Sábado, 5 de Abril de 2008

Os Cus de Judas

Havia um romance de Lobo Antunes, um romance que aos meus 20 anos, mesmo lido numa praia de Maiorca rodeado dos seios descaídos de quarentonas alemãs classe média-baixa, parecia tão tão bom - e que hoje me surge programático e sobre-adjectivado (mas ainda furioso).

A dada altura o narrador dizia que quando um miúdo enterra a cabeça entre as pernas segurando-a com as mãos e repete Caralho, Caralho, Caralho, algo não está bem.

 Era, esclareço, um romance sobre a guerra.

 

O homem que eu vi hoje, num camarim, antes de um concerto, com a cabeça enterrada entre as pernas segurando-a numa mão (um cigarro a tremer na outra), a repetir vernáculo, não era um miúdo: tem 41 anos, história e a história está-lhe encravada na garganta. O médico disse: cançinoma. O médico receitou: cantar. Uma purga de fados.

 

Não foi perfeita a primeira apresentação de "Sempre de Mim", o novo (e soberbo) disco de Camané. Mas em duas, três, quatro canções aquele tipo que - por sorte ou azar - é um corpo a selar inquietude, fez-nos um drible, deu um golpe de rins, com a estocada de espadachim da voz arrombou o cofre do bom gosto burguês, e a fria ponta metálica de cada nota cravou-se abruptamente numa zona ilocalizável do meu cérebro.

 

Quase sem luz no palco, ele cantou: "Eu quero estar só". E repetia: "Quero estar só".

 

Não faço ideia se está ou não, se quer ou não está-lo.

Mas quando um tipo de 41 anos enterra a cabeça entre as pernas segurando-a numa mão (um cigarro na outra) algo não está bem. Há ali qualquer coisinha encravada.

Fazê-la sair da garganta na medida certa é da ordem hierárquica dos escolhidos.

E os escolhidos têm de estar sós.

Porque ninguém suporta a sua própria guerra por muito tempo se não tiver génio. 

publicado por João Bonifácio às 01:49
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4 comentários:
De Pedro a 6 de Abril de 2008 às 00:43
Esse momento "Eu quero estar só" é notável em todo a sua carga dramática.
Ainda ontem vinha com ela pela mãe (acabamos por ficar um pouco mais e não partilhar conversas que estão em atraso) a comentar isso.
Quase que me parecia a segunda parte do FMI, revista, transposta para outra linguagem.
De João Bonifácio a 6 de Abril de 2008 às 01:58
Não percebi isto: "Ainda ontem vinha com ela pela mãe (acabamos por ficar um pouco mais e não partilhar conversas que estão em atraso) a comentar isso".

Não percebo o conceito de vir com ela pela mãe.

Quanto à ultima frase: bem visto.
De Pedro a 6 de Abril de 2008 às 01:59
Chisga-se, tu e ela, os dois iguaizinhos. Ela queria que eu viesse aqui emendar a cena, tu chegas e começas logo a fazer piadinhas :P

(assim não cozinho para ti, menino feio :P)
De João Bonifácio a 6 de Abril de 2008 às 03:18
Sim, mas 'vir com ela pela mão' também tem potencialidades.

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