Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2013

Autores do Condomínio

Está em cena até ao dia 10 de Fevereiro. Sou o autor do texto. Para a folha de sala escrevi sobre o processo de trabalho, comandado pelo João Mota (que foi quem teve a ideia), e como fui chegando a algumas soluções. Sem pormenores. Aproveito para aqui sublinhar as referências literárias que são citadas - e, na maior parte das vezes, confrontadas pelos personagens.

Além da "Bíblia", essa eterna referência, na peça são convocados os seguintes autores e livros:

Albert Cossery, “Mendigos e Altivos”.

António Bento e Elias Barreto, “Sem Amor Sem Abrigo”.

António Gancho, “O Ar da Manhã” e entrevistas dadas pelo autor, incluídas no livro “Os Maníacos de Qualidade”, de Joana Amaral Dias.

Bashô, “O Gosto Solitário do Orvalho”.

David Foster Wallace, “This is Water”.

Dalai Lama, “O Caminho da Serenidade”.

E.M. Cioran, “Do Inconveniente de Ter Nascido”.

Fiódor Dostoiévski, “Noites Brancas”.

Jack London, “O Vagabundo”.

L. Moulin, “L’Europa a Tavola” (citado no livro “A Caridade Dá que Fazer”, de Luciano Manicardi).

Manuel Beça Múrias, “O Salazar Nunca Mais Morre”.

Máximo Gorki, “O Vagabundo Filósofo” e “Albergue Nocturno”.

Paul Auster, “No País das Últimas Coisas”.

Salman Rushdie, “Fúria”.

Samuel Beckett, “Molloy” .

Tahar Ben Jelloun, “O Albergue dos Pobres”.

 

Lanço glosas breves sobre algumas escolhas  - para acender alguma luz sobre as sombras do espectáculo.

O livro de António Bento e Elias Barreto, psiquiatra e psicólogo, foi um ponto de partida importante na investigação. Fala em situações-tipo das pessoas que estão na rua (os clichés que não podemos recusar). Existem de facto muitos esquizofrénicos e alcoólicos na rua. Outro tópico importante incluído nesse livro é a conclusão de que os sem-abrigo não são amados nem conseguem amar, dada a desestruturação afectiva que os marca. Também aprendi que há muitos sem-abrigo ao lado de antigos locais de trabalho. E que muitos dos sem-abrigo da Estação do Oriente são oriundos do Norte do país e muitos dos que estão no Terreiro do Paço são do Sul. Mantêm um fio geográfico de ligação ao lugar de onde chegaram.

Albert Cossery foi um autor que muito li e me marca. É convocado aqui para levar pancada - como só se faz com aquilo de que se gosta muito. A ideia de uma mendicidade aristocrata, que ele conheceu nas ruas do Cairo, entra em confronto com um condomínio apodrecido, sem essa possibilidade de elevação. David Foster Wallace aparece em versão compassiva. A certa altura, a personagem que invade o espaço, vinda do planeta dos likes, cita uma passagem da conferência dos peixinhos de Wallace, em que o autor apela, sem entusiasmos místicos, ao interesse quotidiano e "pouco excitante" no outro, longe das proclamações abstractas que enchem as paredes da cidade e os murais do Facebook. Cioran é outro autor muito cá de casa e cumpre de passagem uma ideia que me ocorreu há uns tempos: e se tivesse o romeno como vizinho? Beckett é citado por uma personagem que diz que quando era pequeno se fartava de chupar pedras (como Molloy). Ao livro de Manuel Beça Múrias com as cartas para a mulher escritas em Angola, durante a guerra colonial, fui buscar uma história que o meu amigo Pedro, filho, me contou: a história da captura pelo exército português de um miúdo negro nas matas angolanas - miúdo esse que hoje é fotógrafo. As palavras escandalosamente purificadas e esperançosas de Dalai Lama surgem como uma espécie de água cristalina a atravessar aquele lodo existencial. Os outros autores e as suas frases surgem para falar da atracção literária e intelectual que existe pela liberdade da condição de sem-abrigo - e normalmente são decepadas pelo humor ácido e sem esperança de quem ali vive.

Deixo para o fim uma, central, que pode passar despercebida aos espectadores. É a espécie de homenagem (embora não goste da palavra) que é feita ao poeta António Gancho, que morreu na Casa de Saúde do Telhal (esteve lá internado durante 38 anos) e deixou pelo menos um livro maior: "O Ar da Manhã". A personagem interpretada por João Grosso (um esquizofrénico, tal como Gancho) foi das mais difíceis de construir. Tem várias fontes. Uma delas é o poeta. Parte de fichas clínicas para se transformar em discurso ficcionado. A dado passo desagua numa entrevista que Gancho deu, em que afirmou ser mil escritores, de Camões a Michaux, e disse que uma das suas maiores desilusões foi uma tia não lhe ter passado a chave da casa de família em Évora, onde nasceu e cresceu. A ideia de ser confrontado em entrevista com o poema "O Ano Mundial da Paz",  da sua autoria, é delírio ficcional. Pareceu-me que este poema de sentido ecuménico cabia bem na divisão sentida pela personagem entre as figuras de Cristo e Barrabás.

 

 

 

O resto é teatro e o teatro é aquilo que deve ser: a sabotagem de todas as investigações.

publicado por Nuno Costa Santos às 23:59
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3 comentários:
De andreia am a 9 de Fevereiro de 2013 às 23:14
Está tão bom. Ainda me anda aqui a moer o peito. Parabéns!
De Jorge Telles de Menezes a 16 de Fevereiro de 2014 às 06:27
Bom dia Nuno Costa Santos, li com o máximo interesse o seu texto sobre a sua peça de teatro, que deploro muito não ter visto na altura. Quero apresentar uma comunicação ao 4.º Congresso de História de Sintra, sobre o poeta António Gancho. Quero ser muito directo para lhe poupar tempo: há possibilidade de eu ler a sua didascália pois me interessa sobremodo a abordagem que faz à "doença mental", em particular à personalidade de António Gancho? Teria o maior prazer em citá-lo como fonte para o meu trabalho! O meu email é jorgemenezes@iol.pt
Com os melhores cumprimentos

Jorge Menezes

(estou no facebook, sou poeta e autor.)

Muito obrigado pela atenção.
De Nuno Costa Santos a 19 de Maio de 2014 às 00:38
Caro Jorge,

nunca mais havia visitado o blogue Sinusite Crónica. Hoje, por acaso, vim aqui.

É pena não ter vindo há mais tempo.

Gancho interessa-me muito.

Sim, posso, claro, passar-lhe algumas elementos da peça.

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