Terça-feira, 15 de Abril de 2008

O convívio

Ao que consta a falta de convívio é um dos grandes problemas dos nossos tempos. Diz que estamos todos muito individualistas, muito pouco interessados em beber uns copos com amigos, desconhecidos ou apenas uns tipos que estavam ali quando você chegou, contar umas graçolas, dizer mal da humanidade em geral e do vizinho do 4º dto em particular, enfim com aquelas coisas supostamente boas com que todos gostávamos de ganhar tempo. Melhor, aparentemente já não gostamos todos disso. Ou melhor ainda, já quase ninguém gosta disso. Parece, afinal, que agora gostamos mais de dividir o nosso tempo livre entre o desgaste das teclas do comando da televisão ou na matança de zombies na play station e a mui nobre e digna tarefa de gritar com os nossos filhos enquanto eles “chateiam” no msn. O nosso convívio – se a isso lhe podemos dar esse nome – resume-se a lols e sinais esquisitos que mandamos para uns tipos que ainda chamamos nossos amigos mas que teríamos dificuldade em reconhecer se os víssemos na rua. Foram umas pessoas que conhecemos há uns anos e que eram filhos de vizinhos dos nossos pais ou com quem andamos na escola. Ainda fomos aos casamentos ou baptizados dos filhos mas depois vamos encontrando-os cada vez mais espaçadamente até só ficarem uns smss de Natal e outras datas festivas. Quando, por acaso, encontramos alguma dessas pessoas, mal passada a fase do grande abraço, do “então pá o que é que andas a fazer”, filhinhos, mulher e tal, instala-se um desconforto atroz, uma necessidade urgente de sair dali o mais depressa possível. Combinamos uns jantares ou uns almoços que sabemos nunca irem acontecer.
É nesta altura que o tipo, a que vocês dão a honra de ler, olha para trás e descobre que não era nada disto o que tinha planeado escrever. O cidadão lê uma coisa que acha curiosa, começa a escrevinhá-la e quando dá por ela percebe que um feiticeiro escreveu o que lhe deu na telha com os seus dedos. Isto não era para ser um lamento meio pretensioso sobre o isolamento dos meus concidadãos, nem (parei a tempo e já não vos vou maçar com isso) sobre o fecho das pessoas no seu grupinho de amigos (os que o têm) e do pânico de conhecer outra gente, de ouvir coisas novas, de arriscar ser confrontado com os seus receios, de viver, no fundo, outras vidas. Nada disso.
A coisa era para ser sobre o convívio e o seu, pelo menos, para mim, novo significado.
Um amigo, com certeza, preocupado com o que ele poderia pensar ser a minha rendição aos prazeres da tal vida na concha, enviou-me um interessante site onde eu era informado que um conjunto de raparigas em lingerie, estariam dispostas a conviver comigo. Assim mesmo, conviver. As ditas senhoras, prendadas com certeza, não só convivem, também massajam.
A princípio, confesso, achei um bocado estranho o facto de se pagar mais por conviver do que por uma massagem. Mal ou bem, a massagem exige um certo esforço físico, conhecimentos anatómicos mas, depois, sensibilizado e triste comigo por a idade me estar a deixar desconfiado, percebi tudo: gente boa com os valores no lugar. Naquela casa dá-se mais valor ao convívio que à massagem, à troca de ideias sobre uns apalpanços nas omoplatas, ao diálogo construtivo ou não sobre uns ridículos pseudo golpes de Karaté. O mundo ainda tem salvação.
Anda um tipo armado em cronista a destilar pessimismo e há um amigo que lhe mostra que ainda há gente que dá grande valor, tanto que está até disposto a pagar por essa coisa tão agradável, ao melhor que há no mundo: o convívio.
 
publicado por Pedro Marques Lopes às 20:51
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4 comentários:
De isa a 16 de Abril de 2008 às 02:16
que não seja preciso pagar, caro PML, que n seja preciso pagar...

PS: gosto taaaaanto de o ler por aqui!
De A.N.(A.) a 16 de Abril de 2008 às 10:41
O Mundo ainda tem salvação?
Bom. Optimismos.
De PR a 17 de Abril de 2008 às 02:28
Passo. Abençoada solidão...sem convívios.
Cumprimentos.
De alice campos a 17 de Abril de 2008 às 16:52
não sei se gosto mais de o ouvir na rcp ou de o ler aqui, agora :)

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