mesmo para tomar banho há canções mais indicadas que outras (ok, confesso: refiro-me a "Dancing Queen", dos Abba).

 

Nunca ouço o "Music For a New Society", do John Cale, com as suas gélidas paisagens quase inumanas, antes das duas da matina. Já o "Homem na Cidade" de Carlos do Carmo apetece-me apenas quando madrugo: deixo aquela voz de tremenda hombridade atravessar a neblina e ir buscar a manhã, depositá-la na varanda e os fados tornam-se plena alegria. Não me ocorreria fazer isto com uma canção como o "Girls and Boys", dos Blur, que precisa de copos e gente. O Gardel obriga-me sempre a recorrer a camisas de linho - é curioso como no verão tenho sempre vontade de américas latina: adocicam-me as caipirinhas.

 

Nisso, os discos são como as pessoas. Não há pessoas, nenhuma pessoa, adequada para todas as horas. Quando muito uma que sabe ser mínimo denominador da maior parte das horas, que sabe a que horas ir e a que horas voltar, difícil ciência de ser âncora sem pesar muito ao barco. Mas isto, quando muito, acontece com uma pessoa. As outras são como os discos: têm dias, e acima de tudo têm horas.

 

Há aqueles amigos com quem só bebemos copos, e mesmo esses têm um tipo de copos específico. O amigo com quem almoçamos (mas nunca jantamos) e que é íntimo a falar da sua cozinha, mas nunca menciona o quarto. E aquele com quem jantamos (e nunca almoçamos): pouco fala da cozinha, é mais propenso a relatos de quarto. Existem os que falam de cinema, os que só querem falar de livros, os que só falam de discos. A maior parte dos amigos são de rua: vamo-los encontrando. Os amigos de sala de estar estão. E isso chega. Para cada pessoa descobrimos um momento, uma altura, em que nos sabem bem. Fora disso, népia.

 

Também assim com os discos, mas quando se é pago para ouvir discos descobre-se que nem sempre os discos têm os horários que ao princípio lhes atribuímos. Discos para os quais não imaginávamos hora alguma revelam-se fiés companheiros de solidão nocturna; discos que imaginávamos quase sombrios surgem-nos, de repente, do nada, como partilháveis. E descobre-se que se dermos tempo suficiente a qualquer disco ele lá encontrará uma forma de se encaixar no nosso horário, de se acomodar a uma hora, um momento específico, o que estraga a imagem que um tipo durante anos tinha criado de si: a de um gajo que sabe sempre o que ouvir e não ouvir, em cada situação, a cada hora.

 

Imaginem que tínhamos este cuidado com as pessoas. Que nos púnhamos a pensar "Se calhar este fulano funciona melhor em almoços mensais que em jantares trimestrais". Seria, pelo menos, confuso. Podia alterar a hierarquia das casas, a lista de compras do supermercado. Ainda daríamos por nós a ter de concordar com gente de direita ou ir à bola com benfiquistas. A descobrir que gente que desprezamos pode parecer-nos sensata enquanto amigos do peito nos parecem egoístas até à medula. Se pensarmos muito nisso, a nossa playlist humana não é tão científica quanto pensamos. Não é nada fácil, isto de escolher um disco para cada hora do dia.

publicado por João Bonifácio às 17:07
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o meu sonho para a crise

A crise nacional é mais que um dado adquirido: é como ser baixo – está lá. Somos nós. Nada a fazer. Passará, se passar, somente por milagre. Há muito que aceitei o destino - é o que uma pessoa com metro e 69 pode fazer. O que eu gostava, o único sonho que tenho, é que fizéssemos alguma coisa com isso.

 

O meu sonho para a crise era que da depressão nacional resultasse grande produção de arte. Obras profundas, honestas, que sugerissem caminhos novos, e não a traquitana inútil que prolifera. Que os empresários descobrissem novas áreas de negócio, com projectos sustentados, para que não voltassem a falhar. Que o português, em geral, deixasse de estar à espera do Estado miserável para fazer alguma coisa. Entendesse o óbvio: que, se quer alguma coisa da vida mais que o ar gratuito que abunda, tem de ser ele a chegar-se à frente.

