Domingo, 6 de Abril de 2008

Campo de Ourique é melhor que Manhattan


Lisboa tem demasiados lugares deprimentes – não é sempre aquela cidade da “luz branca” que se quer pôr à venda nos filmes e nos folhetos. Mas ainda tem Campo de Ourique. Lembrei-me disso (novamente) ao ouvir há pouco uma conversa radiofónica entre Fernando Lopes e João Lopes. Fernando elogiava Campo de Ourique nos termos em que o bairro merece ser elogiado. Cada vez mais percebo a nostalgia, esse sentimento em cima do qual fica, hoje, bem cuspir. Não posso comprovar a tese porque não sou “desse tempo”, mas não me é difícil fazer a viagem ouvindo e lendo as histórias: faz sentido que quem viveu a Lisboa que Fernando Lopes (e Cardoso Pires e César Monteiro e Baptista-Bastos) habitou não goste muito disto. E que tenha uma palavra generosa para com um reduto que ainda tem pessoas - não apenas indivíduos, cidadãos, contribuintes, clientes, proprietários de carros bloqueados. Há outros lugares em Lisboa que têm pessoas, mas raros são aqueles em que essas pessoas tenham uma vida que, em conjunto, faça sentido. E que, por ser rara e orgânica (na sua balbúrdia quotidiana), emocione e aconchegue a alma de quem, vindo do tecido morto da cidade, a contempla. Fala-se muito nas lojinhas de Campo de Ourique e menos noutros espaços igualmente felizes e representativos do espírito da zona: os restaurantes. Os restaurantes de Campo de Ourique não têm a sofisticação – por vezes, artificiosa – das recriadas tascas do Bairro Alto. São sóbrios, caseiros e normalmente oferecem boa comida. E proporcionam a quem os visita – ah, bem-dita nostalgia – essa antiga ilusão chamada intimidade. Sim, a mais importante de todas as utopias.

publicado por Nuno Costa Santos às 15:58
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