Sábado, 10 de Novembro de 2012

Meia idade comparado com quê?

Eis o aviso, ó posteridade: de repente, a certa altura na vida de um ser humano do sexo masculino criado sob a matriz judaico-cristã, alguém vai prever, constatar, confirmar: «Isso é da crise da meia-idade».

 

Coisa maçadora, esta. Pressupõe um igualitarismo de comportamento que, como todos os igualitarismos, é abusivo; deixa em aberto o que se fala quando se fala de meia-idade; e sobretudo, irrita a presunção de que, sendo tudo isso hipoteticamente verdadeiro, a fase que se critica tenha de ser uma crise. Daquilo que eu deduzo dos estereótipos, não vejo crise, só opulência: fulano separou-se e namora uma rapariga linda com menos 20 anos do que ele: qual é a crise? A menos que haja infracções legais, só vejo alegria. Fulano quer ser jovem e comprou um magnífico descapotável  de uma marca topo de gama. E? Tentei até este dia evitar citar Supertramp, mas não há remédio: crise? qual crise?

 

O que a meia-idade dá, na melhor das ambições, é sabedoria. Infelizmente, a maior parte de nós - em que me incluo - apenas pode aspirar a reconhecimento e gratidão. E já é tanto. Escrevo-vos depois de ter passado por isso, sem descapotáveis ou ninfetas envolvidas. Perceber que existe  em cada minuto tanto  para estar grato só vem com a vida agarrada. Numa só noite tive a dádiva da amizade reencontrada, da conversa evanescente que aquece o coração ao ponto da lágrima, do pormenor que só quem vive o suficiente pode agradecer. Olhares, silêncios, serenidade que apazigua sem receita nem remédio. Um fim de noite em que se é convidado a sair de um casino no meio de uma discussão sobre McLuhan; um amigo ausente que é intimado, à força de afectos,  a estar presente. Um agente da polícia que sai do seu posto de trabalho e oferece o seu carro pessoal («cuidado com a cadeirinha da minha filha, peço desculpa») para ajudar um casal perdido a horas impróprias.   

 

Eu sei o que vivemos, o que estamos todos a viver. Mas se a crise de meia-idade significar o reencontro com o que estava esquecido no melhor de nós, venha ela. Quem sabe ,qualquer dia até me converto em optimista. Até lá, continuarei a combater a realidade com a realidade.O desfecho desta luta só pode terminar bem.

 

publicado por Nuno Miguel Guedes às 06:15
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1 comentário:
De Sofia a 10 de Novembro de 2012 às 13:35
Com a vida agarrada, sim. E tão bem amarrada.

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