 

E mais coisas: o regresso, para nunca mais partir, do absoluto amor pela liberdade de expressão; tripartição de poderes irredutível; consciência verdadeira do que se faz quando se vota e em quem se vota. Um Banco Central decente e competente, imprensa à prova de bala, guarda imperial à nova Constituição, cidadãos informados sobre as regras da justiça e da economia que jamais voltassem a adormecer sobre a negligência da sua ignorância. Realismo contra a utopia, pertinência contra a demagogia, desejo de construir contra o tédio de se deixar estar.

 

Sobretudo, que isto, esta coisa patética a que chegámos, resultasse na única consequência aparentemente lógica dum erro: a sua correcção. Isto é, eu amaria profundamente a crise se ela apagasse do mapa a classe política que a criou porque uma nova geração de líderes estava mesmo aí a chegar.

 

Mas – não sei se é de mim – não estou a ver isso a vir.

publicado por Alexandre Borges às 01:15
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Domingo, 22 de Fevereiro de 2009

Para aferir do seu grau de homofobia

Nos últimos dias muita celeuma se criou quanto à possibilidade do casamento homossexual ser legalizado. Os oponentes levantam os mais apocalípticos cenários como consequência da legalização enquanto os defensores chamam homofóbicos aos antipatizantes da causa, o que muito tem chocado os ditos antipatizantes.

Se está confuso quanto a esta situação, o teste que se segue pode ser-lhe útil, visto permitir aferir com escassa margem de erro o seu grau de homofobia. O teste foi feito de acordo com o pensamento médio português e reproduz as grandes correntes do pensamento contemporâneo tuga, no que diz respeito à questão homossexual, sem grande margem de erro.

 

Quando me quero referir aos homossexuais chamo-lhes:

 

a) homossexuais;

b) panisgas, mas é na brincadeira, até tenho amigos que são panisgas e eles não se chateiam quando os chamo assim; são uns queridos, todos, por igual;

c) paneleiragem;

d) 'anda aqui fofinho', ou então, 'sai daqui, fufa'

 

Um homossexual (em português corrente: um panisgas) é:

 

a) um ser com os mesmos direitos que os cidadãos normais, menos o de se casar com alguém do mesmo sexo;

b) gente de quem eu até sou amigo, porém tenho de reconhecer que são promíscuos, gostam de usar fardas, depilam as pernas, não gostam de futebol, não bebem cerveja, só vinho francês, têm a mania que são sensíveis, vêem documentários coreanos e passam a vida a tentar ter sexo com adolescentes ou halterofilistas em casas de banho públicas;

c) provavelmente inflamável; mas para ter a certeza nada melhor que regá-lo com gasolina e a seguir acender um fósforo;

d) certamente meu amigo e possivelmente meu amante ou ex-amante;

 

O que mais me irrita na paneleiragem é:

 

a) quererem destruir a família tradicional; se não fosse a familia tradicional como é que pessoas como eu teriam sexo sem pagar?

b) aqueles gestos efeminados, os gritinhos, as plumas, o disco-sound, as camisas vermelhas acetinadas, a mania das saladas de rúcula; mas gosto deles e até tenho amigos que são panisguinhas;

c) ainda não estarem todos mortos;

d) serem tantos que não terei tempo para fazer amor com todos;

 

Em termos antropológicos, a homossexualidade é:

 

a) um desvio da norma da natureza, que atribui primordialmente ao sexo uma função reprodutora; aliás, eu e os meus amigos achamos que só devia ter sexo quem estivesse disposto a sustentar uma criança;

b) uma escolha; só que os eles e elas que escolhem ser homossexuais são gente mal informada, coitadinhos, porque não frequentam a Igreja;

c) uma doença, foda-se; há dúvidas? queres ver que tu também és paneleiro? onde está o meu bidon de gasolina, onde?

