Terça-feira, 8 de Abril de 2008

as vidas dos outros

Várias coisas me perturbam no caso Max Mosley, o senhor do automobilismo filmado numa orgia fetichista de inspiração nazi em vídeo, posteriormente, disponibilizado aos cibernautas. Nenhuma delas é o nazismo.
Para começar, perturba-me o vídeo. A sua simples existência, quero eu dizer, não o conteúdo, dado que nem o vi (quando quero ver you-tubes chocantes, opto por aqueles pedaços de ‘American Idol’ em versão antigos países da Cortina de Ferro). Nos dias que vivemos, leitor, os telemóveis são proibidos em aviões, nos cinemas, em reuniões de trabalho. É um erro. A julgar pela quantidade de figuras públicas que já viu episódios da sua vida íntima expostos em vídeos amadores a circular pela net, os telemóveis deviam era ser proibidos no sexo. Seria recomendável contratar, creio, uma senhora com voz radiofónica para ter no quarto e anunciar, antes da preparação da cópula: “Por favor, desligue o seu telemóvel. É proibido filmar, fotografar ou captar imagens sob qualquer forma no decorrer do espectáculo”. O conceito de "espectáculo" é discutível, mas, se a parceira se amedrontasse com a intromissão e não lhe voltássemos a pôr a vista em cima, restar-nos-ia sempre a senhora da voz radiofónica.
Depois, perturba-me a Fórmula 1. Chamem-me liberal, mas indivíduo que circule acima de 170 km/h causa-me mais calafrios que qualquer desequilibrado sexual lá com a vida dele.
Por fim e acima de tudo, perturba-me que o politicamente correcto tenha conquistado até os domínios da fantasia sexual.
Até este caso, supunha que a palavra “consentimento” importasse e que se deixasse o sexo e a forma como ele acontece ao entendimento dos adultos nele envolvidos. O argumento é – felizmente – válido para uma série de razões, mas aqui, saberá a gripe do moralismo porquê, é suspenso.
Aguardo, nervosamente, os próximos passos. Enfermeiras, professoras, colegiais, secretárias, massagistas e demais classes habitualmente citadas em personagens sexuais, vão, decerto, levantar-se contra a estigmatização. A dirty-talk será proibida depois de passar pelo crivo do Instituto Camões. As prostitutas exigirão uma carteira profissional que as distinga de quem, temporária e privativamente, se atreva a imitá-las.
Das suas poltronas e de portáteis ao colo, os moralistas visionarão a intimidade dos outros e decidirão, em sede de consciência, se podemos viver ou ser condenados ao degredo. Ocupados, ao menos, não terão tempo de pensar nas suas vidas sexuais arianamente normalizadas e puras.
publicado por Alexandre Borges às 01:42
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1 comentário:
De João Bonifácio a 8 de Abril de 2008 às 02:28
Magnífico.

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