Quinta-feira, 20 de Março de 2008

Não é preciso receita

“Isto dava uma crónica”. Houve uma altura da vida em que repetia mais vezes esta expressão do que os agarrados dizem “orienta-me aí uns trocos”. Estava agarrado à crónica, condição da qual não consegui nunca recuperar verdadeiramente. Qualquer coisinha trazia, enroscada, uma ideia para escrever uma crónica. Ou melhor: para ter a ideia de escrever uma crónica (porque era, sobretudo, exercício de meio campo). Uma ocorrência na padaria, um insulto no trânsito, um suspiro no ginásio, um discurso na passadeira. Tudo isso dava uma crónica. Como mais tarde passou a dar um post.

 

Acho que gosto muito de crónicas – e de posts - porque sofro de asma. Não aguento facilmente corridas de fundo. Quando leio uma crónica não tenho de me socorrer de bombas (Ventilan, por aí). O mesmo já não acontece quando me atiro a jornadas literárias maiores. Todas as semanas arrisco calhamaços, mas raramente saio sem os pulmões a miarem fininho. Como quem diz: “Vá, Nuno, volta lá às croniquetas que isso das ‘Benevolentes’ é demasiada areia para o teu aparelho respiratório”. É a ansiedade, a puta da ansiedade. Quero chegar rapidamente ao fim do livro mas logo percebo que ainda estou no princípio da terceira página. E, prontos, lá vem mais um ataquinho. E a necessidade da bombada. E o pânico da minha gente. E as rezas. E tudo isso.

 

Sei, não é uma originalidade: continuo a encontrar os melhores cultores do género no Brasil. E não, não falo só de língua portuguesa. Sabemos que os brasileiros têm tanto talento para a crónica como têm rasgo para o brinca na areia do futebol. Pois, o estilo de vida brasileiro (sensual) convida mais ao toque de bola cronístico. Não é tão fácil ser-se cronista quando se é obrigado a transportar o aquecedor (o único que se tem) para todas as divisões da casa. A pena foge mais para o artigo de opinião ou para o – não adormeçam – “ensaio jornalístico”.

 

Vamos ao texto de Carlos Drummond de Andrade que dá início ao baile: traz tudo o que me seduz na crónica. A leveza, antes de mais (não há crónicas pesadas; uma crónica pesada - no estilo, claro – não é uma crónica). Depois a proximidade – ou melhor, a ilusão de proximidade – entre o escritor e o leitor. Isso: a conversa. O bate-papo. Mas há mais: a noção da sua contingência (de que é o que é: um encontro na esquina entre autor e leitor). Ah, e o génio.

 

A relação que tenho com as crónicas é a mesma que tenho com a arte em geral: só me interessam as que me emocionam. As que – pelo conteúdo e pela forma – deixaram, depois de as ler, um pedacito de vida no meu desengonçado coração. Trocando um pouco as voltas à frase de Keats: “Uma boa crónica é uma alegria eterna”. É-o. Pelo menos para mim. A ver se as conseguimos produzir.

publicado por Nuno Costa Santos às 01:42
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4 comentários:
De João Bonifácio a 20 de Março de 2008 às 02:20
Pelo menos já criaste uma expressão que me perseguirá até à morte: "a necessidade da bombada".
De By Cipri a 20 de Março de 2008 às 12:54
... e se à crónica se administrar um q.b. de sátira... é de comer e chorar por mais...

Demência Colateral! em...

luiscipri.blogspot.com
De bruaca a 20 de Março de 2008 às 13:15
Olha!
Por acaso sofro do mesmo problema com os livros. Quero sempre chegar ao fim para começar logo outro.
Mas como felizmente não sofro de asma já consegui acabar as benevolentes.
E aconselho-te! Compra uma palete de ventiladores e lê até ao fim!!
Parabéns pelo blog.
De Luna a 20 de Março de 2008 às 13:17
"É a ansiedade, a puta da ansiedade. Quero chegar rapidamente ao fim do livro mas logo percebo que ainda estou no princípio da terceira página."

Também sou assim. Mas isso gera frustração... e tira qualidade à vida.

Gostei do layout do blog. :)

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