d) fofinha;

 

Os defensores da legalização do casamento gay são:

 

a) de esquerda;

b) homossexuais;

c) alvos a abater;

d) sexys;

 

O casamento homossexual devia ser legalizado:

 

a) errado, porque destrói a base da família tradicional;

b) errado, porque se cedemos quanto ao casamento, qualquer dia eles já podem andar por aí na rua aos beijos, o que é nojento, palavra do Senhor ;

c) errado; porém, se fosse legalizado, um casamento homossexual seria uma óptima oportunidade para matar paneleiros;

d) certo, porque um casamento é uma chance como outra qualquer de fazer mais uma orgia;

 

Se o casamento gay for legalizado:

 

a) as nossas criancinhas tornam-se todas rabe...gay, e a humanidade acaba;

b) os panisgas vão obrigar toda a gente a depilar as pernas, e vamos ter de ouvir os Village People 24 horas por dia em altifalantes;

c) emigro;

d) caso-me; só não sei se com o António, com o Joaquim ou com o Manuel;

 

Por mim, os homossexuais:

 

a) continuavam a exercer as suas práticas em segredo enquanto publicamente se portavam como gente normal, e já não havia chatices;

b) frequentavam workshops de heterossexualidade para aprenderem a ser pessoas normais, porque eles também são gente, coitadinhos;

c) eram crucificados no pelourinho;

d) podiam fazer-me o que quisessem;

 

4 ou mais respostas a): Parabéns, você é o Eduardo Nogueira Pinto ou amigo do Eduardo Nogueira Pinto;

 

4 ou mais respostas b): Parabéns, você ou é a mãe do Eduardo Nogueira Pinto ou é padre;

 

4 ou mais respostas c) Parabéns, você é TUGA;

 

4 ou mais respostas d): Você é panisgas;

 

Várias respostas cruzadas: Você é (argh) bi-sexual.

 

publicado por João Bonifácio às 17:42
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É Carnaval: alegoria para todos

 

Sei os riscos que corro ao escrever esta crónica: o Carnaval é provavelmente a única e verdadeira causa fracturante em Portugal. O actual presidente da República teve disso a prova, quando decidiu anular a tolerância de ponto dada na «terça-feira de Carnaval» num dos seus mandados como primeiro-ministro.  A razão, alegou o homem certamente em visível delírio, era que não havia motivo para não se trabalhar nesse dia. Assistiu-se a seguir a um tão lindo como raro movimento de união nacional, em que cidadãos de todos os cantos da vida e do país se uniram indignados reclamando o direito inalienável de desfilar mascarados. Cavaco Silva terá assim aprendido a lição: em Portugal, com o Carnaval não se brinca.

 

Por mim estou com Cavaco, nem que seja por uma vez: detesto o Carnaval. Não lhe vejo razão nem efeitos benéficos, a não ser o legitimar alguns comportamentos desviantes durante alguns dias. A obrigação implícita de nos «divertirmos» em dias marcados liberta o anarquista que há em mim (ou o estalinista, depende da hora). E depois há o que realmente me maça: não compreendo a efeméride e isso irrita-me. Os meus amigos mais lidos e carnavalescos recordam-me a origem da coisa, o adeus aos prazeres terrenos antes do início da penitência da Quaresma. Ora eu não sou nada insensível aos prazeres terrenos: mas ver isso traduzido por roliças moças da Mealhada ou matrafonas de Torres Vedras é coisa que me ultrapassa. Depois lembro-me que os meus amigos mais lidos e carnavalescos são pessoas muito sozinhas.

