Terça-feira, 8 de Abril de 2008

O comando da televisão

Um cidadão chega a casa, calça os chinelos felpudos, pega na sua mantinha favorita, liga a televisão e com um suspirinho deita-se no sofá. Quando está bem aconchegado, cigarros e isqueiro ao alcance da mão, bolachinhas de coco no pires e um chá verde a fumegar, estende o braço para o sítio onde deveria estar o mais precioso bem de qualquer preguiçoso que se preze: o comando da televisão.  

Há quem não preste a devida atenção às possíveis consequências deste gesto. Actos de violência sobre criancinhas, divórcios altamente litigiosos, destruição de bens e coisas menos graves como discursos xenófobos, actos terroristas e golpes de Estado.

Ligada a televisão, vê, o cansado cidadão, o Dr Phil a discorrer sobre a importância de não consumir feijão para o necessário equilíbrio matrimonial. Enquanto se desloca do local onde está a televisão para o seu sofá, ainda vai reflectindo sobre a sagacidade do bom do Phil. Mas hoje está-se a sentir mais leve e apetece-lhe mesmo é descontrair ao doce som da voz do Pacheco Pereira. Pânico: comando ou não está lá ou falta-lhe uma pilha ou é o da aparelhagem. Dentro do cenário catastrófico é melhor que não esteja nada em seu redor. Ainda a semana passada uma senhora de 72 anos foi atingida na cabeça com uma playstation portátil, enquanto tentava adivinhar o preço certo de uma embalagem Racomi isco, que um dos filhos de um pacato cidadão tinha deixado no lugar de um comando de televisão.   

A imagem da matrona atrás do frágil marido armada com um rolo da massa, é quase um acto de ternura comparada com a crueldade da mulher a subtrair o comando da televisão ao seu consorte – repetir várias vezes esta lindíssima palavra – quando ele está com aquele ar angelical, só com o nariz de fora da manta, preparando-se para uma sessão de zapping furioso.  

O comando já substituiu, e há muito, o carro como prolongamento da pila (recuso-me a escrever a outra palavra começada por p). A verdadeira imagem do pater familias contemporâneo é a do homem todo-poderoso, de comando em riste a definir o que a sua família deve ver.

publicado por Pedro Marques Lopes às 17:30
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3 comentários:
De isa a 9 de Abril de 2008 às 01:54
:-D Muito bom!
De helio a 9 de Abril de 2008 às 15:44
Muito Bom! Concordo plenamente.

Gostei bastante daquele bocadinho de texto acerca da
matrona a correr atrás do frágil marido armada com o rolo da massa.

Muito Bom.
De susu a 9 de Abril de 2008 às 22:00
Olá ! Sou uma mulher e entendo perfeitamente a historia do comando! Eu também gosto de chegar em casa, aconchegar-me no sofá, com coisitas para petiscar e pegar no precioso comando para uma boa sessão de zapping. Sobretudo aos domingos a tarde!

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