Sexta-feira, 27 de Julho de 2012

A Minha Rua é o Céu

(Para os meus filhos)


Um dia, antes de adormecer, Ivo perguntou à mãe:

- Mãe, o que é que acontece às pessoas quando morrem?

A mãe ficou calada, sem saber o que responder. Era a primeira vez que o filho lhe fazia uma pergunta tão difícil. Quase tão difícil como aquela: - Mãe, o que é maior: o amor ou o espaço? Ou aqueloutra:- Mãe, se eu um dia mandar no mundo tu vais continuar a mandar em mim?

Resolveu responder-lhe com uma resposta que já a sua mãe lhe costumava dar:

- Vão para o céu.

- Pró céu? Aquele céu?

Antes que o Ivo fizesse mais perguntas difíceis, a mãe deu-lhe um beijinho e desligou a luz do candeeiro.

Ivo tentou adormecer. Primeiro contou ovelhas, depois contou cabras, bodes, depois esquilos, raposas, cavalos-marinhos, lulas gigantes, primos, tios e tortas de limão. Depois começou a imaginar as pessoas que conhecia todas no céu. E, no meio dos pensamentos, arranjou mais uma pergunta para fazer à mãe:

- As estrelas são as pessoas mais importantes que já morreram?

Continuava a não conseguir adormecer. Achava que era por ter ficado pouco satisfeito com a resposta da mãe.

Só pensava: - As pessoas, quando morrem, vão para o céu? E como é que as pessoas vão para o céu? Há uma carrinha da escola que vem buscar as pessoas para levá-las para lá?

No outro dia de manhã, ao pequeno-almoço, enquanto comia os cereais, Ivo voltou a fazer as mesmas perguntas à mãe.

- Mãe, mas como é que nós vamos para o céu?

A mãe estava distraída a barrar a sua torrada de manteiga.

- Ó filho, as pessoas vão para o céu…pelo ar.

- Pelo ar?

Ivo ficou calado. E depois perguntou.

- Mas então qual é a diferença entre morrer e ficar apaixonado?

- Não percebo a pergunta, Ivo – disse a mãe.

- Tu uma vez disseste-me que as pessoas voavam quando estavam apaixonadas…

A mãe riu-se e disse para Ivo se despachar a comer porque já estava atrasado para a escola.

Ivo não ficou convencido. E durante todo o dia continuou a pensar no assunto. Já tinha tido respostas para o tipo de perguntas. Por que é que os cães abanam o rabo? Por que é os seus olhos era verdes? Por que é que a professora na escola estava sempre a espirrar? Porque é que a sua equipa perdia sempre? Mas a resposta para esta última pergunta estava a demorar a entender. E era uma pergunta tão importante…

À noite, antes de adormecer, Ivo voltou a perguntar.

- Ó mãe, se as pessoas vão todas para o céu o céu deve ser um sítio muito cheio. É assim tipo a casa da avó Matilde no Verão quando os primos se juntam todos?!

- Mais ou menos, Ivo.

- Já sei: o céu é como a loja do senhor Armando quando está em saldos!

- Mais ou menos, filho. Agora dorme que amanhã tens de acordar cedo para ir para a escola.

Mal acabou de falar a mãe apagou a luz do candeeiro e foi para a sala ver um pouco de televisão. Ivo ficou de olhos abertos no escuro. Só se perguntava:

- O que é que minha mãe quis dizer com ‘mais ou menos’?

Continuava sem conseguir adormecer quando pensou:

- Já sei! Vou perguntar ao Senhor Lulito!

Ivo chamava sempre o Senhor Lulito quando tinha dúvidas importantes.

O Senhor Lulito era um conselheiro mágico. Uma espécie de fada que vestia fato e gravata.

- Olá, eu sou o Senhor Lulito e sou muito maluquito! Era assim que o Senhor Lulito se apresentava sempre que aparecia.

- Olá, Senhor Lulito! Estou com uma dúvida grande.

O Senhor Lulito, que já sabia qual era dúvida de Ivo, ficou muito sério. Ficava assim quando tinha respostas importantes para dar. Pensou, pensou e pensou e por fim disse:

- Vem daí. Eu vou mostrar-te o céu! Deu um piparote, mesmo à Senhor Lulito, pegou na mão de Ivo e levou-o pela janela. Voaram os dois pelo céu, entre as nuvens. A certa altura o Senhor Lulito disse ao rapaz.