 

Como último recurso os mais viajados descrevem o esplendor do Carnaval do Rio, a loucura orgiástica de Salvador da Bahia, as mulheres lindíssimas e alegremente acessíveis que pululam nesses lugares. Erro deles. Sou um tipo antiquado, que acredita nos velhos rituais da sedução: uma mulher bem vestida, um bom vinho, um restaurante simpático, uma conversa estimulante. E assim de repente não estou a ver como poderia fazer isso mesmo com a mais deslumbrante das mulheres se ela estivesse vestida apenas com plumas a sair do traseiro. Chamem-me romântico.

 

Aqui chegado, é justo dizer que ao longo dos anos a minha atitude em relação ao Carnaval tem vindo a evoluir da fúria pura e dura para uma espécie de melancolia filosófica. Em vez de rosnar insultos à simples visão do desfile de Ovar assola-me uma tristeza que vem da confirmação da natureza humana (de que não sou especial admirador). Vejo o Carnaval português como a prova viva das dissertações existencialistas de Kierkegaard. Tenho a certeza de que um minuto com a escola de samba da Mealhada Bota-Aí-No-Cangaço (repleta de adolescentes tiritando ao frio enquanto cantam) faria com que Sartre escrevesse O Ser E O Nada de rajada (e com A Náusea como prefácio). Até o provérbio «A vida são dois dias, o Carnaval são três» me parece ter sido escrito por Camus, como epígrafe para O Homem Revoltado e denunciador do ser humano abandonado a si mesmo, sem divindade que lhe valha. E é pensando na palidez da condição humana que me sento enquanto vejo uma mulher lindíssima a sorrir para mim, plumas saindo-lhe do traseiro.

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publicado por Nuno Miguel Guedes às 14:02
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Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2009

lotação esgotante

Dizem que nós, portugueses, somos um excelente público. Discordo pesarosamente. Não somos um excelente público, somos uns fáceis, umas maria-vai-com-as-outras. É diferente.

 

Sempre me intrigou esta aparente paixão pela música. Se compramos poucos e, frequentemente, maus livros; se vamos cada vez menos ao cinema e os blockbusters lideram sempre o box-office; se pensamos em teatro e o primeiro nome de que nos lembramos é Filipe La Féria; como poderíamos, depois, ter um coração melómano à prova de bala?

 

Se o amigo leitor não tiver mesmo mais nada que fazer e estiver, por exemplo, acamado ou de quarentena ou debaixo daquele móvel pesado do Ikea, desde a semana passada, que tentou montar sozinho para poupar nos custos da mão-de-obra, espreite uma edição do “Top +” ou deite uma olhadela à lista de DVD musicais mais vendidos entre nós: no surprises. Estarão lá, à cabeça, num índice e noutro, Carreira-O-Velho e o Avô Cantigas. Procure pelos Franz Ferdinand, Arcade Fire, Sigur Rós, Radiohead, Nick Cave, essa malta toda que enche salas de cada vez que cá vem. Onde estão eles? Não estão. Ou, na melhor da hipóteses, aparecem lá entalados no 15º ou 22º lugar, entre a compilação das novas músicas da Carochinha e os remixes da Shakira.

 

Então, que multidões são essas que enchem os concertos, mas não compram discos?

 

Ponto um: é mais ou menos sempre a mesma multidão. Há umas periferias oscilantes, mas o núcleo duro percorre os espectáculos ao vivo das bandas boas como uma trupe de enófilos a rota dos vinhos Alentejo. Ponto dois: é isso mesmo – uma multidão que vai a concertos, mas não compra discos.

