Quinta-feira, 20 de Setembro de 2012

O absurdo

Uma manifestação que conte com a minha presença ficará, certamente, na história. Um conservador não simpatiza muito com combustível revolucionário e é pouco tolerante à revolta contra o sistema. Porém, o absurdo pode provocar a necessidade de manifestar um desacordo tal, que até pessoas lúcidas como eu alinham na indignação em massa.

 

Não deixa de ser curioso que a manifestação de Sábado tenha descido a Av. da República. É como uma homenagem à soberania popular e à cidadania. Parte da função de qualquer cidadão é fazer chegar a mensagem ao poder que o caminho escolhido não é muito apreciado. E foi por isso que me juntei a ela. Foi um dia feliz. Quando o poder político percebe que a insatisfação é demasiado ampla para ser ignorada, nasce um momento republicano glorioso em que o governante percebe que o seu poder conhece limites.

 

Contudo, nem sempre percebe. 

 

Memória de Elefante foi o primeiro romance português que li. Era muito novo. Talvez por isso o tenha abandonado a meio, voltando a ele mais tarde. Houve, no entanto, uma passagem que me seduziu e que me fez regressar a ele algumas vezes. Nessa passagem, quase no início, discorrendo sobre uma relação amorosa passada e acabada, Lobo Antunes cita O que diz Molero. "Como um cego que espera pelos olhos que encomendou pelo correio". Fiquei com esta imagem na cabeça durante anos. É provável que tenha sido o meu primeiro contacto com o absurdo ou, pelo menos, o meu primeiro fascínio.

 

Quando alguém persiste num erro, é nesta imagem que penso. Como se a salvação chegasse por encomenda, enquanto deixamos o corpo estagnar angustiado. Mas as partes do corpo não podem sair à rua e as pessoas podem. E essa coisa é que é linda.

publicado por jorge c. às 00:05
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2 comentários:
De Exilado no Mundo a 20 de Setembro de 2012 às 10:22
Excelente!
De Nuite a 26 de Setembro de 2012 às 21:55
Também eu, sim, também eu espero um par de olhos pelo correio ... (mas isso são outras conversas)

Da manifestação (que da qual também participei e gritei) tenho a dizer:

A evolução é algo absurdo, continuamos a viver numa época feudal, trocamos os nomes para que houvesse uma disciplina chamada História. Actualmente chamam-lhe uma coisa como democracia ... e ficamos felizes :)

tal e qual como: tiram a TSU e aumentam os Impostos ... e ficamos felizes!!!

Mas, da manifestação foi das coisas mais incríveis que participei, aprendi que o povo (o povinho) quando quer tem imenso poder :)

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