Terça-feira, 11 de Setembro de 2012

Aqui que ninguém nos ouve

 

Acabei de ouvir Miguel Relvas dizer, com o seu já habitual ar de sabujo, que o apoio aos mais desfavorecidos é uma preocupação permanente deste Governo. Perante a impossibilidade de ser ouvido por esta gente, perante esta espécie de surdez desprovida de qualquer noção de civilidade no serviço prestado ao país, vou escrever como se eles não nos estivessem a ouvir.

 

Que país é este que aceita que um bando de filhos da puta confisque impunemente o resultado do trabalho de milhões de pessoas? Quão insensível é preciso um bando de filhos da puta ser para anunciar ao país uma redução do salário mínimo? Eu sei que muita gente sente já ter assistido a isto antes, mas este não é um bando de filhos da puta qualquer. É uma espécie refinada de filho da puta, tão perigosa pela sua ignorância quanto pela capacidade inesgotável de mandar um país inteiro para o caralho que o foda. Bem sei que é um bando de filhos da puta com maioria absoluta. Infelizmente, demasiados eleitores desconheciam, à data das eleições, que estavam a mandatar um bando de filhos da puta com tão especial vocação para foder o mexilhão. Quiseram acreditar que este não era um bando de filhos da puta. Infelizmente, jamais imaginaram que este viesse a tornar-se o maior bando de filhos da puta que o país já viu no poder, e a mais séria ameaça ao modo de vida de todos os que diplomaticamente têm aceitado a pior forma de governo, salvo todas as outras.

 

Está ali um bandalho dum funcionário descansado na televisão a dizer-me que as empresas são locais de cooperação entre patrões, empregados e a cona da mãe dele. Amigo: locais de cooperação o caralho que ta foda. Este pulha dum cabrão, que nunca trabalhou numa puta duma empresa na vida, assim como a maioria destes inefáveis cabrões, que eu podia alegar não terem outro nome, não fosse o facto de já os ter apresentado como filhos da puta, mas dizia eu, este filho da puta, bandalho e pulha dum cabrão, sobejamente merecedor de todos os insultos que me forem ocorrendo, diz-me que a empresa é um local de cooperação. As empresas, cabrão desumano, são locais onde as pessoas convivem de forma mais ou menos saudável com um modo de vida/ocupação de tempo que, de forma mais ou menos saudável, aceitam ao longo de parte das suas vidas. Então explica-me lá, ó javali cagado pela arca, em que é que uma empresa é um local de cooperação, e não uma desesperada forma de prisão, quando um bando de filhos da puta destrói qualquer possibilidade de as pessoas terem uma remota esperança de construir algo edificante a que possam chamar vida, esperar que esta subsista, se mantenha e evolua positivamente sem a ajuda, mas especialmente sem a constante sabotagem, de um bando de filhos da puta. Se o referido bando de filhos da puta nos estivesse a ouvir, ouvir-se-ia por esta altura um deles dizer, de forma inacreditavelmente ponderada, dotado da mais fina filha-da-putice - que este bando de filhos da puta confunde com elevação, humanidade, sentido de estado e afins – diria que eu, e vocês todos, passámos estes anos todos a viver acima das possibilidades.

 

Mas quais anos, meu filho da puta? E quais possibilidades? Trabalho que nem um cão há 6 anos, a tempo inteiro mais as horas todas que não me pagaram, e o número de reduções salariais que tive, impostas por este bando de filhos da puta, é já próximo do número de empregos que tive na minha ainda curta carreira. Comprei um carro em segunda mão, uma mota para poupar no que não podia gastar com o carro, e vou jantar fora e ao cinema. Comprei uns discos, uns livros, fiz meia dúzia de viagens baratas, comprei uns móveis do Ikea e, durante o processo, paguei uma renda e uma catrefada de impostos. Vá lá, tentei ser feliz sem pedir ajuda a ninguém nem ir preso. Aceitei o mais serenamente que pude as regras do jogo, isto é, trabalho, trabalho e trabalho para usufruir do resto e conservar, em doses iguais, a saúde mental e a ambição, a primeira das quais começa a desvanecer-se, como se lê. E, no final de uma semana de 60 horas de trabalho que aceitei de bom grado por considerar justa e saudável a "relação de cooperação" mantida com quem me paga, ligo a rádio e é-me anunciada, por um filho da puta de currículo construído a favores, é-me anunciada a ideia peregrina com que este bando de filhos da puta, sem critério nem humanidade, resolveu premiar um país inteiro, que na sua maioria vive em muito piores condições do que eu.