 

Resulta disto o quê? Que, salvo honrosas excepções, a massa vai aos concertos por uma canção. Berra como se a estivessem a esfolar quando a banda sobe ao palco, mas logo se silencia. Aplaude os dois ou três primeiros temas e, depois, perde o entusiasmo. Bate palmas e responde “Yeah! a tudo o que o vocalista disser, seja “obrigado”, “are you havin’ fun?”, um elogio rasgado ao nosso sol e à nossa comida (mesmo que chova a potes e ainda só tenham tido tempo para uma refeição). Depois, canção a canção, de desconhecimento em desconhecimento, a massa vai esmorecendo. Recosta-se, cruza os braços, conversa, tira fotografias com o telemóvel em que nunca se identificará se quem está em palco é o Iggy Pop ou a Romana. Fica um sentimento de ejaculação precoce colectiva. Fica no ar um cheiro a depressão pós-coito, com vergonha e tédio à mistura. Aborrecida, a massa começa a pedir aquela canção. Aquela. O hit lançado há 15 anos e que a banda tem tanta vontade de tocar como de que lhe pisem um pé. Pede. E pede. E pede. Os artistas lá lhe fazem a vontade: “This next one’s called…”. E aí a massa explode de alegria. É golo. Um surpreendente “second coming”. A oportunidade para soltar o grupo coral que há em nós. E pronto. A partir daí, já não é preciso mais nada. Eles que toquem o que quiserem. A obra que fizeram nos 15 anos seguintes e não interessa ao menino Jesus. O melhor é até sair antes do final do concerto para não apanhar muito trânsito.

 

E muito mais haveria a dizer. Da ditadura do gosto ao atrevimento do preconceito, passando pelo ambiente non-sense dos festivais de Verão. Mas fiquemos por aqui, que isto era só um desabafo a propósito do concerto dos Oasis e de como 9,5 em cada 10 alminhas presentes só lá foram por causa de “Wonderwall”, ainda que tivessem ouvido 20 temas bem melhores.

 

Voltaremos ao assunto no encore.

publicado por Alexandre Borges às 16:17
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Domingo, 15 de Fevereiro de 2009

Breve síntese sobre Darwin para uso coloquial

De repente o mundo inteiro deu em especialista de Darwin. O homem está em todo o lado, desde as capas de revistas especializadas ao bas fond analfabeto das conversas do Snob. Estaco de espanto na gasolineira perante um aumento do preço do combustível e o serviçal incumbido de me segurar na mangueira sai-se com um “É assim, amigo, quem tem dinheiro pode, quem não tem não pode. É a selecção natural”. Diz isto todo enfunado do poder que o seu lugar de segurador de mangueira lhe atribui, diz isto com o sarcasmo que é natural aos observadores privilegiados (como os seguradores de mangueira), diz isto sem reparar que ele próprio “não pode”. Em não tendo dinheiro opto pelo eléctrico, vejo-o passar, vou a correr atrás dele mas sou ultrapassado por um puto novo que o alcança a tempo enquanto eu fico apeado. E aquele monstrinho de acne grita, “É assim, velhadas, é a selecção natural”. E eu fico à espera que o eléctrico descarrile e o esmague.


 

Darwin pula e repula na língua das gentes, salta de garganta em garganta como uma gripezinha irritante, anda em bolandas na boca dos que o não leram ou tresleram de acordo com o que mais lhes interessava. Homens socorrem-se dessa expressão catchy que é “selecção natural” para justificar o seu direito a disseminar as suas sementes pelo maior número de fêmeas possível; e as mulheres esforçam-se por lembrar que a ciência nunca chegou a provar que a cozinha é seu o habitat natural, pelo que a cozinha não tem direito algum a seleccioná-las para a tarefa de cortar a batata e grelhar o peixinho. Políticos dizem que o povo (o meio) os legitimou (seleccionou); enquanto os seus oponentes bradam que o político enganou o povo, pelo que a selecção é artificial, logo falseada, um horror nunca visto desde que se começou a chumbar dentes para evitar gangrenas.


