Sexta-feira, 11 de Abril de 2008

Louvor aos segundos melhores

Nada me aborrece mais que a gente que vence sempre, que se ultrapassa a si mesma. Michael Jordan nunca me aborreceu porque nunca se ultrapassou: foi sempre brilhante. Cristiano Ronaldo aborrece-me porque quer ganhar. Jordan ganhava, ponto. Ronaldo quer mostrar que joga com (e para) a equipa. Aborrece-me o altruísmo.

 

Zidane nunca me aborreceu. Nunca sabíamos se ia ser genial, se ia andar a dormir em campo ou se ia explodir. Podia ter saído em glória no seu último jogo, mas quando um moço de más famílias chamou à sua irmã "puta argelina", explodiu. Zidane acha que foi pelo "puta", mas foi pelo "argelina".

 

Naquele instante, o homem que se aprestava a ser imortalizado como o melhor jogador de sempre desde Maradona, deixou de ser um génio para voltar a ser um pé descalço de um bairro miserável num país colonizado. Não tinha direito a estar ali, a representar a França num palco de glória. E retirou-se do jogo. Com uma agressão, mas não uma agressão qualquer: uma agressão esteticamente superior, uma cabeçada não na cabeça mas no peito - não na razão mas sim no coração.

E Zidane tornou-se, para mim, nessa falha, o melhor desportista que alguma vez vi, um dos escassos homens a quem daria um abraço.

 

Vejo isso em Quaresma. Tinha mais fintas que Ronaldo. Era mais belo com a redonda que Ronaldo. Centrava com os dois pés, apurou desde cedo a trivela, domina a bola de calcanhar em pleno ar. Nunca é uma seta, nunca arranca em velocidade, é algo de esguio, lânguido, como se o próprio relvado se curvasse e o arrastasse. E nunca explode de alegria: quando marca põe um sorriso sarcástico, como se o golo sempre tivesse estado ali à sua espera, e surgisse naquele instante porque apeteceu a Quaresma ser magnânimo e dar lá ao público o que o público quer.

 

Quando sofre uma falta Quaresma não abre os braços, não berra, não pede amarelo. Olha com desdém o assassino que quer destruir o futebol, como quem diz 'Lá estão estes chatos a querer retirar a beleza do mundo'. É sempre altivo, porque é sempre menor - menor que os maiores, porque é cigano, sabe-se cigano, tem o estigma e o estigma não o larga. Não joga com a equipa nem contra o adversário, mas sim com a beleza e contra aquela ferida, a de ser o outro, o tipo que não tem país nem lugar, que é mafioso, alguém em quem não se pode confiar. É um masoquista e os masoquistas nunca me aborrecem.

 

Nunca vai ser o melhor jogador do mundo. É-o, a espaços: nunca Ronaldo será tão belo a centrar como Quaresma: é demasiado alto, parece uma marioneta cujas pernas não pertencem ao corpo. Quaresma não: é entroncado, redondo, parece sugar o mundo. Não o faz girar à sua volta - provoca-lhe uma guinada lombar, uma curvatura no espaço e no tempo.

 

Dias depois da cabeçada de Zidane, Luís Miguel Queirós escreveu no Público um texto magnífico sobre a cabeçada, chamado "Em defesa e louvor de Zidane". Nada vale a pena se o Miguel não escrever sobre o assunto. Espero que um dia ele - que nunca vai ser reconhecido como o melhor português a escrever sobre livros - escreva sobre Quaresma. Eu vou ler, nada aborrecido.

publicado por João Bonifácio às 12:14
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1 comentário:
De N. a 11 de Abril de 2008 às 18:48
Isso é paixão.

Zidane é Zinédine Zidane. Único.

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