 

Reduzir o salário mínimo? Aumentar ainda mais a precariedade de quem trabalha a recibos verdes? Transferir uma soma obscena de dinheiro dos trabalhadores para as empresas num país com clivagens sociais e económicas absolutamente trágicas, numa esperança infundada de que isso promova emprego? Isto já não cabe na cabeça de ninguém, e há um bom motivo para existir hoje uma impensável maioria que vai de António Nogueira Leite a Bagão Félix, passando pelos 4 sem abrigo que contei de casa até ao trabalho, mais as lojas falidas. Não é simbolismo nem retórica nem injustiça poética: isto é a vida, conforme ditada por um bando de filhos da puta, a abater-se sobre um país inteiro, dia após dia, cêntimo após cêntimo, impossibilidade após impossibilidade. Haverá um pingo de decência nestas cabeças? Milhões de vozes manifestam em uníssono a vontade literal de esganar estes filhos da puta, ao mesmo tempo que consideram, infelizes, a hipótese de fugir do seu próprio país, e estes filhos da puta aparentam não sentir nada. Foda-se, reduzir o salário mínimo. Há gente que merece o pior de nós. E é assustador que aí se inclua o Governo do meu país.

publicado por Vasco Mendonça às 21:50
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141 comentários:
De Anónimo a 11 de Setembro de 2012 às 22:17
Não retirava uma palavra. Não acrescentava uma palavra. Parabéns.
De André Venâncio a 11 de Setembro de 2012 às 22:50
Já te dei os parabens no Facebook, mas faço questão de dar aqui também!
De Carlos Matos a 14 de Setembro de 2012 às 12:40
Adorei o texto e não acrescentava nem mais uma palavra.
Parabéns
De Pedro Pereira a 12 de Setembro de 2012 às 18:57
Tenho 55 anos. Sou professor. Todos os dias (de há uns anos a esta parte) sinto que a minha inteligência é insultada, todos os dias me sinto espoliado , todos os dias sinto raiva desta cambada que me inferniza o presente e me rouba o (pouco) futuro que me resta. Vivemos uma espécie de feudalismo do sec XXI, em que, quais servos da gleba, andamos a empobrecer para enriquecer cada vez mais uns milhares de oligarcas especialistas em politiquice e negócios escuros... Estes anormais que nos desgovernam presentemente nem se dignam disfarçar. Subscrevo todo vernáculo com que forem mimoseados sem ofensa para as profissionais do sexo que também andam a sofrer com isto tudo...e agora, falando sério têm que largar o poder. A bem ou a mal!
De Sérgio Oliveira a 13 de Setembro de 2012 às 15:55
"Vivemos uma espécie de feudalismo do sec XXI, em que, quais servos da gleba, andamos a empobrecer para enriquecer cada vez mais uns milhares de oligarcas especialistas em politiquice e negócios escuros"...