- Este é um dos céus, Ivo. Mas há outros. Ivo ficou surpreendido ao perceber que o Senhor Lulito o levava de regresso à Terra. Fora os dois pelo mundo e o Senhor Lulito mostrou a Ivo pessoas e lugares que o David não conhecia – ele que vivia num sítio cada vez mais confuso e cheio de barulho. Mostrou-lhe jardins bem arranjados e cuidados não só por jardineiros mas por todas as pessoas, novas e velhas. Bairros onde os vizinhos se cumprimentam e ajudam uns aos outros, sobretudo os que mais necessitam. Prédios e pátios onde toda a gente pode deixar um desenho, um poema, uma história bonita.

-É para aqui que vamos quando morrermos.

Ivo ficou meio estranhado com a resposta.

- Para aqui?

- Sim, para aqui. Ivo, isto também é o céu. O céu é o melhor de nós. Aquilo que deixamos cá na terra quando morremos.

Ivo ficou de boca aberta com a resposta do Senhor Lulito, que ainda disse mais uma coisa:

- O céu é a tua rua se cuidares dela.

Pensou um bocadinho e no fim sorriu ao perceber um bocadinho o que ele queria dizer. No dia seguinte Ivo levantou-se um pouco mais cedo do que era costume. Foi até à janela e começou a pensar como é que podia cuidar da sua rua. Já tinha reparado que era uma rua um pouco suja e onde as pessoas não falavam umas com as outras. A primeira coisa que fez foi ir à cozinha buscar uma vassoura da mãe. Depois foi para rua e começou a limpá-la. Aos poucos, as pessoas que passavam por ele começaram a imitá-lo. Acharam injusto que fosse só Ivo a limpar o lixo que toda a gente tinha feito. Até a Dona Resmungona, que costumava deixar os sacos do lixo à porta, foi ajudar o Ivo a varrer a rua. Só faltava pôr as pessoas à conversa.

- Como é que se faz isso? – perguntou-se o Ivo, sozinho no meio da rua. Teve então uma ideia: atrasar os relógios de toda a gente. Assim as pessoas, ao perceberem que o relógio não estava com a hora certa, começaram a perguntar as horas umas às outras.

Ivo ficou contente. Mas achou que ainda podia fazer mais. Encostou-se ao muro e fez de mensageiro da rua. Começou por se meter com a Dona Júlia.

- Olhe, sabia que o Senhor António acabou de cumprimentá-la?

- A mim?

- Sim, sim.

- Mas ele nunca me cumprimentou!

- É a primeira vez. Se calhar era bom dar-lhe o bom dia também.

- Bom dia, Senhor António!

- Bom dia, Dona Márcia!

Fez isso com todos os seus vizinhos, que começaram todos a cumprimentarem-se como se já se conhecessem há muito tempo.

Quando voltou para casa, Ivo ligou à avó que vivia numa casa sozinha a muitos quilómetros de distância dali.

- Olá avó, tenho saudades tuas!

À noite, quando estavam os dois a ver televisão, foi buscar uma manta para cobrir as pernas da mãe. A mãe estava tão concentrada a ver um programa que nem reparou. Antes de adormecer, Ivo disse à mãe.

- Ó mãe…

A mãe ficou um pouco preocupada. Pensou que vinha aí mais uma pergunta difícil.

- Ó mãe, acho que já sei a resposta àquela pergunta. Quando morrermos nós vamos para a nossa rua.

A mãe ficou espantada com a frase do filho e passou-lhe a mão pela cabeça.

publicado por Nuno Costa Santos às 21:11
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3 comentários:
De andreia am a 27 de Julho de 2012 às 22:24
:\') :) !!!
De Idorine Maria a 28 de Julho de 2012 às 12:39
Alfabetizar é preciso. :)

De gene a 17 de Fevereiro de 2013 às 11:02

você é um poeta!
é bom fazer pedagogia,alguém há-de mudar...
a natureza de muitos é que não muda.e o responsável é um desconhecido!

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