Terça-feira, 7 de Agosto de 2012

Receita para reinventar a roda

Uma ideia nova é um knockout incontestável ou se não florescer é, irrepreensivelmente, pelo menos, um valente soco no estômago. É um avanço. Mas, exige labuta, não é generalizável a todos os palatos. Esconde-se. Atormenta. Não resulta à primeira. Faz pouco da gente. Esquiva-se e consome-nos até acertarmos. Problema recente? Não. É assim desde o começo do mundo, onde se manifestar política e artisticamente o engenho humano.

 

Mas há o caminho fácil. Qual? Bem, tem onde escrever? Aponte! Fazemos melhor do que limitarmo-nos a responder, deixamos a receita.

 

Embora tudo possa ser personalizado, de início pega-se em toda a falta de imaginação que se conseguir reunir. Exagere. Utilize porções generosas. Nada de pruridos e falsas modéstias. Persiga uma tradição de gente sem ideias. Pense, sem escrúpulos, no já pensado, tentando colmatar o colmatado e/ou completar uma tarefa já preenchida. Angarie referências!

 

Apanhou? Tenha consciência de que o ponto anterior remete para consistências várias, mas apresenta preferencialmente viscosidade ministerial e opacidade de secretaria ou fundação. Em certos círculos toma, também, a designação de pelouro [Maioritariamente, onde atinge dimensões mínimas]. Seja audaz! Saiba identificar o que mais o favorece e agarre-se a isso.

 

Continuamos? Note que se exigem mãos hábeis e esforçadas para metamorfosear um Déjà vu num projecto ambicioso. Esteja atento! A história está repleta de redundâncias, siga os bons exemplos. Confira [Para sua consideração alvitra-se o tópico serviço público.].

 

Não se deslumbre, primeiro marine. As precipitações pagam-se caro e às vezes são irreversíveis. Pode parecer irrelevante, mas casos há em que antes do arranque tudo fica a marinar durante longos períodos. Em caso de indecisão, confira sempre.

 

Certo? Não se precipite. É sabido que o homem sonha e a obra nasce, mas antes é necessário pôr as mãos na massa. Não comece sem a ter onde deve permanecer até à conclusão do empreendimento: do seu lado.

 

Ora, é certo que os recursos variam, mas não fique pelo q.b.. [Consulte, para inspiração, a documentação sobre os estádios de futebol para o Euro 2004] Ouse. Vá onde ninguém ainda foi. Experimente. Pise território virgem. Esbanje se assim o entender. Não se preocupe com orçamentos. Afinal, trata-se do trabalho de uma vida. Consumir desnecessariamente meios pode no futuro demonstrar-se ter sido a opção preferível (para si). E, acima de tudo, vá provando.

 

Mais uma coisa… Fique pelo evidente. Pelo que deu provas. Essa é uma regra de ouro. Evite polémicas! A motivação adequada é a de construir sobre o já construído embora no final, segundo os especialistas, se sobreponha ao vazio inerente uma sensação gostosa de missão cumprida.

Até ao final é imprescindível imprimir uma dinâmica masturbatória constante e enérgica a fim de as coisas não azedarem. Caminhos sinuosos não são recomendáveis nesta altura.

 

Até aqui tudo bem? Atente que a confecção deve ser feita, lentamente, para não chamuscar. Dar para o torto é o pior que pode acontecer. [Nesta fase sugere-se descrição. Ela nunca é demais. Os olhos devem estar postos noutro lugar e não sobre si. Um bode expiatório pode resultar muito bem.]

Um reparo do chef: em caso do caldo dar mostras de estar para entornar ou, simplesmente, engrossar aconselha-se o uso excessivo da palavra “estrangeiro” seguida da expressão “já foi feito no estrangeiro” e /ou alemães. [A título de gosto pessoal sugerem-se amiúde referências à diáspora económica, educativa e cultural nórdica. Os anglo-saxónicos também acompanham muito bem. E lembre-se nunca abuse dos chineses!].

 

O grand finale aproxima-se! Registe até os pormenores mais insignificantes, serão, extremamente, úteis.

 

Se durante o decurso da preparação se entrever que as coisas não vão resultar, deixe convalescer e aplique convictamente um soporífero banho-maria.

 

Reinventar a roda é a consequência final se respeitarmos tempos, indicações e não cairmos no engulho de desbaratar fases. Se o conseguiu dê-se por satisfeito. A partir daqui as coisas só podem melhorar para si.

    

Para a opinião pública tudo pode ser sinónimo de perda de tempo, mas não para si. Não se queime! Nada de passos em falso que colocam tudo a perder! Reitere a convicção de que deu o melhor e que a sua divisa é bem servir.

 

Seja forte! Será acusado de tudo. De uma espécie de plágio, com um estranho gosto a novidade requentada, com actualizações mínimas, desnecessárias ou contraproducentes. De um upgrade falhado, caríssimo. De voltar a obra já feita, que não acrescenta, não resolve. De um caminhar sobre pegada prévia. Dirão que é cortar a meta depois do vencedor e achar que podem existir dois primeiros lugares. Que foi jogar pelo seguro. Repisar. Repita, peremptório, para si: “bárbaros”. E avance corajoso, enquanto volta a provar para confirmar a excelência.

“A roda por si só basta!”, acusarão metafóricos.  

Não comente ou diga, modestamente, que tem consciência que difícil foi inventá-la.

E, no final do processo, saciado, deixe-os K.O..

Não há dúvida de que ficaram bem servidos!

 

Conseguiu?

Pelo menos, tomou nota de tudo?

Desfrute, afinal, foi você que pagou.

publicado por Máquina-da-Preguiça às 13:27
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