Também sou professor, também tenho 55 anos e também faço a mesma interpretação do que se passa neste século XXI. Só ainda não consegui exprimi-lo assim tão bem. É uma realidade mundial, com a diferença de que noutros países há mais decência em tentar disfarçar, para não acrescentar humilhação à exploração a que sujeitam os seus servos.
De anónimo a 12 de Setembro de 2012 às 22:20
Eu acrescentava: O que estes filhos da puta todos mereciam era que os voltássemos a enfiar todos dentro da cona das respetivas mães e as fechássemos a cadeado para que eles nunca pudessem nascer.
De Anónimo a 13 de Setembro de 2012 às 00:38
Uma vez que já cá estão fora...deviam ser todos enrabados na praça pública!!! se calhar alguns até gostavam... para esees um foguete no cú....
De Incêndio a 14 de Setembro de 2012 às 23:33
Ou o cano de uma pistola... http://www.dinheirovivo.pt/Economia/Artigo/CIECO056741.html?page=0
De António Macedo a 13 de Setembro de 2012 às 11:48
Com 47 anos de trabalho estou agora reformado e claro ROUBADO e de que maneira por esses bandalhos, que me consideram milionário com 15OO líquidos por mês,com 400 euros mensais por um T2, com um filho de 40 anos desempregado que tenho que ajudar e uma netita de 5 anos, com taxas moderadoras na única altura da vida em que preciso do SNS...
A caminho dos 70 anos a experiência diz-me que, para além de todas as verdades afirmadas no seu blog, e com que concordo, eu que fiz uma licenciatura a trabalhar e não a colar cartazes, a roçar o cú em qualquer Jota, ou a lambê-lo aos poderosos ditadores pós 25 de Abril, ao contrário do Dr Ervas (doutorado em burrologia) penso sinceramente que se não pusermos fim a esta situação, por todos os meios, serão estes os próximos passos do gang que nos governa:
1º Recriar a Pide para se sentirem mais seguros.
2º Iniciar uma espécie de holocausto XXI (à maneira do filho da puta do Hitler, talvez industriados por uma sobrinha-neta (?) deste, muito conhecida na Europa,dirigido primeiro aos velhos, depois aos doentes e finalmente, desempregados.
E então sim, as reformas estruturais de que fala o cara de grão de bico Gaspar, ficarão cumpridas, o país sem encargos sociais, os "SS" - Saúde e Seg. Social), que coincidência de iniciais a funcionar em pleno.
De Maria José Carvalho a 13 de Setembro de 2012 às 15:01
Fiquei estarrecida com a brutalidade e frontalidade de tão sábias palavras.
Parabéns
De Anónimo a 11 de Setembro de 2012 às 22:53
se alguém ficar em casa no próximo sábado dia 15 é porque cristalizou de vez, emburrou e não faz nada neste mundo. nem por si nem pelos outros. não faz sentido.
De anónimo a 13 de Setembro de 2012 às 11:47
Eu fico em casa no próximo sábado, para gritar e fazer barulho não vale a pena, só cansamos a voz..quando for para fazer uma revolução, uma guerra civil, contem comigo..às armas..
De outro anónimo a 13 de Setembro de 2012 às 17:34
deve ser deve, fica lá em casa a ver televisão, é uma grande ajuda sim senhor
De Kraak a 12 de Setembro de 2012 às 00:14
Bravo. Muito bom! :) Texto partilhado no FB.
De Anónimo a 12 de Setembro de 2012 às 01:08
Magnífico







De Isa a 12 de Setembro de 2012 às 02:20
se me permite, só o corrijo numa coisa, o anterior governo foi pior e é, em grande parte, à conta dele que este bando de fdp está a fazer o que está a fazer; e que são todos, todos um bando de filhos da puta, deputados incluídos, à esquerda, à direita e ao centro, todos os que pactuam com este roubo, por omissão ou outra merda qualquer, independentemente de quem dá a cara. de resto, subscrevo na íntegra, divulgo. e ainda lhe "perdoo" por falar de política neste blog
gd abraço
De Helder Guerreiro a 12 de Setembro de 2012 às 12:57
Os filhosdaputa anteriores são como os actuais. Muda um pouco de retórica mas no fim fica tudo igual.

É fácil confirmar o que digo, se formos analisar as tendências dos principais indicadores económicos, dos últimos 30 anos, uma coisa salta logo à vista, não há mudança de tendência entre os vários governos.

Veja por exemplo em:

http://tretas.org/PortugalEmGraficos
De José Magalhaes a 12 de Setembro de 2012 às 17:35
São todos iguais. O problema é que quem vem por último que fecha a porta.
onde andam as sumidades dos anteriores governos?

Sócrates - A passear nas Franças
Santana - Consultor
Barroso - a dar os parabéns pelo esforço que andamos a fazer
Dias Loureiro - bancário empresário e afins
Coelho - empreiteiro
e por aí vai...
De R.M. a 12 de Setembro de 2012 às 19:23

