Terça-feira, 24 de Julho de 2012

à nossa maneira

História nº 1. Um grupo de amigos de Lisboa pára num restaurante de São Miguel. Um anuncia que vai querer “um bifinho”. O empregado afasta-se um passo, incrédulo, e repete: “Bife?! Bife?! Eh, piquene, tu vás comê é pêxe e vás gostá!”

 

História nº 2. De dia, era segurança; à noite, respeitável proprietário dum tasco de Lisboa. Certa vez, de férias nos Açores, é mordido numa perna por uma água-viva. Acto contínuo, um desconhecido abre a braguilha e desata a urinar-lhe para cima da perna. O nosso homem enche o peito e vai tirar satisfações, deparando-se com a perplexidade do estranho que explica que apenas lhe aplicava o melhor antídoto do mundo para queimaduras de alforreca. Nem deu para o obrigado. O benfeitor partiu de imediato, ofendido com a ingratidão.

 

História nº 3. Quando X visitava um casal de amigos açorianos, ouvia amiúde o homem gabar uma estrela do showbizz que via na TV. X nunca disse que a estrela em questão era sua mulher e guardou-se, anos a fio, para a surpresa. Um dia, voltou com ela de braço dado. A mulher abriu a porta e, com a voz a tremer, chamou o marido. Após alguns minutos, o homem aparece em roupa interior e pistola de chumbos, queixando-se duns “murganhos” que lhe andavam no sótão. Queixou-se, olhou para a mulher de X como que se perguntando “quem será esta?” e voltou para o extermínio. Horas depois, já documentado pela esposa quanto à identidade da desconhecida, liga para X. Não para pedir desculpa pela indelicadeza, mas para insultar o traidor que consentira que aparecesse naqueles preparos diante da musa.

 

Vivemos num mundo onde as habilidades dum gato no interior dum apartamento anónimo são vistas no dia seguinte por milhões de espectadores dos cinco continentes. Onde a fruta de época deu lugar a mangas e papaias trazidas diariamente por grandes cargueiros aos supermercados da velha Europa. Onde se pode almoçar peixe à segunda-feira porque os viveiros não folgam ao domingo. Onde podemos comer o mesmo hamburger e entrar na mesma loja e ver o mesmo anúncio em centenas de cidades absurdamente longínquas no mapa.

 

Este mundo, em parte pressentido, em parte surpreendente, ganhou o nome de “aldeia global”. E criou um paradoxo: ao diluir as diferenças, tornou mais importante do que nunca ser diferente.

 

Nessa contradição, os Açores continuam à procura dum lugar. Por vezes, armaram-se em moderninhos. Levantaram torres que fazem sombra a hectares de terreno deserto, filas de bares e discotecas que deram música às moscas, centros culturais que ignoraram que a cultura açoriana prefere arraiais de madeira a salões de veludo.

 

Hoje, nos dias do facebook e dos smartphones e das low-cost e dos franchise das superbrands, temos as mesmas dúvidas e medos de há trinta anos, quando a televisão a cores parecia o topo inultrapassável da evolução. Hesitamos entre o medo de perder a identidade e o pavor da irrelevância.

 

Nas três histórias acima, contadas por diferentes amigos em diferentes circunstâncias, está uma resposta possível. Aquela franqueza generosa é a nossa essência e a essência dum sítio o seu maior produto de exportação.

 

Que farão as lideranças políticas não se sabe, mas pusessem a mandar o empregado do restaurante do peixe, o homem do antídoto para as águas-vivas e o exterminador de murganhos e dir-vos-ia. Os Açores tornavam-se marca registada de reputação mundial. A terra dos afectos roucos, onde o tempo e a distância nos ensinaram que o amor é mais importante do que os salamaleques.

 

Publicado na Azorean Spirit.

publicado por Alexandre Borges às 01:53
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1 comentário:
De LWillow a 24 de Julho de 2012 às 22:26
Boa ! ;)

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