 

E todos juntos, unidos por esta nossa incapacidade de ler e calar, recorremos a três frases feitas do velho, porque adoramos citar alguém que é bem citar, lá poderíamos não saber tudo sobre esta coisa que é essencial saber e ainda por cima vai bem com uma saladinha de rúcula? E porque somos sofisticados dizemos coisas magníficas, que a moral não existe, que é só um esquema de acção para a sobrevivência, e cheios de convicção avançamos e extrapolamos (porque já percebemos como esta porra toda funciona) e, da prevalência da táctica sobre a técnica no futebol moderno à proliferação de revistas como a adorável Happy (por falar nisso, hoje já atou o seu marido à cama com algemas, enquanto experimentava as delícias da bissexualidade com uma desconhecida?), passando por aquela simpática luta de espécies ali em Gaza, temos explicação para tudo: é a selecção natural. E depois de dizer estas baboseiras inconsequentes, lá prosseguimos, todos contentes com a nossa lucidez e sabedoria, rumo à próxima discussão infundada, pode ser uma qualquer poque temos opiniões sobre tudo e lemos uma coisa qualquer sobre toda e qualquer coisa. 
 

Isto anda assim porque o barbudo faz anos. E como faz anos volta-se a falar dele e duas ou três ideias tornam-se receituário pop para todos os males. Mas o aniversário do barbudo passará e depois Darwin voltará ao esquecimento natural que é a ordem natural da estupidez humana, enquanto outro desgraçado que trabalhou a vida inteira será resgatado e inapelavelmente distorcido pelo incontrolável papaguear humano até à exaustão. E nessa altura explicaremos Gaza, a táctica e a Happy recorrendo a outro camone qualquer e tudo estará bem no nosso mundo, tudo estará como sempre, muda a citação mantém-se a baboseira, essencial é a que a gente se mantenha a palrar, palrar muito e dar pulinhos também.

 

Mais vale deixar-me de tangas: também gostava de juntar-me à festa, mas de Darwin (ou outro camone qualquer) não percebo nada. Para mim a sobrevivência foi muito bem explicada por um tipo inglês relativamente céptico, na realidade o único tipo que li com atenção à excepção de Valdano. A coisa resume-se a isto:


 

“They fuck you up, your mum and dad.
They may not mean to, but they do.
They fill you with the faults they had
And add some extra just for you”.


 

Àquela parte do “They don't mean to, but they do” eu costumo chamar “Biologia”. Ao último verso chamo “Evolução”. E a tudo isto que escrevi chamo “Não ter nada para fazer e armar ao pingarelho”. (Também tenho direito.)

publicado por João Bonifácio às 18:39
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Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009

Uma doença do tempo deles

Posso afirmar que nunca estive a mil e, se tudo correr bem, nunca virei a estar. Estar a mil é uma condição característica da sociedade moderna, não tanto enquanto verbalização destemida e assertiva da compressão espacio-temporal que faz galopar a nossa cultura, mas enquanto tema que me lembrei de abordar há poucos dias atrás.
 
Estar a mil é ser-se mais alto. É ser-se maior do que os homens. Infelizmente,
estar a mil é, também, dizê-lo cantando a toda a gente. Quando alguém nos diz que está a mil, não nos remete apenas para a velocidade a que a mundanidade da sua vida se processa. Estar a mil é também dizer muito acerca daquilo que se fez - geralmente pouco mais do que aquilo que habitualmente se faz.. Estar a mil é ter que resolver três problemas na Loja do Cidadão, mas fazê-lo em três pisos diferentes e, três senhas tiradas depois, ter que passar pelo escritório para ver os mails. No essencial, estar a mil é ter que resolver assuntos que não nos incomodam nos restantes dias, e conseguir encaixar isso num horário de expediente manifestamente injusto. É uma joie de vivre da vidinha.
 
 Por outro lado, é uma condição jamais partilhada, a um só tempo, por dois indivíduos. É absolutamente exclusiva, um pouco como viver com uma doença grave. Se alguém nos diz que teve um dia a mil, que não nos passe pela cabeça poder ter tido um dia igualmente filho da mãe. Podemos ter resolvido problemas vários. Podem as soluções ter-nos levado a curar uma doença grave, salvar uma família de linces ibéricos que andava à deriva na Conde Valbom, ou sanear financeiramente uma PME sem despedimentos colectivos. Tudo isso desinteressa. 