Faltou dizer, que Dias Loureiro é um dos grandes gatunos deste país, mais um que nos roubou e que não é responsabilizado, veja o caso "BPN".
Alguém começou a falar no seu nome e a tentar levantar a lebre e que fez ele? foi para Angola e ninguém mais ouviu falar dele.
De Pouca vergonha a 13 de Setembro de 2012 às 00:51
Amigos, tudo começou ha muuuuuuuuito tempo atras, quando um Sr. Silva, que recebia chorudas verbas da UE, começou a abater vinhas e barcos de pesca, mais do que era imposto nas quotas.. hoje, este mesmo Sr. Silva diz que devemos voltar à agricultura... %&#$"!!!!!!
E tem gente que reclama que o Vasco Gonçalves vendeu ouro. Ele, ao menos, vendeu ouro para proporcionar a cada estúpido deste país um salário melhor, uma saúde melhor e uma educação melhor!
Cada povo tem o que merece! E a maioria estúpida votou neste actual governo. O resto dos estúpidos ficou em casa a chuchar o dedo ao invés de protestar!
PAGUEM COM OS VOSSOS BOLSOS! Infelizmente, o idiota que aqui escreve, que nao escolheu, tampouco escolheria este e outros governos, tambem paga!
De Anónimo a 13 de Setembro de 2012 às 02:11
Vá ver os números do défice dos governos de cavaco, guterres e socrates e depois falamos
De Zaca a 13 de Setembro de 2012 às 10:58
Com as entradas de dinheiro directo da CEE na época, o que Cavaco fez também eu faria na boa, ou tu, ou, imagine-se, até o Gaspar ...
De Anónimo a 13 de Setembro de 2012 às 15:24
e as entradas de dinheiro durante o governo guterres?
De Anónimo a 12 de Setembro de 2012 às 09:13
Concordo plenamente.
De Hugo Silva a 12 de Setembro de 2012 às 10:15
fantástico texto... vou partilhar, partilhar, partilhar... e depois partilhar mais uma vez...

Grande trabalho!!!
De hidden persuader a 12 de Setembro de 2012 às 10:50
É começar a distribuir o "Rules for Radicals" do Saul Alinsky pelo povo, pode ser que agite a "sociedade civil". Isto sim é serviço público. Até dia 15!
De pipas a 12 de Setembro de 2012 às 11:00
Porque manifestar á frente da AR a um sabado? até se ficam a rir..
Não imcomoda ninguem.... vamos criar difuculdades a que nos cria, que tal em massama..a frente do coelhinho...
De Ana a 12 de Setembro de 2012 às 20:34
Não é à frente da Assembleia, mas sim da sede do FMI em Portugal, é bom notar isso.
De LMNS a 12 de Setembro de 2012 às 11:24
Muito bom, este texto retrata efetivamente como todos nós nos sentimos e mais... que o povo português não pense em colocar o partido de maior oposição com maioria absoluta nas próximas eleições...desculpem dizer oposição...onde? também eles são uns grandes filhos da puta que só sabem dizer "eu já ando a dizer isto à muito tempo" o quê?? a merda que fizeram?!?!?
Também concordo que ir para a AR num sábado será motivo de gozo para esses FDP (não estou a dizer que não vou e que não surta algum efeito) e mais, o dinheiro que nos vão tirar do bolso para colocarem, possivelmente, centenas de policias de intervenção para nos darem outro tipo de porrada, valia mais uma vigilia em Massamá durante a semana, mesmo que seja fora do expediente normal de trabalho, se bem que os vizinhos não têm culpa de levar com isto tudo...digo eu...
Também eu vou divulgar o seu/nosso estado de espírito
De Laura Durão a 12 de Setembro de 2012 às 14:11
LMNS eu moro em Massamá e sei que não há muito tempo os vizinhos de 1º ministro, que moram nos prédios vizinhos, fizeram-lhe uma espera às janelas e só não lhe chamaram bonito.
Depois disso em vez dum polícia à porta passou a ter dois...
Quem tem cu, tem medo... vergonha na cara não têm nenhuma
De Exilado no Mundo a 12 de Setembro de 2012 às 14:14
Não o deixem em paz, o povo agradece!
http://exiladonomundo.blogspot.pt/2012/09/tres-tristes-principes.html
De Anónimo a 12 de Setembro de 2012 às 18:39
Ontem tinha 4 À porta .... :P
De antonio a 16 de Setembro de 2012 às 22:11
Deixemo-nos de tretas e sejamos cinceros . O desastre começou logo após o 25 de abril , com o 1º governo constitucional, e com o Dtor Mário soares como 1º ministro. E foi ai que comecei a apertar o cinto e a verdade é que a situação agravou por culpa de dois partidos PSD -PS e CDS como muleta. Já é hora de queimar politicamente estes Partidos e mandar para casa os seus respetivos deputados. e vamos exigir que sejam os governantes a dar o exemplo cortando nos seus salarios e restantes regalias. Ja chega de roubar.Basta

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