 

 O verdadeiro drama será sempre exclusivo do fulano das nossas relações que, pleno de facúndia, se lembrou de equacionar metaforicamente a velocidade a que o seu dia decorre - ali especado à nossa frente.

 

 Mas estar a mil é também falar de tudo o que ainda não se fez. É o porvir de um gajo ocupadíssimo que dispensou um minutinho da sua vertigem para conversar. Assim, estar a mil é também uma condição revestida de humanidade e de um profundo sentimento de partilha. Que alguém capaz de passar pelos acontecimentos da sua vida a uma velocidade oito vezes superior à permitida por lei nas nossas auto-estradas se sinta, ainda assim, compelido a parar no Canal Caveira da sua convivialidade, não para atestar, esvaziar, ou aviar, mas tão somente para conversar, é um comportamento que nós, transeuntes vagarosos de Estrada Nacional, jamais seremos capazes de retribuir.
  

Vasco Mendonça
 

publicado por Nuno Costa Santos às 23:21
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Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009

Manual de Engate Salazarista

 

 

Ditadores do it better.

 

Manda os homens para a guerra para ficares com as mulheres deles.
 
Mantém a neutralidade na segunda guerra mas com elas sê um macho escaldante.
 
Procura no seio da mocidade portuguesa as moças mais jeitosas.
 
O que quer que faças com elas, usa sempre preservativos Pidex.

 

 

(Textinho escrito a partir de um exercício de uma aula de escrita de sketches; participaram no brainstorm Carla Vicente,  Damásio Caeiro, Jaime Silva, João Pinto Dias, Joel Gomes, José Costa, José Oliveira, Nelson Barbosa, Nuno Costa, Paulo Oliveira, Pedro Cunha Matos, Sérgio Silva, Tiago Mendes, Tiago Negrão e o melancólico formador).

publicado por Nuno Costa Santos às 10:06
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Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009

divã, o terrível

Tenho tido sonhos estranhos, ultimamente. Há um, recorrente, em que dou por mim a correr pela colina relvada do ambiente do Windows. Corro sem destino. Não há vento, nem sol, somente ícones de programas que não sei abrir. A dada altura, apercebo-me dum ardor na canela direita, mas recuso-me a ver o que é. Corro ainda mais depressa, como se pudesse escapar à dor, mas ela não passa. Quando, finalmente, ganho coragem de olhar, vejo o Augusto Santos Silva a abocanhar-me o osso. É sempre assim. Depois, nunca me lembro do que acontece.

 

Noutro, sonho que acordo. Está um dia glorioso e salto da cama. Tomo banho e, quando enfrento o espelho para me barbear, paraliso ao dar-me conta de que sou o Vítor Constâncio. A minha mulher surge, então, no reflexo. Vem confortar-me como um abraço e esse momento traz alguma paz. Mas, quando a encaro para lhe falar daquela revelação terrível, apercebo-me de que casei com a Cândida Almeida.

 

E há muitos outros. Um em que vou mostrar os meus álbuns de fotografias às visitas e só lá estão fotos do José Maria Martins. O José Maria Martins em férias, o José Maria Martins na Eurodisney, o José Maria Martins na tropa, a primeira comunhão do José Maria Martins. Noutro, o Charles Smith incrimina-me. Noutro, estou a apresentar o livro de poemas do Gonçalo Amaral. Noutro, chego à caixa do supermercado para pagar e tudo o que tenho no cesto são porta-chaves com miniaturas do Mário Crespo. E muito mais.

 

Não farei qualquer esforço de psicanálise. Só quero dizer que tenho saudades do tempo em que todos os sonhos que recordava, de manhã, não envolviam mais que uma série de passes trocados com o Vítor Paneira, culminando num golo de cabeça meu, batendo um guarda-redes qualquer na final da antiga Taça dos Campeões. Acordava muito feliz.

publicado por Alexandre Borges às 02:13
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